domingo, 23 de agosto de 2015

o que cria emprego (vale pelo destaque em vermelho)

O que cria emprego

Renato Cruz
23 Agosto 2015 | 07h 45 O ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, acusou serviços como Netflix e WhatsApp de “subtrair empregos” dos brasileiros. Realmente, segundo o Ministério do Trabalho, o Brasil perdeu 778 mil postos de trabalho num período de 12 meses, encerrado em julho. É difícil achar indícios, no entanto, de que os culpados tenham sido os serviços prestados via internet.
A principal vítima foi a indústria de transformação, com 427 mil vagas perdidas, seguida da construção civil, que viu desaparecer 355 mil empregos. Apesar de uma perda de 58 mil postos em julho, o setor de serviços, diretamente afetado pelos aplicativos, ainda consegue manter saldo positivo de 33 mil vagas no período de 12 meses.
É verdade que Netflix e WhatsApp criam poucas vagas diretas localmente. Serviços via internet buscam aproveitar a escala mundial, que, além de beneficiar a empresa, permite oferecer alternativas mais baratas para o consumidor. A fala do ministro reflete uma preocupação das teles, que têm dificuldade em competir com as empresas de internet.
A visão equivocada de que toda empresa precisa produzir localmente norteou grande parte da política industrial brasileira nos últimos anos, e o resultado é esse que vemos. Até mesmo nos números do Ministério do Trabalho. Os Estados Unidos, por exemplo, não têm fábricas de televisores há mais de década, e não fazem esforço para recuperá-las. Projetam iPhones e mandam produzi-los na China.
Mas a administração pública insiste em ver o Brasil como um mercado isolado do mundo e, no lugar de dar condições para ampliar a atuação internacional de nossas empresas, prefere criar impostos, taxas e barreiras de mercado. Não por acaso estamos em 57.º lugar no ranking global de competitividade. E caindo.
O que cria emprego é manter a economia estável e a inflação sob controle, com contas públicas bem administradas. É garantir infraestrutura logística adequada. É oferecer educação de qualidade. É investir em pesquisa científica. É ter carga tributária capaz de garantir competitividade externa. É reduzir a burocracia para incentivar empreendedores e atrair investimento. É assinar acordos internacionais para abrir novos mercados.
O ministro está certo no diagnóstico de que existe assimetria regulatória e é preciso fazer alguma coisa. Mas, pelo discurso e pela situação da economia brasileira em geral, é mais provável que obrigações sejam estendidas a empresas de internet do que retiradas das costas de companhias tradicionais.
Netflix e WhatsApp também foram criticadas por “não investir em infraestrutura”. É um pouco como criticar a Coca-Cola por não colocar dinheiro em estradas, já que seu produto é transportado por caminhões.

sou, quando estou - Ayres Britto

‘Sou, quando estou’


CARLOS AYRES BRITTO
23 Agosto 2015 | 03h 00
A sentença oracular acima é de Mouna Moura, psicóloga e espiritualista de Brasília. Se bem conheço a dona da frase, ela quis vocalizar coisas assim: o meu ser infragmentado somente irrompe no aqui e no agora; é quando enxoto de mim o passado e o futuro que me ombreio à própria vida, que também só acontece no esplendoroso intervalo entre o que já passou e o que ainda não veio; viver por completo o presente é fazer do breve o intenso, único modo de fazer da eternidade uma experiência; intensificar a vida é fisgar e deglutir cada instante como, de fato, cada instante é: uma imensidão de possibilidades. Otimizado ponto de encontro entre o sucessivo e o insucessivo, que não é senão o ponto de unidade do fragmentado e do infragmentado. Percepção que levou Parmênides (530-460 a.C.) a pronunciar estas palavras sobre a inteireza da vida: “Nunca foi nem será, porque simplesmente é”. Ou, quem sabe, Vinicius de Moraes a ensinar que “a vida só se dá pra quem se deu”. A vida a somente se dar por inteiro a quem por inteiro se dá a ela, que já é um se dar na plenitude do aqui e do agora.
Pois bem, essa predisposição para entrar de cabeça nos domínios do aqui e do agora é o que está a acontecer com a sociedade civil brasileira. Ela a compreender que somente é quando está na posse do seu inteiro e renovado ser. Do seu DNA, para recorrer à teoria de Paul Johnson acerca da estruturação histórica de cada povo. Que já é um código genético de completa sintonia coletiva brasileira com o que há de mais civilizadamente atual. Mais presente. Mais pulsante. Vale dizer, um código genético eminentemente cívico ou de quem se dá ao respeito de participar da arquitetura do seu próprio destino. O renovado DNA de um povo finalmente identificado com a democracia mais intrinsecamente meritória, que é a democracia de três vértices: a liberal, a social e a fraternal. Uma democracia pra valer, porque voltada para a definitiva conciliação entre poder e pudor; capital e trabalho; desenvolvimento e meio ambiente ecologicamente equilibrado; legitimidade como pré-requisito de investidura nos cargos políticos e legitimidade como requisito de desempenho por todo o mandato; pluralismo e visão individual das coisas; Direito Penal eficaz e devido processo legal, especialmente quanto às garantias fundamentais do contraditório e da ampla defesa. Tudo sob a premissa fundamental de que não se pode impedir a imprensa de falar primeiro sobre as coisas, nem o Poder Judiciário de falar por último.
Esse reprogramado DNA brasileiro encarna o quê? Uma nova quadra histórica! Uma inflexão institucional do mais largo espectro! A concreta guinada de 180 graus pós-Constituição de 1988. Por isso que a sociedade civil brasileira está a se ombrear e até a se impor ao Estado. 515 anos depois do descobrimento do País, relembre-se. Ela, sociedade civil, a se livrar das sequelas da anterioridade do Estado como ocupante do território brasileiro. A se assumir como titular dos princípios que se põem como deveres jurídicos do Estado mesmo. Princípios que são supernormas de Direito, dentre eles o da “moralidade” administrativa (cabeça do artigo constitucional de n.º 37). Também assim o princípio da “cidadania”, sem cujo exercício o princípio igualmente fundamental da “soberania” não passaria de uma bolha normativa (incisos I e II, art. 1.º). Mera proclamação retórica. Afinal, como decidir soberanamente sobre as coisas sem o pleno conhecimento que delas possibilita a ativação da cidadania? Como votar conscientemente sem a plena ciência da vida pregressa dos candidatos, se o vocábulo “candidato” significa precisamente “cândido”, puro, limpo, em sentido moral? E “candidatura” não é senão “candura”, ou limpeza, ou pureza igualmente ética?
Eis o quadro atual da vida brasileira. Um panorama que tenho como de descoberta e assunção de uma genuína identidade nacional. Uma consciente e decidida autoidentificação que se põe como a própria condição da exigência do respeito da sociedade por si própria, antes de tudo. A implicar um antagonismo inicial com o Estado, é certo, porque ela se deu conta de que as instituições estatais de governo dão mostras de enveredar por um caminho tal de disfunção ética e falta de competência funcional que já resvala, danosamente, para os domínios da economia do País. Ali onde o bolso é mais assediado pelo estômago e por outras exigências de uma vida humana material e psicologicamente segura. Ali onde o sapato mais aperta e os calos costumam ser insuportavelmente dolorosos. Com a novidade de que já não servem de anestésico as palavras oficiais apenas da boca pra fora. Mas também, reconheça-se, um espaço de antagonismo passível de superação pela mais frutuosa das parcerias público-privadas, que é a parceria do Estado com o conjunto da sociedade a que ele deve servir com toda a competência, devoção, honestidade e transparência. Essa transparência que Norberto Bobbio tinha como elemento conceitual da própria democracia, a ponto de afirmar que ela, democracia, “é o governo do poder público, em público”; isto é, com toda a visibilidade ou desnudadamente.
Enfim, que os dois Poderes elementarmente políticos do Estado, especialmente o chefiado pela atual presidente da República, tenham lucidez para entender que a sociedade civil já está bem adiante deles no frescor das ideias e na depuração dos costumes. Ela é que prossegue a rezar pela cartilha da Constituição e por isso mesmo tem todo o direito de ser ouvida. Ser ouvida, inclusive, quanto a duas coisas: 1) ao desabafo de que já transbordou o copo da sua paciência com esse fundo de quintal que é a transformação de um presidencialismo de coalizão programática em presidencialismo de cooptação argentária; e 2) à advertência de que, bem conceituou Einstein, “loucura é esperar resultados diferentes fazendo-se sempre as mesmas coisas”. Não equivale à admoestação do “reinventa-te ou te devoro”? A vida, com sotaque alemão, a enfiar 7 x 1 num conhecido e defasado técnico de futebol?
EX-PRESIDENTE DO STF

