segunda-feira, 31 de março de 2014

dieta ortomolecular e alimentos antioxidante

Uma dieta que está se popularizando de forma rápida é a “Dieta Ortomolecular” que visa limpar o organismo de substâncias que fazem mal à saúde prezando pelo equilíbrio nutricional e energético, além disso, ajuda no emagrecimento de forma saudável.
A dieta ortomolecular foi desenvolvida pelo químico americano Linus Pauling, com o objetivo de manter o equilíbrio do organismo através da alimentação. Mesmo que você tenha uma alimentação saudável, muitas vezes o seu corpo ainda está carente de algum tipo de vitamina ou mineral, nesse caso a dieta ortomolecular age corrigindo esse tipo de carência.
Através de um exame feito nos cabelos chamado “mineralograma capilar” e um exame de sangue, o médico detecta quais são as carências do organismo, após os resultados o médico irá indicar uma dieta com os alimentos que devem ser ingeridos, e o cardápio pode ser bem variado, mas a prioridade são os alimentos antioxidantes, como:
  • Soja em grão;
  • Gérmen de trigo;
  • Levedo de cerveja;
  • Linhaça;
  • Grão de bico;
  • Avelã;
  • Castanha do Pará;
  • Aveia.
A dieta propõe eliminar o consumo de produtos industrializados, além de carne vermelha e gema de ovo, os carboidratos simples, como pão e arroz branco, devem ser evitados na última refeição.
Seguir a alimentação da dieta ortomolecular indicada pelo médico, auxilia também no combate ao envelhecimento precoce, pois elimina os radicais livres, além disso, deixa o sistema imunológico fortalecido e acelera o metabolismo.
Como em todos os tipos de dietas, a dieta ortomolecular tem suas desvantagens, pois é preciso ter cuidado com a quantidade de vitaminas e minerais que serão consumidos, pois isso pode se tornar um problema.
Dieta Ortomolecular 2
Antes de começar alguma dieta consulte um médico, no caso da dieta ortomolecular somente um profissional poderá indicar a dieta a ser seguida, pois cada pessoa tem um tipo de organismo, por isso é preciso saber exatamente o que cada um precisa para que o resultado seja alcançado.
Para quem quer fazer uma limpeza no organismo.
be Onofre, be Complete

