Do mercado econômico ao de votos
Oquadro
da eleição presidencial de 2018 mostra Lula como o contendor mais
importante. Do outro lado do espectro ideológico pontifica Jair
Bolsonaro, ora em busca de orientação quanto ao que vai propor fazer se
chegar lá, em particular na economia. Mas até aqui não se mostrou muito
aberto a conselhos, dado o seu estilo “deixa comigo”, um tanto
“trumpiano”. Entre os dois, o espaço é disputado por vários candidatos
em busca de maior destaque.
Nesse
contexto, especula-se que alguém de fora da política poderia ser eleito,
a exemplo de João Doria na última eleição para a Prefeitura paulistana,
quando se disse um gestor, e não um político, cuja classe, com exceções
cada vez mais excepcionais, é muito mal vista pelos eleitores em geral.
Essa
opção entre um político tradicional e um gestor, ou outra figura que
tenha alcançado projeção fora do governo, costuma enaltecer pessoas
bem-sucedidas na iniciativa privada. Quanto a isso, li interessante
artigo de Jorge Vianna Monteiro, economista especializado em escolhas
públicas (public choices, em inglês). A teoria dessas escolhas, que
sintetizou em
www.escolhaspublicas.com,
aponta, por exemplo, que a política macroeconômica não é escolhida só
por formuladores em busca de resultados como menor inflação ou maior
crescimento do PIB. É plasmada por uma configuração institucional, a
escolha pública, em que atuam, entre outros elementos, a autonomia
decisória pública, a estabilidade constitucional e a separação de
Poderes.
Assim, arranjos alternativos
dessas instituições (no sentido lato) condicionam a escolha. Noutro
exemplo, este meu, os formuladores da proposta do Executivo de reforma
da Previdência Social subestimaram a importância desses arranjos, pois o
atual revela forte discrepância de interesses entre o mesmo Executivo e
o Legislativo, o que vem prejudicando o avanço dessa proposta.
Recentemente, Monteiro apresentou noutro espaço
(www.portal.noticia.capital)
o referido artigo, intitulado Uma antiga perspectiva econômica
reeditada na corrida eleitoral 20172018. Ele colocou a opção a
políticos, que hoje vejo personificada por candidatos como Doria e
Luciano Huck, como uma alegada necessidade de dar um “choque
administrativo” no setor público, alcançando a chefia do Executivo
federal, que deveria ser ocupada por uma pessoa com bem-sucedida
experiência no setor privado.
Monteiro
pondera que se trata de uma perspectiva analiticamente insustentável,
apontando que desde o surgimento das pesquisas sobre escolhas públicas,
nos anos 1960, com destaque para as de James Buchanan, Nobel de Economia
em 1986, “... deixou-se de lado o pressuposto de que as escolhas
coletivas no processo político possam ser assemelhadas às feitas no
mercado de bens e serviços. Os incentivos num e noutro caso são
distintos, tanto quanto o cálculo de estratégias de seus participantes,
bem como a caracterização do que possa vir a ser um resultado final
‘eficiente’”.
Ao argumentar, Monteiro
concentrou-se em sete atributos nos quais o comportamento do agente
decisor difere substancialmente no mercado de bens e serviços e no
“mercado de votos”, este o do processo político.
Conclui
que “o indivíduo (político, eleitor, etc.) que atua no setor público
está imerso em condições muito peculiares e que em nada se igualam
àquelas a que está sujeito caso opere no setor privado. Portanto,
analiticamente, é uma temeridade – ou um salto no escuro – querer
aproximar o funcionamento (...) de uma virtuosa economia de mercado
(...)” com o da esfera política e seus processos.
Não
tenho espaço aqui para explicar os sete atributos que Monteiro examina,
pelo que recomendo aos interessados recorrer ao seu artigo citado. Vou
apenas propor outro atributo que mostra essa diferença, pois me pareceu
muito relacionado com as dificuldades que Doria passou a enfrentar ao
posicionar-se na corrida presidencial. Foi das palavras de um político
que ouvi a melhor descrição dessas dificuldades: “Ele queimou a
largada”.
Esse atributo adicional é o que
está por trás do tempo entre a decisão e o seu resultado, muitíssimo
mais rápido no mercado de bens e serviços do que nesse “mercado de
votos”, ou processo político. Em geral, um empresário, ou gestor, ou
consumidor no primeiro mercado toma sua decisão e o resultado vem logo
em seguida. Ao buscar o mercado dos votos, contando com um padrinho
político muito poderoso (Geraldo Alckmin) e se contrapondo aos demais
candidatos com uma roupagem diferente e mais atrativa, a de gestor, além
de seu talento como comunicador, Doria foi bem-sucedido e tornou-se
prefeito paulistano, em certa medida até contrariando a teoria da
escolha pública, pois se colocou, como num mercado de bens e serviços,
como um produto melhor.
Mas logo após se
empolgou com o resultado e partiu para uma campanha para chegar à faixa
presidencial. Nesse caso, contudo, as circunstâncias, em particular a
escala da iniciativa, como o número de eleitores e sua pulverização pelo
território brasileiro, e as parcerias políticas necessárias para se
tornar viável como candidato, têm complexidade imensamente maior. E não
deu certo, desta vez confirmando o proposto pela referida teoria. Também
pesou algo ligado ao mercado de bens e serviços, a desconfiança do
eleitor, o “consumidor”, com a promessa de uma boa gestão municipal que,
ainda longe de cumprida, se transfigurou noutra muito mais grandiosa e
difícil, a de administrar o País.
Assim,
João Doria teria subestimado o tempo entre a sua iniciativa e o
resultado que almejava, tempo esse, vale repetir, determinado pela
enorme envergadura e complexidade do processo político de um projeto
presidencial. Se quiser mantê-lo para 2022, não vejo outra saída senão a
de assumir o figurino político e dominar as sutilezas do ramo.
As condições para o sucesso nesses dois mercados são muito diferentes
ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR
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