entrevista do Serra ao Valor em 17082015

Entrevista: Há um “vácuo de poder” na Presidência, diz Serra

Em entrevista publicada nesta segunda-feira (17/08) no jornal Valor Econômico, o senador José Serra (PSDB-SP) falou sobre a política e economia com a jornalista Raquel Ulhôa.
Brasília – O senador José Serra (PSDB-SP) prevê aprofundamento da crise econômica e considera fruto de “flutuações intersemanais” o aparente alívio à presidente Dilma Rousseff, na semana passada, após movimentos do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Para o tucano, é tal a fraqueza do governo e a combinação de crise econômica, política e moral que, “se o fator militar estivesse presente hoje, como em 64, estaríamos tendo perturbações gravíssimas nessa área”. Ele ressalta a inexistência desse risco hoje. Na crise do governo Collor, Serra, então líder do PSDB na Câmara, defendeu a renúncia do presidente como melhor solução para o país. Desta vez, fala do tema com mais cautela. “A renúncia é prerrogativa da Dilma. Não tenho dúvida que o país gostaria que ela renunciasse. Mas ela não vai fazer isso”. Para ele, o problema da crise é o “vácuo de poder” na Presidência da República. O senador esteve pela primeira vez presente nas manifestações de rua contra Dilma, ontem, na avenida Paulista, em São Paulo. O senador considera o governo “muito ativo na área econômica, só que de forma errada”. Classifica de “ativa e burra” a política de ajuste e fala em “insanidade” da política monetáriacambial. Alerta que a ameaça de bombas fiscais continua. Ex-governador de São Paulo e duas vezes candidato à Presidência, Serra diz que disputar pela terceira vez não faz parte de suas “cogitações de hoje”.
A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:
Valor: Qual a avaliação da crise?
José Serra: Ela tem uma particularidade interessante se comparada, por exemplo, com a de 1964 e a do Chile, de 1973, que desembocaram em golpes militares. Eu vivi as duas experiências. Politicamente, esses países estavam divididos quase meio a meio. Antes de cair, Jango, numa pesquisa do Ibope, tinha mais de 40% de popularidade. O presidente chileno, Salvador Allende, seis meses antes de ser derrubado, tinha obtido 42% dos votos nas eleições parlamentares. A particularidade da situação brasileira de hoje é que praticamente não há divisão. A esmagadora maioria do povo é contra o governo. A rejeição [ruim e péssimo] é mais de 70% e o ótimo e bom, um décimo disso.
Valor: Governo mais fraco que os outros, alvos de golpe?
Serra: Uma grande conquista da democracia pós-85 foi o desaparecimento do fator militar na política. Eu não tenho dúvida de que, se o fator militar na política hoje fosse semelhante ao que era no período 1946/64, estaríamos tendo perturbações gravíssimas nessa área, tal é a fraqueza do governo, e tal a combinação de crise econômica, política e moral. Não estamos tendo perturbação militar e não vamos ter. Isso deve ser comemorado.
Valor: Embora há setores que defendam intervenção.
Serra: São mínimos. Tudo o que os comandos militares não querem é interferir na política, descumprir a Constituição.
Valor: A economia explica a rejeição?
Serra: É a fraqueza do governo. Temos crises econômica, política e moral. O governo é incapaz de enfrentar com um mínimo de eficiência os transtornos da economia, fazer articulação política eficiente com Congresso e partidos. E deve suportar a desintegração do lulopetismo, de cujo ventre nasceu. Ao contrário do que se imagina, o governo está muito ativo na economia, só que de forma errada.
Valor: Como?
Serra: Primeiro, na fixação de metas irrealistas no plano fiscal. Segundo, grande ativismo na política monetária, cujo propósito consistente é derrubar a atividade econômica e elevar o desemprego, com suposta finalidade de conter expectativas sobre a inflação futura e comprazer as agências de risco internacionais. Os aumentos de juros são a demonstração mais clara.
Valor: Principalmente o último?
Serra: Você eleva juros quando tem atividade econômica aquecida, inflação de demanda e crise do balanço de pagamentos. Nenhum desses fatores está presente. Pelo contrário. Mesmo assim, o juro básico da economia foi aumentado em meio ponto, a um custo de R$ 7,5 bilhões anuais. Vai derrubar mais a atividade econômica e aumentar desemprego, relação dívida bruta-PIB e déficit público, que vai chegar a 8,4% do PIB até o fim do ano. Os juros explicam a quase totalidade desse valor.
Valor: É o que chama de ‘política de ajuste que aprofunda o desajuste’?
Serra: É. Política ativa e burra. E olhe que a meta do Banco Central e da Fazenda, sempre anunciada e nunca cumprida, é a de estabilizar a relação dívida-PIB. Estão fazendo o oposto. A insanidade da política monetária-cambial e sua vocação para elevar os gastos públicos se revela com clareza na questão dos swaps. O Brasil tem US$ 350 bilhões de reservas, que custam caríssimo, e o governo, em vez de usá-las, faz operações com dólar futuro, para amenizar perdas dos investidores privados, que acham que o dólar vai continuar subindo. Mas não há nenhum motivo econômico objetivo para o câmbio explodir, fora a especulação propriamente dita e a ansiedade pela não existência de governo.
Valor: O que deveria ser feito?
Serra: Se tem gente achando que o dólar vai chegar a R$ 4 a R$ 5, vende. Vamos parar de vender dólar futuro, em operações cujo prejuízo neste ano, contabilizado como dívida do Tesouro Nacional, foi de R$ 57 bilhões, superior aos resultados que se pretendia obter em matéria de melhora das finanças públicas. Isso mesmo: R$ 57 bilhões a mais de déficit público, por causa de política errada.