quarta-feira, 26 de março de 2014

Navegação e democracia - Roberto Damatta

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Navegação & democracia

26 de março de 2014 | 2h 14

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
Em casa, há transições e explorações. Não há navegação. Os grandes percursos que descobrem mundos e promovem mudanças ocorrem na rua. Ou melhor, no debate entre a casa e a rua. A primeira produzindo acontecimentos desafiadores, a segunda invocando calma e propondo o realismo dos limites.
No caso do Brasil, a compreensão a partir da casa revela um pensamento fundado no afeto e nas relações pessoais. Ela é o avesso de um mundo público baseado no indivíduo como cidadão e na mudança burocrática e legal - na vã esperança de que as regras mudem os jogadores ou consertem a sociedade.
Passamos da aristocracia para a República e do trabalho escravo ao livre; transitamos entre republicanismos federativos e centralizados e daí para regimes ditatoriais de vários matizes. E, em todo esse caminho tortuoso, demoramos mais para legitimar o divórcio do que para engolir ou aplaudir as ditaduras!
À relativa imutabilidade da casa corresponde a variedade das leis e regimes políticos da rua. Quanto mais regras sem internalização efetiva ou legitimidade, mais atua o bom senso do compadrio, da amizade ou do partidarismo - esse neocoronelismo fundado nos latifúndios ideológicos das utopias e dos projetos de poder. Mas onde fica o país? Na casa, na rua ou recebendo o pior dos dois?
Isso é teatro, dizia meu pai engolindo o choro ao ver minha mãe soluçar diante do desfecho inevitavelmente feliz da novela, cujas confusões eram finalmente "arrumadas". O olhar da família é dominante porque até hoje supomos que o Brasil possa ser resolvido. Embora cada episódio histórico deixe uma sobra, nós continuamos crendo que a sociedade, tal como nos contos de fada, possa ser vivida como uma casa, na qual nascimentos, casamentos e funerais encerram certas situações.
A casa vive de ciclos descontínuos, a rua de uma história contínua, repleta de novidades e contradições. Podemos esquecer da história, mas não perdoamos os dramas da casa. A casa brasileira é uma máquina de canibalizar e domesticar acontecimentos. Ela, certamente, reprime mais do que liberta. Aplicada ao governo, quando uma supergerente do Brasil compra refinarias num negócio da China, verifica-se o tamanho da encrenca.
Testemunhei discussões políticas nas quais meus tios anunciavam o fim do capitalismo e o nascimento do socialismo; para, a seguir, ver como minha avó Emerentina sentava comunistas, fascistas, nacionalistas e americanistas para um almoço no qual o gosto da comida dissolvia todas as divergências. Já nos Estados Unidos, conheci radicais rompidos com a família e, na Inglaterra, comunistas que não falavam com liberais e vice-versa. Nesses universos, as regras da rua e do mundo - igualdade, autonomia, escolhas individuais e dinheiro - operavam também na casa. Tal como as regras de um jogo de futebol (inventado por esses ingleses) valem para os dois times a despeito de todas as vontades.
Se uma sociedade transforma seus costumes em leis universais, deixando que elas governem tanto a sua vida doméstica quanto o seu mundo político e econômico, a dualidade entre casa, rua e outro mundo perde muito a sua capacidade de engendrar conflitos. Não se podem mudar os sentimentos, mas sabe-se que o seu julgamento será feito pela mesmas regras que governam as pessoas e as coisas em geral.
