sábado, 19 de julho de 2014

Internet oculta: conheça os segredos de um universo oculto

19 de julho de 2014 • 10h29 • atualizado às 11h19

Internet oculta: conheça os segredos de um universo paralelo

No Brasil, boa parte dos usuários são curiosos, que querem apenas ver o que existe por lá

Milhares de pedófilos estão usando a chamada dark web para compartilhar, vender ou acessar imagens de crianças sofrendo abuso sexual
Foto: Thinkstock / Getty Images
Milhares de pedófilos estão usando a chamada dark web, (internet obscura, em tradução livre), para compartilhar, vender ou acessar imagens de crianças sofrendo abuso sexual. Um britânico que disse ter fundado um desses sites disse à BBC disse que a página chegava a receber 500 visitantes por segundo. Segundo ele, o site não está mais em funcionamento.
Em um relatório publicado neste ano, a agência de combate ao crime na Grã-Bretanha disse que criminosos estão cada vez mais se voltando para uma internet paralela, por onde passeiam de forma anônima, para realizar atividades ilegais. No Brasil, "boa parte dos usuários são curiosos, que querem apenas ver o que existe por lá e ter a sensação de adentrar em um território da internet que é cercado de tabus", disse o advogado e especialista em tecnologia e mídia Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio).
Segundo ele, uma fração menor de pessoas entra na dark web para praticar atividades ilícitas. E outra fração entra em busca de privacidade, de um canal de comunicação que não seja monitorado ou espionado. A BBC Brasil conversou com a especialista em ciência da computação Juliana Freire, que faz pesquisas na New York University, nos Estados Unidos. Freire está prestes a embarcar em um projeto que deve revolucionar a forma como fazemos buscas na internet, permitindo, inclusive, que identifiquemos conteúdos "escondidos" na dark web.
E apesar de sua determinação em conhecer e explorar os conteúdos desse universo, a pesquisadora não parece preocupada com a existência dessa internet obscura, fora do alcance das ferramentas de busca comuns - e das autoridades. "Tráfico humano, pedofilia, esssas coisas aconteciam. Pelo menos, se está lá e você conseguer ver o conteúdo, você sabe que elas existem".
Definições
A internet visível, ou surface web (internet de superfície), é uma porção minúscula de uma rede gigantesca, a deep web (internet profunda). Esta rede profunda engloba bancos de dados cujo conteúdo não está indexado e, portanto, não pode ser acessado por ferramentas de busca como o Google. Imagine, por exemplo, um site de venda de carros de segunda mão. As informaçõe sobre os carros estão dentro do site, mas você só tem acesso a elas quando preenche um formulário dizendo que tipo de carro está procurando.
Também podemos incluir nessa web profunda uma porção da rede onde a publicação de conteúdos, bem como o acesso a eles, acontecem de forma anônima. Essa é a dark web, ou internet obscura. A dark web inclui, por exemplo, redes como a Tor Network. Para acessá-la, é preciso baixar o Tor Browser.
Esse browser torna o endereço do seu computador indetectável. Você viaja anônimo, tanto pela internet regular, quanto pela rede obscura. Da mesma maneira, se você cria um site na rede Tor, o conteúdo fica lá, mas sua identidade não. "Se crio um site, tenho de registrá-lo e criar um IP address, para identificação", explica Freire. "Mas essas redes criam o IP address e ninguém sabe quem eu sou".
Essa internet anônima é usada para todo tipo de atividade ilícita, como tráfico humano e tráfico de drogas. Um desses sites, o supermercado de drogas Silk Road, operou na rede Tor durante mais de dois anos, até ser fechado pelo FBI. Mas a Tor também é usada por militantes, intelectuais e outros grupos que precisam permanecer anônimos para sua segurança pessoal. "No Irã, muitos usam o Tor para acessar a internet, na China acontece a mesma coisa", diz Freire.
Passeio Perigoso?
A ideia de uma internet secreta, co-existindo com a rede visível, porém inacessível à maioria de nós, habitada por criminosos e libertários, parece coisa de ficção científica. Freire diz que já passeou por essas terras sem lei. Não são necessariamente perigosas, ela diz. Mas contêm armadilhas onde podem cair os viajantes menos experientes.
"Já brinquei com isso. Fiz buscas sobre tráfico humano e não vi nada. Então, digitei a palavra cocaína e encontrei vários sites de venda. Mas meus colegas me disseram que muitos desses sites são armadilhas que o governo coloca lá para pegar você". "Você não sabe se é o governo ou se é um traficante de verdade - mas também é assim no mundo aqui fora".