Valor: A crítica é focada no Banco Central?
Serra: É na área econômico-financeira. A responsabilidade é do governo. O Banco Central é do governo, não é uma filial do Vaticano. A descoordenação entre Fazenda e BC vem do governo.
Valor: Qual a culpa do Congresso?
Serra: Com relação ao ajuste fiscal, a frustração da meta é responsabilidade do Executivo, que fixou meta sem saber os números do ano passado e supôs que a receita tributária cresceria 7,5% real em 2015. Só no primeiro semestre deste ano ela caiu 4,5%. O Congresso ainda não votou o projeto da reoneração de tributos sobre as empresas e diminuiu os cortes em seguro desemprego, pensões e abono salarial. Isso não passa de 25% do que se queria. Ou seja: as medidas que o governo elaborou para obter maior ajuste fiscal representavam R$ 135 bilhões e somente R$ 32 bilhões dependem do Congresso.
Valor: E as “bombas fiscais”?
Serra: Existem e podem pôr a perder o futuro do Brasil, mas não afetaram a conjuntura do governo. Até agora, exceto o fim do fator previdenciário, cujo efeito é a longo prazo, nenhuma estourou. Mas criam maior pessimismo para os próximos anos. Se tudo for aprovado, o futuro será vítima deste presente de irresponsabilidade fiscal.
Valor: Empresários vieram a Brasília atuar contra a pauta-bomba. O medo é grande?
Serra: Houve um quase-pânico entre os empresários diante da questão desses artefatos. Não porque afetariam todos diretamente. O sistema financeiro tem tido rentabilidade altíssima, em função da política monetária do governo. Mas tem grande ansiedade com relação ao médio e ao longo prazos. O que dizer, então, dos setores empresariais que já não vão bem? Dentro do Congresso também cresceu a preocupação. No entanto, a ameaça das bombas fiscais não acabou. Até agora, nenhuma foi desativada.
Valor: E podem ser usadas para desgastar o governo?
Serra: Isso não pode ser analisado em termos do que é bom e do que é ruim para Dilma. Não é necessário fazer bombas fiscais no país para que o governo se desgaste mais. O que preocupa são as consequências futuras. Dinheiro não nasce em árvore nem é clara de ovo, que você vai batendo e fazendo crescer. Não entro na discussão da justiça de cada medida, mas há impossibilidades econômicas e dificuldades estatísticas de medir a implicação de todas. Na maior parte dos países, o Congresso é populista do ponto de vista fiscal. O fator de equilíbrio tem que ser puxado pelo Executivo.
Valor: O que não acontece hoje?
Serra: Não, devido à fragilidade do governo e à ideologia do lulopetismo. E tem presente aquilo que chamei, desde a constituinte, de ‘Fuce’, ‘frente única contra o erário’, que pega todos os partidos, de esquerda e direita. A ‘Fuce’ se fortaleceu recentemente, porque, vamos ter claro: aquilo que se chama de direita, no Brasil, é tudo menos austera. E a esquerda apenas pensa que é esquerda, mas é porta-voz de corporações, em geral alheias às grandes massas do povo. E o PT nunca foi partido de esquerda. Sempre foi um partido de corporações organizadas e fortes.
Valor: Com governo fraco, a ‘Fuce’ se fortalece?
Serra: É a maior da história. Paralelamente, as finanças dos governos estaduais e municipais estão esfrangalhadas, devido à queda de receitas; e os serviços sociais se deterioram sem parar. Há também um círculo vicioso. Nos fins de semana, os parlamentares ouvem falar muito mal do governo nos seus redutos. Os da base voltam descolados dela e os que não são, estimulados a fazer oposição mais aguerrida, às vezes exagerando no ‘quanto pior, melhor’.
Valor: É o que acontece hoje?
Serra: Mas não é só isso. O PT não tem o que dizer a respeito do Brasil. O governo Lula deu grande impulso à desindustrialização, sobretudo a partir da crise internacional de 2008. A nossa indústria regrediu, em matéria de peso na economia, aos anos 40. E o governo, o que está fazendo? Tem alguma política, mesmo difícil de implantar? Não há rumo. Como no país de Alice: se você não sabe para onde vai, todos os caminhos o levarão a lugar nenhum. É o que está acontecendo.
Valor: O governo termina o mandato?
Serra: Se alguém disser que sabe com certeza o que vai acontecer neste ano, está por fora. A principal característica da situação atual são as incertezas. Mas é fácil saber que governo fraco como esse, sem capacidade de iniciativa, só fará com que a crise se aprofunde no futuro próximo. Claro que, em economia, há o fenômeno dos ciclos. Quando a coisa vai muito mal, depois de um tempo há desaceleração da queda, alguma reativação. Mas não vejo uma retomada do crescimento de verdade.
Valor: Na crise do governo Collor, o senhor defendeu a renúncia como melhor solução.
Serra: Sim, dei a entrevista no final de junho de 1992. Collor não tinha partido. Dilma tem. Ele não tinha base formal de sustentação. Agora, [a presidente] tem. Ele era um ‘lone ranger’ – cavaleiro solitário. Quando dei aquela entrevista, faltavam evidências que nas semanas seguintes iriam comprometê-lo pessoalmente. Curiosamente, durante o seu governo o Congresso não armou bombas fiscais, apesar de ele ter minoria. Na época, eu era líder do PSDB na Câmara e Fernando Henrique, no Senado. E influenciamos muito no sentido de que não se fizessem coisas que iriam comprometer o futuro.
Valor: Prevendo o futuro?