Quando isso ocorre, a ideia não é mais resolver ou arrumar o mundo, mas de refazê-lo todos os dias. Essa é uma premissa do liberalismo que é mal-entendida no Brasil. A questão não é "ser" de direita ou de esquerda, mas é também (e sobretudo) de seguir as regras democraticamente legitimadas de modo consistente, o que é muito difícil num sistema aberto a uma lógica dupla que não é discutida com a seriedade que merece. Convenhamos que nenhum socialismo aguentaria tanta roubalheira, incompetência e hipocrisia.
No plano ético, a transparência moderna não é para amigos e parentes, é para todo mundo. A culpa é tão intransferível quanto o talento. No Brasil, graças à revelação inexorável de cenas vergonhosas na televisão, verificamos que a sinceridade (essa gêmea da transparência) é um ativo e um dever apenas para com os amigos.
Lava-se roupa suja em casa. Pior do que o velho mote: aos amigos tudo, aos inimigos, a lei; e o cínico: o bandido é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo; é lembrar o que dizia Nunes Machado, um líder morto na Revolução Praieira que, num Pernambuco de 1849, manifestava o ideal de liberdade e igualdade em pleno império. Eu - dizia ele com uma rara sinceridade - sou capaz de todas as coragens menos da coragem de resistir aos amigos!
A Praieira ficou registrada na história. Mas seu republicanismo seria dissolvido pela falta de coragem de resistir aos amigos. Não estou pregando o fim da doçura doméstica. O que revelo é a dificuldade de fazer democracia navegando com duas bússolas: uma para os amigos e outra para os outros.
Há uma República, mas ela até hoje não teve a coragem de resistir aos amigos porque a politização positiva - a tão falada "conscientização" - jamais se conscientizou de que para passar das graduações afetuosas da casa, para a impessoalidade que o igualitarismo demanda na rua, há muito mais do que pensa o nosso democratismo de bolso, o qual não faz nenhum esforço para distinguir eficácia, mérito e roubalheira; de simpatia, partidarismo e amizade.
A amizade e a afeição fazem com que a casa devore a rua, quando a vítima é importante. Caso contrário, ela primeiro morre para, em seguida, sua família ser recebida domesticamente pelas autoridades.
A casa salva a rua? Ou é a rua que vai salvar a casa?

domingo, 23 de março de 2014

Por que o bitcoin não é moeda de verdade (Celso MIng)

1 - ele funciona como unidade de valor,porque há câmbio em relaçã a moedas fortes.
2 - finciona como meio de pagamento, na medida em que é usado para remunerar serviços complexos executados por computador e para pagamento de mercadorias e serviços em certos estabelecimentos.
3 - Tambem serve como reserva de valor porque há gente que prefere manter poupanças em bitcoins.

Mas, não chega a completar o DNA de moeda.

1 - não constitui,por exemplo, passivo monetário.  Toda moeda propriamente dita é uma dívida, ou de um banco, ou de um soberano qualquer que a emitem. Não há limite pré-determinado para essas emissões para além da própria política de cada autoridade monetária.  No caso do bitcoin há um limite físico predefinido pelo próprio sistema que o criou: 21 milhões, o equivalente, hoje a cerca de R$32 bilhões.