A rede profunda inclui, ainda, sites desativados que permanecem ali no cyber space, como prédios fantasma. Alguns especialistas tentaram, ao longo dos anos, quantificar, dar uma dimensão à internet profunda. Os resultados variam. Em 2001, o acadêmico americano Michael K. Bergman publicou um estudo sugerindo que a deep web seria entre 400 e 550 vezes maior do que a internet de superfície e que ferramentas de busca convencionais estariam alcançando apenas 0,03% do total de páginas disponíveis.
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Juliana Freire, no entanto, desconfia desses números. "Alguns tentaram medir isso mas não consigo acreditar nos estudos mais recentes que li, não estou convencida. É difícil de estimar o tamanho dessas coisas".
Desafio
E à medida que a internet cresce e se transforma, cresce também o desejo de cientistas como Juliana Freire de explorá-la. Governos e autoridades, por outro lado, querem domá-la. Até 2011, Freire trabalhava para a University of Utah, em Salt Lake City. Lá, esteve envolvida no projeto Deep Peep, que se propunha a desenvolver ferramentas para indexar conteúdos armazenados em bancos de dados na internet profunda.
"A ideia era indexar todos esses bancos de dados para que a gente pudesse ter acesso a eles usando um sistema de buscas comum, como o Google", explica Freire. "Uma ferramenta como essa é útil se você está interessado em conteúdos que vêm de fontes diferentes". Ou seja, ela evita que você tenha de entrar individualmente em cada um dos sites para procurar a informação. Fazendo um paralelo, Freire cita sites de comparação de preços, que coletam dados de várias empresas oferecendo um determinado serviço.
"Encontrar os dados necessarios para sites de comparação, e para engenhos de busca verticais, requer um processo laborioso. O nosso objetivo era criar uma forma mais rápida, eficiente e automática de descobrir os sites que serviam de ponto de entrada para bancos de dados online". Parte da tecnologia usada no Deep Peep foi patenteada pela University of Utah.
Agora, Freire se prepara para um novo desafio. Ela é uma entre vários pesquisadores participando do programa Memex, a convite da Defense Advanced Research Project Agency (Darpa), uma agência do Exército americano. O programa tenta criar um novo paradigma para buscas na internet, explica Freire.
"Grupos foram convidados a criar um conjunto de ferramentas que nos permitam fazer buscas sob medida. Por exemplo, estou interessada em um tópico e quero fazer uma busca na internet profunda. Então eu digo, me faz uma busca e um relatório desse assunto de acordo com as especificações tais". "Ou seja, são ferramentas que te ajudam a encontrar e analisar dados".
Um detalhe importante é que essa nova tecnologia permitirá fazer buscas na internet obscura. "O Memex quer ver tudo, quer ver dark web, surface web, deep web", ressalta Freire. "Essa tecnologia tem várias aplicações. Vai ajudar governos a encontrarem conteúdo que está escondido na darkweb - por exemplo, conteúdo sobre tráfico humano. Vai ser útil no jornalismo investigativo, em pesquisas... para a ciência, (uma tecnologia como essa) é fundamental".
Efeito Snowden
Em maio de 2013, um consultor da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos EUA, Edward Snowden, denunciou para o mundo que o governo dos Estados Unidos vinha secretamente arquivando comunicações entre cidadãos feitas pela internet e por telefone. Na época, Snowden disse ao jornal britânico The Guardian que não queria viver em um mundo onde "tudo o que faço e digo é gravado".
Nesse contexto, a ideia de que exista uma rede de comunicações fora do alcance de governos e autoridades ganha um atrativo a mais. "Apesar do intenso preconceitos contra as chamadas deep web e dark web, são canais que surgiram a partir de ferramentas de proteção à privacidade", diz Ronaldo Lemos.
"Em vários países do mundo, especialmente em regimes autoritários onde a rede é controlada e as liberdades civis ameaçadas, esse tipo de de espaço torna-se um dos poucos ambientes públicos onde é possível manifestar pensamentos e opiniões de forma livre". E acrescenta: "não existe apenas uma dark net, mas várias. Elas são uma consequência da estrutura aberta da internet. Apesar dos inúmeros problemas que elas trazem e que devem ser combatidos, eles são o preço a se pagar por manter a internet com uma arquitetura descentralizada, livre e aberta".
Para Juliana Freire, no entanto, a vigilância pelo governo é um problema menor. "O Google, o Facebook, o Twitter, sabem de tudo. O Google está lendo todos os seus e-mails. "Você querer privacidade e ficar preocupada com o governo é bobagem porque tem companhias que provavelmente saberm mais do que o governo". "Imagina o tanto que você revela ao Google só ao fazer buscas?", questiona. "A privacidade é impossível. O que é necessário é regulamentação, porque agora não dá mais para parar esse processo".
Terra Antivírus