Serra: Como se tivéssemos bola de cristal, porque, na época, ninguém sonhava que Fernando Henrique iria ser ministro da Fazenda e presidente. Mas me lembro que, quando Eduardo Jorge e José Genoino eram líderes do PT, mesmo quando seu partido propunha loucuras, eles diziam ter consciência disso e, no fundo, não faziam muita questão de que as bombas explodissem, pois tinham expectativa de pegar o governo nas eleições de 1994.
Valor: A crise era menos grave, por ser focada no presidente?
Serra: Era. Hoje não. A presidente Dilma vai junto com uma estratégia política, partidária e governamental – o lulopetismo, que naufraga. Se você perguntasse reservadamente para o Lula se o lulopetismo naufragou, creio que até ele diria que sim.
Valor: Agora não considera a renúncia a melhor solução?
Serra: A renúncia é prerrogativa da Dilma. E, ao que tudo indica, pelo que ela tem reiterado numerosas vezes, não cogita de renunciar. Mas não tenho dúvida que a esmagadora maioria do país gostaria que ela renunciasse.
Valor: O senhor tem conversado com o vice-presidente, Michel Temer, sobre uma saída da crise?
Serra: Veja, não vejo o Temer há mais de um mês, mas é óbvio que falamos sobre política. Não cabe a mim dizer o que Michel pensa, mas, em nenhum momento, diga-se, o senti conspirando contra a presidente. Aliás, aceitou um verdadeiro abacaxi, que é essa coordenação política do governo junto ao Congresso. Uma das tarefas mais ingratas que alguém poderia ter.
Valor: Há acordo possível?
Serra: O ocupante de nenhum outro cargo tem a capacidade de assumir o papel do presidente da República, porque não detém suas prerrogativas, suas possibilidades. A presidente é quem tem a caneta, mas não sabe o que fazer com ela. Ela terceirizou a articulação política, o comando da economia e a definição da agenda. Terceirizou o trabalho de ser presidente. Depende da boa vontade alheia para tocar o governo. As instituições começam a derreter e suas áreas fronteiriças tendem a se misturar, causando confusão. É como se ninguém soubesse mais qual é o papel de quem e responsabilidades e limites de cada um.
Valor: O Senado pode ajudar?
Serra: Em resumo, o problema todo da crise atual, política ou econômica, é o vácuo de poder na Presidência da República. Isso continua, com ou sem tentativas de entendimento com o Senado. É esse vácuo que alimenta as discussões sobre impeachment ou renúncia. Não tenho dúvida que o país gostaria que ela renunciasse. Mas não vai fazer isso.
Valor: Seu mandato tem alta taxa de sucesso. É campeão de propostas aprovadas. A parceria com o presidente do Senado, que comanda a pauta, ajuda?
Serra: Tenho tido um trabalho produtivo no Senado, como tive quando deputado e constituinte. Esse trabalho envolve, naturalmente, o presidente Renan, a Consultoria do Senado, que é muito boa, meu partido -que sempre me apoia-, os líderes de outros partidos, os presidentes de comissões e a maioria dos senadores. Quando há votação de projeto meu, visito colegas no seu gabinete, encontro-os no salão do café e vou de cadeira em cadeira, pedindo voto. Quando preciso de assinaturas para requerimento, peço-as pessoalmente. Trabalho bastante.
Valor: A “Agenda Brasil”, com propostas para animar a economia, pode dar resultado?
Serra: Olha, [o efeito] é maior ou igual a zero. Não tem efeito negativo. Caberia ao governo trazer a agenda ao Congresso e não o contrário. Mas o governo é fraco e tem baixa capacidade de articulação. Claro que, na política, há sempre intenções por trás dos gestos e das conversas. Mas está se sofisticando demais a análise nesse caso.
Valor: A movimentação de Renan parece ter dado um alívio ao governo.
Serra: São as flutuações intersemanais, naturais na política.
Valor: Não acredita em melhora de fato?
Serra: Não estou torcendo para que não haja, mas, sinceramente, a chance me parece pequena.
Valor: O PSDB será a força mais forte em 2018? E os outros partidos?
Serra: Sem dúvida, o PSDB será um partido forte em 2018. Mas, francamente, a essa altura fazer um ranking de possíveis pesos dos diferentes partidos em 2018, é quase como especular o que tem do outro lado da lua.
Valor: Acredita em mudança grande do quadro?
Serra: Evidente. A crise é profunda. Há uma frase do Paul Valéry que vira e mexe me vem à cabeça: ‘Le futur ne sera pas comme il était’ – o futuro não será mais como ele era. Basta dizer que o lulopetismo está nos seus estertores, que o Brasil se desindustrializou, que as multidões vão às ruas sem o patrocínio de partidos, governos ou sindicatos. Alguém previa isso em 2010? A história é feita de excentricidades. O improvável comanda os grandes acontecimentos, as mudanças históricas.
Valor: Mantém a pretensão de disputar novamente a Presidência da República?
Serra: Hoje? Nenhuma. Não faz parte das minhas cogitações de hoje disputar ou não disputar. Estou concentrado no trabalho do Congresso e junto à sociedade. Nos projetos e na política. 2018 é longuíssimo prazo, acredite. Caraminholar com candidaturas, a esta altura, só atrapalha mais ainda a batalha para sairmos da crise.
Valor: Planeja propor adoção do parlamentarismo?
Serra: Defendo a implantação desse sistema a partir das eleições de 2018. Se há algo que está no programa do PSDB, é o parlamentarismo. Mas não se deve usá-lo para resolver crise imediata, como no episódio da renúncia de Jânio Quadros. Alguns dizem que hoje teríamos um parlamentarismo branco. Nada mais falso. O suposto triunvirato formado por Renan, [Eduardo] Cunha e Temer não substitui governo. Muito menos este, que parece perdido.
(Fonte: Jornal Valor Econômico 17/08/2015)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nutrição personalizada