23032014

sábado, 22 de março de 2014

Maioria paralisantes - Marco Aurélio Nogueira

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Maiorias paralisantes

22 de março de 2014 | 2h 07

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA - O Estado de S.Paulo
As rusgas que no correr das últimas semanas têm turvado o relacionamento entre o governo Dilma Rousseff e o PMDB, exageros e coreografias à parte, puseram no primeiro plano o tema das coalizões governantes.
Para que servem as maiorias que nos últimos 20 anos têm dado sustentação a Brasília? Elas forneceram base parlamentar aos governos do PSDB e do PT, mas não foram muito diferentes entre si. Cumpriram funções semelhantes: dar apoio a certos planos e ações governamentais em troca de cargos e vantagens, vistos como recursos políticos. Por baixo do pano, porém, sub-repticiamente e talvez sem plena consciência, trabalharam para bloquear intenções reformadoras, travar a melhoria da gestão governamental e embaralhar a formulação e a execução de políticas públicas.
O resultado disso é que depois de 20 anos - período em que o País mudou bastante e melhorou em vários setores - a situação parece congelada em áreas vitais e estratégicas: na saúde, na educação, na infraestrutura, no transporte, na segurança. E, claro, na política.
Nunca a política foi tão ruim. Falta praticamente tudo nela: ideias, estadistas, lideranças, discurso, qualificação técnica, interação com a sociedade. É quase um cenário de fim do mundo: terra arrasada, à espera de algum herói que dê sentido e ponha ordem no caos. Difícil localizar alguma fonte de esperança. O fato de o País ter melhorado na sequência do fim da ditadura militar - progressiva e lentamente a partir da Constituição de 1988 - fornece um contraste que dramatiza a questão: como foi possível chegarmos tão longe com a política que temos, ou que não temos?
Não se trata de culpar as coalizões pelo que existe de ruim, mas de vê-las por ângulos mais realistas, que sugerem, entre outras coisas, que o sistema pode estar estável, funcionar a contento em termos de seus inputs e outputs, dar condições de governança e de governabilidade aos governos e, mesmo assim, o País não conseguir ser governado a ponto de enfrentar com determinação e coragem seus problemas seculares e seus déficits de eficiência e produtividade.
Coalizões fazem parte da dinâmica política. Negociações, barganhas, composições, alianças programáticas ou por interesse são como o sal da terra para a política. Quanto mais complexas e diferenciadas as sociedades, mais esse sal parece necessário. Num país com 34 partidos, como o Brasil, se não há convergências e aproximações nada funciona, bate-se em ponta de faca. Especialmente quando se considera que, aqui, o sistema político foi sendo desenhado de modo a impor as composições como expediente de governo, estruturando o assim chamado "presidencialismo de coalizão". Não há como evitá-las e elas cumprem um papel não desprezível: põem um pouco de pressão adicional sobre o Executivo - dificultando seus eventuais apetites tirânicos - e contribuem para tornar viáveis certas políticas e propostas provenientes dos governos. A estabilização monetária, a rotina democrática e a melhoria na distribuição da renda são exemplos emblemáticos disso.
Mas não se deveria apostar às cegas em coalizões, como se a mera existência delas garantisse automaticamente o sucesso. Coalizões sem eixo, sem densidade programática, movidas por interesses eleitorais ou pela vontade de se eternizar no poder transferem pouquíssima virtude aos governos. Sem clareza - eixos programáticos, planos, ideias - e sem coordenação inteligente, coalizões podem ser paralisantes: podem estragar partidos e viciá-los no escambo, tirar energia dos governos, dizimar talentos políticos, impedir a participação social. Terminam por arrastar governos, partidos e parlamentos para a mesmice, fazendo com que a "pequena política" sufoque a "grande política" e a impeça de respirar.
Por isso, quando o governo Dilma e o PMDB passam de "aliados incondicionais" a irmãos inimigos, exibindo ao País a mediocridade dos interesses eleitorais - ora jogando para a plateia, ora aumentando o preço de certos apoios, mas sempre com base na ausência completa de substância -, não nos podemos surpreender, mas devemo-nos interrogar: como foi possível ter chegado tão longe? Até quando as coisas seguirão assim, indiferentes às dinâmicas e às expectativas sociais, aprisionadas pelas grades de um sistema que funciona, mas não produz vantagem para a sociedade, nem para o Estado?
Como bem observou o analista político Carlos Melo em artigo no Aliás do último final de semana, "o sistema assumiu uma lógica própria, funcionando, basicamente, para si mesmo". Os que estão no jogo não parecem integrados à sociedade: falam em nome dela, mas não a representam de fato. Batem-se pelos próprios interesses e cálculos, manuseando recursos públicos como se fossem donos deles, sem visão social mais generosa. Roubam-se pedaços de poder uns dos outros - um poder discutível, porque de baixa repercussão social positiva, mas com o qual se vencem eleições. Só circunstancialmente se processa a mágica que aproxima Estado e sociedade.
A época atual mostra-se hostil à reprodução desse esquema. É ágil, dinâmica, pede respostas rápidas, busca a transparência. Está a criar o tempo todo instituições de novo tipo, que trazem consigo traços de um futuro que não seja mero prolongamento passivo do presente. Não desautoriza coalizões e busca de maiorias governantes, até porque intui que elas são indispensáveis. Mas está à espera de novas modalidades de deliberação política e de governo.
As coalizões que vêm sendo mantidas nas últimas décadas no Brasil não caminham nessa direção. Deveriam todos começar a pensar nelas com maior rigor.
* PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA E DIRETOR DO INSTITUTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UNESP