profissoesdofuturo

Profissão do Futuro: nutrição personalizada

A relação entre genética e alimentos está transformando o trabalho dos cientistas e nutricionistas. Veja áreas de atuação promissoras

Por que uma pessoa responde a uma determinada dieta emagrecendo satisfatoriamente e outra, comendo exatamente as mesmas coisas, não vê o ponteiro da balança sair do lugar? O que acontece em cada célula do meu organismo quando eu passo a ingerir, com regularidade, frutas vermelhas? Isso pode ter efeitos e reações genéticos diferentes em mim e em você? De que forma isso tudo pode determinar se eu terei mais ou menos saúde no futuro? A interação da genética e dos alimentos está revolucionando o trabalho dos cientistas da alimentação e dos nutricionistas. O conhecimento, por sua vez, transforma o modo como nos relacionamos com a comida.
De um lado, as pesquisas que investigam a relação de genética e alimentação são uma área de trabalho fascinante para quem deseja atuar em laboratório. A nutrição, assim como a medicina, não existe sem a comprovação científica. Abre-se assim um campo de trabalho enorme para epidemiologistas, cientistas de alimentação, os próprios nutricionistas e mais: biólogos, geneticistas, bioquímicos, farmacêuticos e bioinformatas e estatísticos preparados para lidar com a enorme quantidade de dados gerados por tantos estudos.
De outro lado, o nutricionista vai a campo e ajuda a aplicar na vida real (interpretar, utilizar, traduzir para seus clientes) os resultados das pesquisas científicas na área de alimentação e nutrição. E, estimulados justamente pela produção da ciência, surgem os primeiros traços mais definidos da nutrição personalizada.
No laboratório – O farmacêutico bioquímico Thomas Ong tem doutorado em ciência dos alimentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado na área de programação metabólica na Universidade de Cambridge. É professor no departamento de nutrição experimental da USP e pesquisador associado ao Food Research Center, um centro de pesquisa apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Na USP, Ong coordena um laboratório de nutrigenômica e programação. “Queremos entender de que maneira a nutrição da mãe em etapas-chave do desenvolvimento, como gestação e lactação, pode afetar a saúde das filhas no longo prazo”, explica. “A hipótese é de que essas experiências da mãe podem programar o risco do câncer de mama quando essas meninas se tornam adultas. A ideia é entender quais são os padrões de alimentação que programam esse risco maior e entender os mecanismos moleculares que estariam envolvidos. Se a gente conseguir entender como isso acontece, pode se estabelecer novas estratégias de redução do risco dessa doença, que é um problema de saúde pública, e começa já a pensar em uma boa nutrição materna durante a gestação e a lactação para maximizar a saúde das filhas.”
Ong conta que o estudo tem sido feito em uma porção de camundongos, mães e filhas, divididos em dois grupos e acompanhados durante anos. Em um desses grupos, a dieta das mães era rica em banha de porco. No outro, a ração foi balanceada. Já se sabe que as filhas de mães que tiveram uma dieta rica em banha de porco tiveram menor incidência de câncer de mama do que as filhas de mães que consumiram a ração balanceada. “Não estamos recomendando ingerir banha de porco como prevenção do câncer de mama, porque é um estudo inicial. Mas o que esses dados contam é que o início da vida é um momento importante para pensar em estratégias de prevenção de doenças crônicas e que provavelmente, na vida real, seria interessante que você tivesse uma combinação de ácidos graxos que vai encontrar em diferentes tipos de gordura. Então, o excesso de saturada é ruim, sim, mas se tiver um pouco de saturada, com ômega 3 e ômega 6, isso talvez leve a um aumento da saúde das filhas. É justamente atrás dessa combinação que nós estamos indo.”
Essa investigação é amparada em um ramo da nutrição chamado nutrigenômica, um termo relativamente novo que surge na literatura científica no começo da década de 2000. “Naquela época, com a conclusão do projeto genoma humano, havia uma expectativa muito grande de que com base na informação contida no DNA a gente ia estabelecer a cura dessas doenças crônicas que hoje são as que mais matam, como doença cardiovascular, diabete e câncer”, relata Ong. “Hoje, mais de uma década depois, o desafio é muito grande, porque essas doenças decorrem não apenas das informações contidas no DNA, mas também em função do meio-ambiente ao qual estamos expostos. O estado de saúde vai ser influenciado por uma interação entre o genoma e os fatores ambientais, dentre eles poluição, exercício físico, consumo de medicamentos e, para a área de nutrição, a alimentação é um dos principais fatores. Se estima que 30% dos cânceres em termos mundiais estariam relacionados à alimentação.”
Nutrigenômica, nutrigenética, nutri-epigenética – A nutrigenômica, especialidade do laboratório que Ong coordena, estuda a interação entre o genoma e os alimentos. Ela quer saber de que forma o que comemos interfere no funcionamento dos genes e a diferença que isso faz, para o bem e para o mal, na nossa saúde.
Outros dois ramos novos na nutrição estão, junto com a nutrigenômica, ajudando a promover essa transformação no conhecimento que se tem sobre o que e como comemos, e o que isso muda em nossas vidas e de nossos filhos no futuro. Um deles é a nutrigenética, que investiga como características individuais afetam o risco para doenças crônicas e como essa variação genética afeta a forma com que cada pessoa responde a uma mesma alimentação. “Em consultório se vê muito que muitas vezes uma mesma recomendação para emagrecer funciona para um indivíduo e não para outro. Isso em parte se explica pela genética. A nutrigenética estuda a perspectiva da constituição genética prevendo como que você responde à alimentação”, diz o cientista Thomas Ong. “Com isso, será possível, no futuro, a prescrição de uma “dieta personalizada” de acordo com a constituição genética do paciente”, completa a professora do Mackenzie e nutricionista Renata Furlan Viebig.
O nutricionista vai a campo e ajuda a aplicar os resultados das pesquisas científicas na área de alimentação e nutrição 
O nutricionista vai a campo e ajuda a aplicar os resultados das pesquisas científicas na área de alimentação e nutrição 
O outro termo chave é a nutri-epigenética, que considera o impacto da alimentação na expressão dos genes, no modo como eles são ligados e desligados. “As alterações epigenéticas ocorrem em momentos específicos da vida e são potencialmente reversíveis, diferentemente das mutações genéticas”, explica Renata. “Elas não modificam a sequência do DNA, mas podem ser transmitidas às próximas gerações. Os mecanismos epigenéticos estão associados a doenças como obesidade e diabetes.”
Para estabelecer recomendações que possam melhorar a saúde e reduzir os riscos de doenças, cada vez mais é importante entender o que os alimentos fazem em nível molecular. Isso é justamente o que a nutrigenômica, a nutrigenética e a nutriepigenética se propõem. Trazer informações em relação às informações biológicas e moleculares. Nesse sentido, o papel do nutricionista é estratégico para a saúde das pessoas. E não importa se ele vai atuar na pesquisa ou na aplicação. É assim agora e sobretudo no futuro, quando muito mais respostas estarão disponíveis.
Formação e oportunidades – Para a professora Renata, a nutrição é bastante promissora em termos de atuação e a área se expande na medida em que as pesquisas avançam e mais estudiosos se interessam por elas. “Há boas possibilidades também em hospitais e unidades produtoras de refeições, bem como na área de saúde pública. Essas são as três principais vertentes. Entretanto, novos nichos têm surgido, como restaurantes comerciais, hotéis, supermercados, lojas de suplementos nutricionais, academias de ginástica, clubes, serviços de atendimento ao consumidor e lojas virtuais, entre outros.”
Renata recomenda que o futuro nutricionista se esforce para ser um cuidador em saúde, sem impor regras rígidas nem simplesmente separar alimentos em bons ou ruins ou desestimular a autoestima. “Hoje em dia, não há quem não esteja preocupado em comer corretamente, muitos se interessam por alimentos orgânicos, não transgênicos, livres de gorduras e açúcares. Ocorre que em excesso tal preocupação pode se tornar uma obsessão e levar a um tipo de transtorno alimentar da atualidade, a ortorexia nervosa, na qual o paciente “se obriga” a comer corretamente. Muitos profissionais da área da saúde têm percebido que este contexto não promove a mudança de comportamento e não torna as pessoas mais saudáveis. Evidências científicas apontam para a importância do prazer de comer e os resultados do atendimento nutricional parecem ser mais efetivos quando há uma comunicação responsável, positiva e inclusiva na promoção de um comportamento saudável.”
A pedido do Estado, Renata listou algumas especialidades em destaque. Veja abaixo:
Nutrição esportiva: ganha impulso no combate ao sedentarismo e na redução dos riscos de doenças crônicas não transmissíveis, além da promoção de uma alimentação que propicie a melhor performance de atletas.
Hotelaria e a gastronomia: a expressiva expansão de lazer e turismo cria oportunidades em restaurantes comerciais e hospitais.
Nutrição clínica: atuação em equipes multidisciplinares e em atendimento domiciliar (home care), especialmente na área de geriatria.
Indústria de alimentos: relações com o mercado; políticas e regulamentações; comunicação nutricional e desenvolvimento de novos produtos.
Tecnologia: os nutricionistas têm se envolvido nos processos de desenvolvimento de software, equipamentos e aplicativos que ajudam na avaliação da composição corporal dos indivíduos, no manejo das refeições e no oferecimento de informações nutricionais para a saúde.

Corrupção como forma de poder


José Arthur Giannotti
19 Agosto 2015 | 03h 00
Nos últimos tempos a Operação Lava Jato tem marcado o ritmo da política brasileira. Quantas vezes partidos e atores se movem tendo em vista as fases do processo? Gostaria de levantar a hipótese de que ela mesma se tornou movimento político, embora sem participar do sistema representativo como tal.
Para distinguir o principado da república Maquiavel indica que no primeiro o poder ou é hereditário ou conquistado. A esquerda revolucionária sempre apostou na conquista do poder, que na tradição leninista é único e indivisível. A proposta de Lenin de conferir todo o poder aos sovietes implicava excluir da vida política quem não estava associado a essa organização de soldados, operários e camponeses. Essa orientação rachou a esquerda europeia do início do século 20, encontrando oposição ferrenha dos comunistas alemães, do “renegado” Karl Kautsky a Rosa Luxemburgo.
Se esses pregavam a ditadura do proletariado, esta era entendida como tarefa a ser entregue à classe total para instalar uma res publica.
A esquerda brasileira sempre se aproximou da linha leninista e o PT sofreu essa influência. É sintomático não ter-se comprometido com as fórmulas da República “burguesa” que se instalou depois da queda do sistema militar. Essa linha se aprofunda conforme o PT se aproxima e se infiltra no poder. Se a ele chega de forma republicana, desde logo trata de conquistar os aparelhos do Estado. Primeiramente, infiltrando neles militantes e sindicalistas, depois, com a vitória de Lula em 2002, ocupando novos postos, principalmente em comissão. A ideia inicial era politizar esses aparelhos, dando-lhes novo sentido histórico. E assim a máquina do partido se infla no Estado, tendendo a se confundir com ele.
Não reside aí o germe da nova forma de corrupção que o lulopetismo instalou no País? Para que essa enorme massa de militantes pudesse ser tramada para agir politicamente, para que pudesse ajudar numa governabilidade que se fazia mediante alianças as mais variadas, foi necessário montar e financiar uma cara máquina política. Isso se evidencia muito cedo, quando do assassinato de Celso Daniel, em 2002. O prefeito de Santo André recusa-se a dar continuidade ao fluxo de arrecadação de propinas quando percebe que, antes de chegar ao seu destino, deixava rastros nos bolsos dos coletores. Removido o obstáculo, porém, o sistema se expande e se agiganta.
Corrupção sempre existiu, até mesmo no Paraíso. O diabo-cobra não corrompeu Eva? Mas em política importa sobretudo sua forma, na medida em que entranha formas de poder. A forma da corrupção praticada por César ou Augusto – as apropriações efetuadas para manter o pão e o circo – não se confunde com a praticada pelo papa Alexandre VI na reestruturação da burocracia vaticana. Nem a especificidade da corrupção tucana se iguala à forma da corrupção petista, mesmo se ambas bebem na mesma fonte. A primeira se concentra na alimentação de um grupo, a segunda passa do partido para o Estado, um e outro se apresentando como momento do universal da História. E a “ditadura” do Terror ou do partido é “incorruptível”.
A corrupção do próprio aparelho do Estado serve de paradigma para corromper toda a sociedade. Não é estranhável que hoje em dia encontremos um corruptor em cada esquina. Em contrapartida, nada mais natural que a bandeira contra a corrupção seja levantada por aqueles que, na luta profissional, se particularizam e sofrem diminuição de seus poderes.
Conforme os agentes do Estado atuam na base da corrupção, cada vez mais aqueles funcionários, que percebem suas próprias práticas serem corrompidas, enfraquecidas e negadas, ganham condições e argumentos para levantar a bandeira contra ela. Tratam de salvar o sentido de suas profissões. E assim, conforme os partidos do governo perdem a auréola da probidade, outras frentes, tratando de recuperá-la, configuram nova oposição. Não é desse modo que o Ministério Público, cuja independência depende dessa aura, assim como partes da polícia e do Judiciário, que igualmente precisam destacar-se na probidade para sobreviver publicamente, todos eles se juntam para que o exercício de suas profissões ganhe autenticidade e dimensão política?
Não foi assim que o julgamento do mensalão acentuou o lado político do STF? Não que tenha perdido seu fundo jurídico, mas me parece inegável que hoje sua imagem realça um Poder associado aos outros dois da República. É o que me parece estar igualmente acontecendo com a Operação Lava Jato, que, ao tratar de operar de forma mais efetiva e cuidadosa, procura mostrar-se publicamente como estando engajada na regeneração do País.
A maneira como seus membros se comportam e se associam entre si, o timing de suas decisões e seu relacionamento com a mídia, tudo caminha nessa direção. A leitura do texto do juiz Sergio Moro justificando a prisão de José Dirceu, acusando-o de organizar novo sistema de corrupção, impressiona tanto pela segurança da argumentação policial e jurídica quanto por sua forma midiática. Do mesmo modo, os promotores e os policiais vêm a público explicar no pormenor cada elo do processo de corrupção, ligando Estado, sociedade civil e empresas. E assim promovem a consciência política da necessidade da mudança.
Aí residem a grandeza e o perigo desse processo. A Operação Lava Jato está nos obrigando a ter vergonha do estado de corrupção em que nos encontramos. Mas somente terá repercussão política se forças políticas representativas, levando em conta todos esses processos não representativos, decidirem pelas reformas de que o País necessita. E a ilusão de uma democracia direta – lado inverso do Estado total – só perturba a compreensão de como a política nacional mergulhou numa indecisão que nos engolfa. Os escândalos pipocam no ar, as pessoas se manifestam e os partidos só lidam com os fogos de artifício.
*José Arthur Giannotti professor de filosofia da USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento(CEBRAP)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Corrupção e Capital Cívico

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Corrupção e Capital Cívico


André Lara Resende
29/07/2015
A extensão e a profundidade da corrupção no Brasil atual causa perplexidade até aos mais calejados observadores. Sempre fomos complacentes em relação às pequenas transgressões, sempre houve corrupção, aqui como em toda parte, mas como foi possível chegar a um tal nível de desonestidade institucionalizada?  A gravidade da situação paralisa a política e a economia. Ainda não está claro como sairemos da crise e o que virá a seguir. Espera-se que o país mude para melhor, que a exposição da corrupção na vida pública e empresarial, com a condenação dos envolvidos, reduza acorrupção. O fim da impunidade é fundamental para reduzir a criminalidade.

Gary Becker, da Universidade de Chicago e ganhador do Nobel em economia, foi o primeiro a utilizar o arcabouço conceitual da microeconomia, com agentes racionais que maximizam utilidade, para entender o processo de tomada de decisão em questões não especificamente econômicas. Seus trabalhos pioneiros procuravam explicar a tomada de decisão em relação a questões como quantos anos estudar, qual o melhor momento para se casar e quantos filhos ter. Segundo Becker,todo comportamento humano pode ser entendido como uma avaliação de custos e benefícios. A decisão de cometer um crime depende do que se tem a ganhar, comparado ao custo do castigo ponderado pela probabilidade de ser pego. Se o benefício for maior do que o custo estimado da punição, opta-se pelo crime. Simples assim. O modelo tem enorme apelo, exatamente por ser simples, lógico, e dar sugestões claras sobre a prevenção ao crime: deve-se aumentar a probabilidade de que o criminoso seja preso e endurecer as penas. 