Consenso negativo - Carlos Melo

Consenso negativo

Ao conceder superpoderes à Presidência e transferir decisões para o Judiciário, parlamentares viraram judas de malhação

15 de março de 2014 | 15h 33

Carlos Melo*
É fato que durante algum tempo o presidencialismo de coalizão do Brasil fez o seu papel: o antipático "é dando que se recebe" foi impiedosamente apedrejado pela opinião pública, mas contribuiu para a efetivação de importante agenda econômica e social. O País saiu da ditadura e do caos inflacionário para um regime que distribuiu renda e fez considerável inclusão. Modernizou-se em vários aspectos e, mesmo com tanta desinteligência que há, é mais democrático do que jamais foi. Houve inegável avanço. Pode-se dizer que o preço - na moeda corrente de cargos e recursos públicos que distribuiu - valeu, já que a transformação não foi pequena. Política também é custo-benefício, e o Brasil de hoje é melhor do que há 20 anos. Ademais, em qualquer lugar, fazer reformas profundas é tarefa custosa.
'Blocão'. Temos partidos que não mais representam partes do todo social  - Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão
'Blocão'. Temos partidos que não mais representam partes do todo social
Mas é necessário reconhecer que, de uns tempos para cá, esse mesmo presidencialismo mudou de caráter e a relação ficou deficitária. Aliados de ocasião recebem seu quinhão de poder, mas já não garantem a execução de programas. As tais "maiorias" são incapazes de fazer reformas e pouco colaboram com os governos. Delas se espera, antes, que não atrapalhem, aprovem "alguma coisa", mas que, sobretudo, anulem a oposição e garantam tranquilidade na esfera parlamentar, evitando o constrangimento de CPIs e outros perrengues. Antes que se atribua responsabilidade exclusiva ao PT, é bom dizer que nos Estados governados pela oposição as Assembleias Legislativas têm, em regra, o mesmo padrão. 
Culpa dos governos que não têm agenda, ou não têm agenda porque não acreditam na capacidade de suas coalizões cumprirem acordos sem impor novos custos, tornando o processo de reforma mais dispendioso que o mal que se procura curar? O fato é que há um vazio de projetos, planos, propostas; um irritante vazio de Política com o "P" maiúsculo. O Brasil chegou à perfeição ou houve uma rendição incondicional às impossibilidades colocadas pela pequena política? Estamos longe, muito longe, da perfeição.
Burocratas tocam o barco, esperando pelo final do expediente; acreditam em ordens. Já estadistas são visionários, enxergam adiante com olhos no futuro distante; trabalham com a persuasão, a todo o momento. Estão escassos no Brasil de hoje. A impressão é que a realidade dobrou espíritos ousados e a única providência possível é contornar os problemas em vez de resolvê-los; deixar que o longo prazo e a crise resolvam o que a timidez e os interesses imediatos não permitem no presente. Quem nasceu primeiro: o vazio de propostas ou a desconfiança dos governos de seus aliados? É possível que sejam gêmeos. O fato é que esvaziar a agenda parlamentar aliciando partidos e políticos tornou-se o mais comum.
Mansamente, o Legislativo se deixou cooptar, abriu mão de prerrogativas e concedeu superpoderes aos presidentes da República. Também transferiu ao Judiciário a responsabilidade de decidir questões que lhe caberiam. Fez de Dilma e de Joaquim Barbosa os heróis de cada uma das metades em que o País tem se dividido. Mas, também, transformou parlamentares num consenso negativo nacional: judas em sábado de aleluia. A safra de políticos é ruim - raros resistiriam a testes mínimos de qualidade. Isso faz com que se despreze a própria atividade. Sem plantar boas sementes de Política, por geração espontânea só crescerá erva daninha nesse pasto.
Partidos políticos deveriam, como diz o nome, representar partes do todo social; parlamentares negociariam interesses difusos, amalgamando a sociedade. O Brasil tem hoje 34 partidos; seria interessante se pudéssemos creditar essa expressiva quantidade à variedade de grupos e interesses reais em ação. Não há, entretanto, setores que se sintam realmente representados. O descolamento revela que o sistema assumiu uma lógica própria, funcionando, basicamente, para si mesmo. Os cargos e o poder que lhes cabem na divisão de recursos - escassos - retornam à sociedade apenas se, ocasionalmente, os interesses de partidos e políticos vierem a coincidir com interesses sociais mais amplos. A coincidência de interesses deixou de ser regra, é exceção.
Pelo ângulo estrito da real política que se faz, a crise entre o governo Dilma e sua base não surpreende. É o que tem sido, uma mesmice sem novidades. Então, não há momento melhor para garantir posições e recursos do que períodos pré-eleitorais; arriscar a reeleição de Dilma parece ser pressão suficiente para derrubar barreiras, nos Estados e no ministério. Assim, o PMDB e aliados acautelam-se para que a fonte de sua força não se esgote. Já o governo, apoiado no suposto favoritismo da presidente, busca sujeitar aliados incômodos que têm retirado do PT importantes nacos de poder - no Congresso Nacional, nos Estados e no ministério. Falta Política num grau elevado. E mesmo para a política que se tem, inexiste coordenação capaz de fazer a partilha. Não se sabe que a alcateia é controlada com sagacidade, não com rugidos de tigres desdentados? Enfim, não se trata de projeto, visões de mundo, conflitos ideológicos: a parada se resume ao cretinismo eleitoral a que a Política foi reduzida. Só isso.
Carlos Melo é cientista político, professor da Insper e autor de Collor - o ator e suas circunstâncias (Novo Conceito).