Feliz ou infelizmente, as coisas não são bem assim. Os avanços da psicologia comportamental demonstram que nossa tomada de decisão é mais complexa, não se estringe a um cálculo de racionalidade econômica. Bastam alguns segundos de reflexão para concluir que ao longo da vida, mesmo durante um único dia, temos inúmeras possibilidades de ser desonestos, com baixíssima probabilidade de ser pegos. Nem por isso somos sistematicamente desonestos. Ao contrário, o padrão do ser humano é ser honesto, respeitar a lei e os códigos de ética da sociedade. A desonestidade, ao menos a desonestidade consciente e deliberada, é a exceção. 

Os trabalhos recentes de Dan Ariely, professor da Universidade de Duke nos EUA, chegam a resultados interessantes e até certo ponto surpreendentes em relação à desonestidade. A partir de experiências, muito engenhosamente formuladas, com diferentes grupos de pessoas, a maioria delas alunos universitários americanos, Ariely conclui que a desonestidade não é uma questão de custo e benefícios. Seus experimentos mostram que não há relação entre o valor do que se tem a ganhar e a desonestidade num grupo. Também não há relação entre a probabilidade de ser pego e a desonestidade. São resultados que contradizem frontalmente a teoria do cálculo racional como fundamento para a opção pela honestidade ou pela desonestidade. 

É claro que não se é de todo insensível aos custos e benefícios da desonestidade. Especialmente os desonestos contumazes, aqueles que fazem da desonestidade um meio de vida, levam em conta os riscos associados à atividade. Mas para a maioria das pessoas, que se percebem como honestas, não se trata de um cálculo racional. Estamos todos dispostos a incorrer em pequenas infrações, pequenas desonestidades, desde que as consideremos suficientemente irrelevantes para não arranhar nossa percepção de que somos honestos. Queremos nos perceber e ser percebidos como pessoas honestas, mas estamos dispostos a transgredir, desde que a transgressão nos permita manter a autoestima.

Os estudos mostram que as pessoas são menos desonestas quando são lembradas das leis ou dos códigos de ética. O grau de desonestidade depende daquilo que é percebido como flagrantemente desonesto, assim como do grau de tolerância em relação à desonestidade. Onde as infrações de trânsito, como estacionar em local proibido, circular pelo acostamento, são comuns e disseminadas, quem as comete não se percebe como desonesto. Por isso mesmo, são mais frequentes.

A propensão a agir incorretamente, depende também da nossa capacidade de racionalizar. Se formos capazes de justificar a desonestidade, somos muito mais propensos a agir de forma inapropriada. Isso vale tanto para atos mais corriqueiros de incorreção, como também para os mais graves. Roubo, assaltos, até mesmo assassinatos, podem ser cometidos de forma fria, por pessoas que se consideram honestas, desde que em nome de uma causa. O caso de políticos que roubam para o partido, ou para financiar campanhas eleitorais, nunca para o seu enriquecimento, é exemplar da necessidade de racionalização. Os estudos mostram que quando a desonestidade pode beneficiar pessoas do nosso grupo, ou até mesmo desconhecidos, a propensão à desonestidade aumenta. Uma vez encontrada a justificativa nobre, a racionalização, é possível ser desonesto e manter a autoestima. É o efeito Robin Hood, mas uma vez rompida a barreira psicológica, passa-se mais facilmente para a desonestidade aberta. Quando passamos a nos ver como desonestos, perde-se o pudor. Se este for o comportamento disseminado entre nossos pares, tudo se torna ainda mais natural.

Queremos ser honestos, mas a propensão para a desonestidade está em todos nós. Mais do que um cálculo de custos e benefícios, o que nos restringe são os valores de nossa comunidade. Se no meio onde vivemos a incorreção é aceitável, insuficiente para arranhar nossa percepção de que somos honestos, somos mais propensos à desonestidade. Essa é a razão pela qual povos diferentes se comportam de forma diferente, ainda que diante dos mesmos incentivos e riscos em relação a um comportamento questionável.

Uma história curiosa, triste para nós brasileiros, ilustra bem como há comportamentos distintos diante da certeza da impunidade. Até alguns anos atrás, a lei dava aos diplomatas estrangeiros, lotados nas Nações Unidas, a isenção de pagamento das multas de estacionamento na cidade de Nova Iorque. A cidade, porém, nunca deixou de emitir as multas. Como não precisavam ser pagas, não havia sanção para os diplomatas que estacionassem em locais proibidos. Um estudo mostrou que, ao longo de cinco anos, os diplomatas suecos e canadenses não tiveram multas, os alemães tiveram uma multa per capita, os italianos 15, e os brasileiros 30 multas por diplomata. Se serve de consolo, a média dos diplomatas kuaitianos foi de 246 multas.

A certeza da impunidade não leva todos a ser desonestos. A referência cultural conta. Os diplomatas suecos não são menos racionais do que os brasileiros, mas optam pela correção. Optam por não levar vantagem, mesmo quando não há punição para o comportamento incorreto. Há algo na cultura de certos povos, o que se poderia chamar de Capital Cívico, que faz a diferença. Na definição dos que cunharam o termo, o Capital Cívico é o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas. Os entusiastas dos mercados não se cansam de defender a importância da competição e da meritocracia, mas os que entendem do riscado sabem que na base de uma economia de mercado, antes de tudo mais, está a confiança e a cooperação. Vale a pena ouvir o que tem a dizer a respeito Kenneth Arrow, prêmio Nobel de economia. Seus trabalhos, em parceria com Gerard Debreu, formalizaram o chamado Modelo de Equilíbrio Geral, de onde são deduzidos os corolários de eficiência dos mercados competitivos: “Virtualmente toda transação comercial tem em si um elemento de confiança. Pode-se dizer, de forma plausível, que muito do atraso econômico no mundo deve-se à falta de confiança mútua”.

Nas sociedades onde o Capital Cívico é baixo, impera o que Edward Banfield, que foi professor da Universidade de Harvard, chamou de “ amoralidade de laços familiares”. Com base na sua experiência num pequeno vilarejo do sul da Itália, Banfield procurou entender as razões do atraso da região. Concluiu que a resposta estava na obsessão com que seus habitantes dedicavam-se exclusivamente aos interesses de suas famílias. Incapazes de cooperar, até mesmo com os seus vizinhos, os camponeses restringiam-se ao cultivo de suas pequenas propriedades. Ficavam assim impossibilitados de se beneficiar dos ganhos de produtividade da escala e da cooperação. Esse tipo de comportamento é auto reenforçante, pois onde todos desconfiam de todos e só estão preocupados com os seus próprios interesses, a desconfiança tem razão de ser. Não se pode superestimar a importância da confiança nas relações econômicas e sociais. A confiança importante para o bom funcionamento da sociedade é a confiança nos desconhecidos. É a confiança naqueles que não conhecemos pessoalmente que permite estabelecer contatos, desenvolver os mercados e a cultura.