sexta-feira, 21 de março de 2014

entrevista com mino carta em 27 junho 2013



Postado em 27 Jun 2013
Uma coisa é certa: Mino não é definitivamente o admirador número 1 do jornalismo nacional.

A sala de Mino: no lugar do computador, uma Olivetti
Fuçando em velhos arquivos do computador, eis que me deparo com uma entrevista que fiz, dois anos atrás, com o jornalista ítalo-brasileiro Mino Carta, diretor de redação da Carta Capital e fundador da Veja. Escrevi a matéria em parceria com minha amiga Cátia Cananea para o jornal Diretriz, da faculdade em que eu estudava na época, o Mackenzie. Ao relê-la, percebi que suas ideias continuam bastante atuais e decidi publica-la aqui no Diário. Segue abaixo.
A sala de Mino Carta, o diretor de redação da Carta Capital, tem um quê de vintage. Em cima da mesa, não há computador. No seu lugar, uma máquina de escrever Olivetti. “Tenho medo do computador”, diz Mino. “Ele engole as pessoas, sem que elas se dêem conta disso.” Aos 79 anos, Mino é dono de um currículo impressionante: ele fundou as revistas Veja, IstoÉ , Carta Capital e o Jornal da Tarde, entre outras publicações. Numa tarde de segunda-feira, ele me recebeu em sua sala para uma entrevista, na qual afirmou que a imprensa brasileira é “de uma safadeza e hipocrisia imbatível” e disse que entrou no jornalismo porque queria comprar um terno azul-marinho.
O que o senhor acha da imprensa brasileira?
Ela é excepcionalmente ruim. O melhor jornal que circula em São Paulo é esse aqui, olha. [Pega uma edição do italiano Corriere Della Sera]. Essa reforma da Folha é para rir, né? A imprensa de qualquer país democrático é melhor do que a brasileira. A meu ver, a imprensa brasileira tem dois problemas sérios.
O primeiro está na posição deles. No mundo todo, você vai encontrar posições diferentes entre os jornais. Cada jornal tem a sua postura, que se diferencia da do concorrente. No Brasil, não. Todos os jornais e revistas se juntam contra um inimigo comum. No caso, o PT. Eles não querem incentivar o debate. A nossa imprensa é de uma safadeza e de uma hipocrisia imbatível. Não existe igual no mundo. A imprensa está sempre a favor do que é pior, do que há de mais rançoso, do que há de mais reacionário. Eles gostam de ser súditos, gostam de ser súditos dos Estados Unidos.
O segundo ponto é que os jornais são tecnicamente ruins. Muito ruins. Sem contar as ofensas diariamente cometidas contra a língua portuguesa, uma língua muito bonita, flexível e que mereceria um tratamento melhor.
Então, a imprensa brasileira é tendenciosa, na sua opinião?
A imprensa tem obrigação de ser honesta. Aquela história de ela ser objetiva está errada. Você não consegue ser objetivo em momento algum da vida. Imagina escrevendo! Você é subjetivo até quando deposita uma vírgula. Mas precisa existir honestidade, entende? Ouvir quem está de um lado, quem está de outro. Dar o mesmo peso às declarações de ambos. E, depois, dar a sua opinião, acentuando a diferença entre o que é verdade factual e o que é opinião. A verdade é um fato simples. Esta é uma mesa [ele aponta para a mesa], isso é um copo, estou tomando Coca-Cola. Vocês são jovens estudantes, eu me chamo Mino. Essa é a verdade factual. A imprensa brasileira mente o tempo inteiro, omite informações, quando não convém ao ponto de vista deles.
Há alguma revista que se salva?
A Carta Capital. A Carta Capital é um milagre. Pela qualidade de análise, pela coragem. Você não precisa concordar com a Carta Capital, não é esse o ponto. Não somos os donos da verdade. Absolutamente. Mas, pelo menos, ela te oferece um trabalho em bom português, de análise profunda com a qual se pode concordar ou não. Nós temos a convicção de que o jornalismo se faz para iluminar os leitores.
Além da Carta Capital, há alguma outra?
Não. Tem algumas que são carregadas de boa-fé. Isso já é meio caminho andado. A Brasileiros é uma revista feita com muito boa fé, muita esperança. A Caros Amigos também. Agora, são publicações pouco incisivas, porque são mensais. É complicado fazer uma revista mensal. Ela acaba exercendo uma pressão, uma influência muito pequena. Dilui-se demais. Isso cria problemas sérios.
Qual é a diferença entre a Veja da década de 1970, editada pelo senhor, e a Veja de hoje?
A Veja nasceu uma revista independente, em um momento que não tem comparação com os dias de hoje. Ela nasceu em tempos de ditadura, foi apreendida nas bancas na 5ª edição. Foi submetida a uma censura infernal. Eu fui preso duas vezes e tive que prestar 40 depoimentos na Polícia Federal.
Enfim, eram outros tempos. Quando saí da Veja, ela entregou-se nas mãos da ditadura. Embora tenha mudado a sua postura, ainda era feita por uma equipe competente. Antes, a Veja era de franca oposição dentro das possibilidades, determinadas por uma censura duríssima. Então, naquele momento, a censura foi embora e tudo ficou bem pra eles. Mas, repito, a Veja não perdeu qualidade, mesmo mudando de posição.
Já a Veja de hoje é um acinte, é uma cloaca. Não é uma revista. Ela mente todo dia.
O senhor ainda usa máquina de escrever? Não gosta de computador?
Sim, ainda escrevo na minha Olivetti. Não chego perto do computador. Acho que ele engole as pessoas, sem que elas se dêem conta de que estão sendo engolidas. Tenho medo do computador.
Há quem diga que o jornalismo digital vai acabar com o impresso. Qual é a posição do senhor em relação a isso?
Confesso que esse raciocínio tem a sua lógica. Mas ainda tenho muitas dúvidas. Eu vejo que a internet está sendo muito mal usada. A internet hoje facilita tanto a vida do repórter que ela está acabando com a reportagem, com a cobertura profunda dos acontecimentos. O jornalista já não vai mais a campo. Está tudo lá, na internet. É um instrumento fantástico, negar isso é besteira. É fantástico porque, se você quiser ler tal livro, está lá. Ou, se quiser entrar na melhor biblioteca do mundo, no melhor museu, pode. Enfim, temos à nossa disposição o mundo via internet.
Mas não me parece que ela esteja sendo bem usado. Não tenho muita confiança no gênero humano, entende? Muito pelo contrário. Eu sou dostoievskiano na minha visão do homem. Não acredito que o homem vai produzir grandes coisas. Acho que o homem vai se meter, sempre, em guerras e lutas. E, o pior: em mutretas, em obras escusas.
Como o senhor entrou para o jornalismo?
Meu pai era jornalista, meu avô era jornalista. Meu irmão sonhava em ser jornalista. Eu, não. Achava os jornalistas um bando de chatos. Falando sempre de coisas, segundo eles, extraordinárias e, na verdade, terrivelmente iguais. As pessoas mudam de nome, mas você lida sempre com o mesmo tipo de personagem.
Enfim, quando eu tinha 15 anos, queria muito ir aos bailes de sábado. E eu precisava de um terno azul-marinho para ir. Meu pai recebeu uma proposta de um jornal italiano para fazer algumas matérias de futebol. Acontece que ele odiava futebol. Detestava cordialmente o futebol. Eu gostava, e eu jogava. Ele me chamou e disse: “Olha, tão me oferecendo isso. Você quer escrever?” Eu disse: “Quanto vale?” Ele falou que era tanto. E eu: “Perfeito, muito bom!” Com aquele dinheiro, eu podia fazer um terno azul-marinho num bom alfaiate. Bom mesmo! [risos] Aí, descobri que a felicidade estava ao alcance de quem quisesse escrever os artigos. Quer dizer, aquilo que eu concebia como felicidade, né?
Qual é a maior virtude que um jornalista pode ter, em sua opinião?
Posso dizer quais são as regras que devem inspirar o jornalista, aqueles princípios básicos. O primeiro é a fidelidade à verdade factual. Fidelidade total, não omitir nada daquilo que está ali. Em segundo, o exercício do espírito crítico. Isso é fundamental. Ter uma postura diante das coisas. Aliás, essa é a melhor maneira de ser efetivamente vivo. É um sinal de vida quase tão importante quanto respirar. E o terceiro ponto é a fiscalização do poder. Não só o poder do governo. Mas, também, o poder do banqueiro, é o poder da cultura, o poder em geral. O poder sempre se manifesta, existe em qualquer lugar.
Agora, esses são os princípios. O jornalista precisa ter talento, ter vocação. É possível desenvolver a técnica. Mas é fundamental ter algum talento, saber escrever bem. Jornalismo é uma forma de literatura, é um braço literário indiscutível. Grandes jornalistas foram grandes escritores. Você aprende a escrever realmente bem lendo muito. A leitura é fundamental para quem quer escrever. Tem que entrar em você. É a partir daí que você ganha um enorme desembaraço em relação à escrita.
Sobre o Autor
Editor-chefe do portal masculino El Hombre, Pedro Nogueira é louco por esportes -- especialmente pôquer e sinuca, segundo ele "as modalidades mais honestas e emocionantes do atletismo".