Pesquisas, sobre valores e atitudes em diferentes países, costumam perguntar aos entrevistados se a maioria das pessoas merece confiança, ou se ao contrário, é preciso tomar cuidado ao se relacionar com elas. Mais uma vez o Brasil fica mal na fita. Enquanto na Suécia, quase 70 por cento dos entrevistados respondem que os outros são dignos de confiança, no Brasil, menos de 10 por cento consideram que as pessoas são confiáveis. É sempre possível argumentar que os brasileiros confiam menos nos outros porque nos Brasil a justiça é falha, há menos possibilidade de ser punido, logo todos são efetivamente mais propensos a ser desonestos. Haveria assim uma lógica no fato de por aqui se confiar menos nos outros, estaríamos de volta à racionalidade do modelo de Garry Becker.

Acontece que a confiança nos outros, o grau de confiança básica, difusa numa sociedade, não é simples consequência do bom funcionamento da justiça. Há, com certeza, correlação entre as duas coisas, mas é o sentido da causalidade não é claro. Assim como a justiça eficiente contribui para a confiança, mais confiança leva ao melhor funcionamento da justiça. A confiança e a propensão a cooperar não decorrem exclusivamente dos mecanismos legais de prevenção e punição à desonestidade. São traços culturais, forjados ao longo da história, reforçados pela experiência de cooperação bem sucedida. Constituem um ativo de longo prazo, que não se adquire da noite para o dia. Como todo traço cultural, são preconceitos, tanto positivos quanto negativos, que não são facilmente revistos. Um exemplo da longa inércia a ser vencida para a acumulação do Capital Cívico, da persistência das feridas na confiança entre membros de uma sociedade, para o qual Luigi Zingales chama atenção, é o fato de que até hoje, mais de um século e meio depois do fim do tráfego de escravos, há significativas diferenças entre as etnias na África. Aquelas que tiveram pessoas capturadas e traficadas como escravos, muitas vezes por membros de suas próprias tribos, até hoje desconfiam de tudo e todos. 

A construção do capital cívico é um longo percurso. A recíproca não é, infelizmente, verdade. A confiança e a capacidade de colaborar, urdidas lentamente ao longo da história, podem ser muito rapidamente destruídas. Uma vez perdidas, é preciso recomeçar do zero, refazer toda a longa história de acumulação de capital cívico, de confiança e de cooperação. Não é fácil, pois a desconfiança leva à desconfiança, termina por justificar a falta de confiança. É um círculo vicioso duro de ser rompido. A melhor forma de fazer evoluir o capital cívico é  não permitir que ele se deteriore.

A forma como a população avalia o Estado e suas instituições é uma boa aproximação do capital cívico. Onde o capital cívico é alto, o Estado é visto como um aliado confiável.  Onde o capital cívico é baixo, o Estado é percebido como um criador de dificuldades para todos e de vantagens para seus ocupantes. Mais uma vez, o processo é auto reenforçante. Se o Estado é percebido sendo como ocupado por desonestos pautados pelos seus próprios interesses, os bem intencionados evitam a vida pública, o que termina por dar razão à desconfiança. Dada a visibilidade dos políticos e a necessidade de se lidar cotidianamente com as autoridades, o Estado corrupto é um poderoso fator de erosão do capital cívico. Nada mais corrosivo da confiança e do espírito público do que a exposição diária a um Estado ineficiente e patrimonialista. 

Assim como o mau Estado destrói o capital cívico, as boas instituições são imprescindíveis para a sua preservação. Os estudos de Ariely sugerem que o grau de desonestidade de uma comunidade tem características parecidas com a de uma infecção. A desonestidade pega e se alastra. Basta que  uma única pessoa se comporte de forma flagrantemente desonesta, para que o grau de desonestidade de um grupo de alunos universitários, submetidos às suas engenhosas experiências, aumente significativamente.

Se uma única pessoa, um desconhecido, é capaz de aumentar a desonestidade dos demais num grupo de universitários, fica claro que a desonestidade dos governantes tem grande impacto sobre o grau de desonestidade do país. Existe um “efeito demonstração” da desonestidade, sua capacidade de se alastrar e de infeccionar a sociedade como um todo. Esta é a razão pela qual é importante reduzir a frequênciados pequenos atos de transgressão, das pequenas desonestidades aparentemente inofensivas. A política de “tolerância zero” em relação ao pequenos delitos, adotada pela polícia de Nova Iorque, contribuiu para a dramática redução da criminalidade na cidade. Pequenas infrações podem parecer inócuas, mas contribuem para criar o ambiente propício às mais graves. 

Anos atrás, quando eu ocupava um cargo público, um político com quem eu tinha relações pessoais queixou-se comigo da corrupção de pessoas ligadas à sua área. Sugeri que ele fizesse uma denúncia pública. Disse-me que jamais faria isso, porque o impacto para o descrédito da política seria gravíssimo. Intuitivamente, ele estava dando expressão ao efeito demonstração. É evidente que o argumento é falacioso, na verdade uma racionalização para não se sentir compactuando com a corrupção sem incorrer nos custos de denunciar seus pares. A concordar com ele, para evitar a contaminação da sociedade, toda sujeira deveria ser empurrada para debaixo do tapete. Isso não significa que não haja uma contradição a ser resolvida: para reduzir a desonestidade, não se pode esconder a corrupção, mas a sua divulgação, através do efeito demonstração, contribui para o aumento da desonestidade.

A condenação dos envolvidos na operação Lava Jato deverá reduzir a percepção de impunidade. De acordo com o modelo de racionalidade da desonestidade, haverá menos pessoas decididas correr o risco. Para os que já cruzaram a barreira, não há dúvida: pensarão duas vezes antes de retomar as práticas a que estavam habituados. Mas para a grande maioria da população, para os que prezam a honestidade, que não se baseiam num cálculo racional de custos e benefícios, o efeito demonstração terá um impacto negativo. A impressão de que o governo, os políticos e os empresários são desonestos, aumenta a tolerância com a desonestidade no dia a dia. Nas inúmeras pequenas oportunidades onde é possível transgredir sem ser punido haverá maior propensão à desonestidade. A impressão de que a desonestidade impera, ajuda à racionalização do comportamento desonesto. Se todos são, ninguém é. Por isso é importante ir até o fim, não deixar a impressão de que só alguns foram punidos, que os mais espertos, como sempre, escaparam.

Infelizmente, ainda assim, não é inequívoco que o capital cívico do país sairá fortalecido da crise. É sempre possível que o impacto negativo do efeito demonstração domine o impacto positivo do fim da impunidade. Essa possibilidade é reforçada por mais um interessante resultado dos estudos de Ariely. Quanto mais cansados, desanimados e deprimidos estamos, mais propensos somos a ser desonestos. A honestidade aumenta a autoestima e a baixa autoestima aumenta a desonestidade. A recessão econômica e a depressão psicológica contribuem para o aumento da desonestidade. 

Para que o país saia melhor de tão grave e deprimente surto de desonestidade, para que não passe à infecção generalizada, é importante condenar e punir os culpados. Sem dúvida, mas não basta. É preciso, o quanto antes, sair da crise, expurgar da vida pública os envolvidos, recuperar a economia e dar início a uma nova era. O que exigirá, antes de mais nada, novas e exemplares lideranças, que ainda estão longe de estar evidentes.

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