terça-feira, 18 de março de 2014

ubaldo - o filme é o mesmo

JOÃO UBALDO RIBEIRO - O Estado de S.Paulo
Essa presepada regida pelo PMDB, à frente do saco de gatos conhecido como base aliada, augura um ano eleitoral bem movimentado. Nossos governantes começam a engalfinhar-se, no estressante afã de cada um garantir o seu e fazer as escolhas certas, antes que seja tarde, pois um erro de cálculo, a esta altura, pode sair muito caro. Com o possível intervalo da Copa, tudo agora é campanha eleitoral e tudo o que se faz em política é com o olho nas eleições, não importa quanto se minta em contrário. Lá vamos nós outra vez, pagar ingresso caro por um filme que já vimos.
Ninguém está pensando, ainda que remotamente, no interesse público ou nos destinos do país. Para muitos, isto não acontece nunca e, em época de eleição, fica pior. A briga é por poder e - por que não dizer? - dinheiro, porquanto, mesmo onde não haja corrupção, há o desfrute de incontáveis vantagens, traduzíveis em bastante dinheiro. Os partidos políticos não querem dizer nada, são meros aglutinadores de interesses frequentemente passageiros e mutáveis, segundo as circunstâncias. Já há muito tempo, contam-se entre os nossos padecimentos sermos expostos à propaganda partidária gratuita, com o que nos passam um permanente, embora talvez merecido, atestado de burrice, desimportância e ignorância.
Se os nomes e siglas dos partidos fossem retirados desses programas, todos serviriam para todos, são obras-primas de vacuidade e ambiguidade, que os tornam praticamente intercambiáveis. Se se quiser, através deles, definir a identidade de um partido, a dificuldade será grande. Às vezes sem mudar nem o palavreado, são todos, pela justiça social, pela criação de empregos, pela melhoria da saúde, da educação e dos transportes, pela segurança pública e por tudo mais com que qualquer um concorda, só o Amigo da Onça seria contra melhorias em todas essas áreas.
Mas nenhum diz o que fará concretamente para mudar o que tanto se deplora. E, principalmente, nenhum diz como fará para atingir objetivos porventura explicitados. Farão precisamente o quê, planejam que ações? Se prometem tal ou qual reforma, como procederão para superar os obstáculos e concretizá-la além do nível do gogó? De que instrumentos pretendem dispor ou que instrumentos pretendem criar, que mudanças reais pretendem fazer, além das cansadas invectivas contra a má qualidade da educação, da saúde, dos transportes e assim por diante?
Há muito tempo que não se vislumbra uma estratégia, por parte dos governantes e dos partidos, para o nosso destino como país e como sociedade. Que tipo de país queremos para nós, aonde queremos conduzir nosso futuro, que projetos temos? O governo atual dá a impressão de agir topicamente, conforme a necessidade. Apareceu um problema, faz um plano para atacá-lo. Não parece haver nada orgânico, nada estruturado, nada definido de acordo com uma visão mais abrangente. Priorizar o social e criar empregos também são objetivos vagos, que tinham de pertencer a um todo bem mais especificado. O que parece acontecer é que se tomam decisões meio ao deus-dará - vamos fazer um trem-bala ali, uma transposição de água do São Francisco acolá e por aí vamos, aos solavancos.
O que se disputa é poder e dinheiro mesmo. O poder e suas mordomias significam tanto que, muito frequentemente, se prefere morrer a perdê-los. No Brasil, pense o cidadão comum nas vantagens de muitos governantes (governantes, talvez seja bom lembrar, de todos os poderes da República, não somente o Executivo), que nunca mais vão entrar numa fila; nunca usarão transporte público; têm salários elevados, ajudas de custo e todo o tipo de verba especial - alguns com cartão corporativo; nunca mais enfrentarão nenhuma das indignidades enfrentadas pelo cidadão comum, no dia a dia; têm jornadas de trabalho, férias e licenças especialíssimas; gozam de aposentadorias integrais e outras vantagens depois de pouquíssimo tempo de serviço; não gastam nada com planos de saúde, mas, pelo contrário, têm direito a atendimento nos melhores hospitais do país, direito estendido também à parentela. Ninguém pode avaliar o significado de toda essa tranquilidade, em comparação às incertezas em que vivem aqueles fora do poder ou da riqueza - e se compreende a observação atribuída a Darcy Ribeiro: "O Senado é o céu".
Enquanto durar o presente fuzuê, nada mais deverá ocupar os parlamentares. Esse negócio da sobrevivência é uma briga difícil e absorvente, o sujeito não pensa em mais nada. Além disso, a moeda de troca do governo talvez esteja até ficando escassa. Depois do mensalão, ficou meio fora de moda comprar diretamente o apoio - e os ministérios estão aí mesmo, para serem negociados. A escassez, contudo, pode atrapalhar, restando apenas a criação de mais uns dois ministérios, para tentar com isto, juntamente com uma dúzia de diretorias e umas três dúzias de conselhos deliberativos e mais uns assemelhados, suprir a demanda. Não creio que, para quem já é recordista em número de ministérios, mais uns dois sejam problema; onde comem 39, comem 41.
Um combativo guerreiro do PMDB disse que não se trata de cargos, mas de palanques. Acho o reparo irrelevante, porque claro que no fundo é a mesma coisa. O certo é que podemos ter certeza de que, mais uma vez, não é em nós que eles estão pensando, é neles. Não querem independência nenhuma, nem fazem nenhuma reivindicação nossa, querem é garantir o deles. Mas passa e vai acabar dando em nada. A não ser, é claro, que venham a sentir que o governo vai perder a eleição. Aí declararão outra vez independência e dirão que fazem tudo isso para o bem do Brasil.