terça-feira, 1 de julho de 2014

Meu legado será reduzir a desigualdade

Presidente uruguaio diz que leis sobre maconha, aborto e homossexuais não são maiores do que combate à pobreza

‘Meu legado será reduzir a desigualdade’

Alessandro Giannini - Enviado Especial / Montevidéu

Presidente uruguaio, José Mujica
Pé no chão. Presidente uruguaio, José Mujica, diante de sua casa nos arredores de Montevidéu: estilo de vida modesto que atrai admiração no mundo todo
ANDRES STAPFF/REUTERS
No último ano de seu mandato, o presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, rejeita a ideia de que seu maior legado tenha sido leis como a da legalização da maconha, do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O ex-guerrilheiro, de 79 anos, cativou os uruguaios e o mundo com os modos simples e se diz um “camponês de alma”. Para ele, suas grandes realizações foram as conquistas sociais, a diminuição da pobreza e o aumento do trabalho.
“Nós, que andamos sobre esta terra temos uma só vida e a obrigação de fazer com que as pessoas a vivam bem”, disse Mujica, em entrevista ao Estado, no sítio onde vive com a mulher, a senadora Lucia Topolanski, na periferia de Montevidéu. Além de uma matilha de cachorros, guardam a casa somente dois policiais - por insistência do serviço de segurança uruguaio.
Enquanto o presidente concedia a entrevista na sala, a senadora preparava o café da manhã e o almoço na cozinha. Mujica falou longamente sobre as relações entre Uruguai e Brasil, de sua amizade com os países bolivarianos e da necessidade de a América Latina se unir. A seguir, os principais trechos da conversa.
O sr. considera as leis da maconha, do casamento gay e do aborto seu principal legado?
Não. São temas que têm importância numa sociedade laica, a mais laica da América Latina. Mas de jeito nenhum podem substituir temas históricos que são essenciais: as abismais diferenças de classe que existem na sociedade. As leis não resolvem o problema da desigualdade e a tendência crescente no mundo contemporâneo de acentuá-la. E o tema da liberdade é uma questão capital para os seres humanos. Portanto, dou importância a essas questões, mas dentro da lógica de uma sociedade diferente. Há muito tempo, o Uruguai fez essa divisão entre Igreja e Estado. Reconheceu a prostituição e a regulamentou como profissão. Reconheceu o divórcio pela vontade exclusiva da mulher. Reconheceu o voto feminino muito antes de outros países. Temos uma tradição cultural nesse sentido. Pode ser surpreendente para quem vê de fora, com outros paradigmas de sociedades que certas tradições religiosas contribuíram para criar éticas que consideramos um pouco conservadoras.
Qual seria então o seu legado?
Há muitas coisas que fizemos. A principal foi afirmar certos fundamentos que vão nos permitir entrar no circuito de países desenvolvidos. Há algum tempo, tínhamos pouca energia. Hoje, temos quatro vezes mais do que os países que nos rodeiam. Até 2015, seremos o país que terá mais energia alternativa, funcionaremos predominantemente com a força do vento. E deixaremos a questão do combustível para cobrir os vácuos. Noventa por cento dos uruguaios dispõem de energia elétrica. Avançamos na comunicação com a internet - entregamos a cada criança um computador. Toda a juventude está incluída na linguagem digital. Isso vai melhorar a qualificação dos uruguaios. Temos uma baixíssima taxa de natalidade. O único caminho que nos resta é montar uma sociedade muito qualificada. Não podemos oferecer ao mundo quantidade, temos de oferecer uma diferenciação de material permanente, juntamente com o desafio civilizatório para um pequeno país que vive em um canto muito particular do mundo, rodeado de países muito grandes.
Há conversas sobre investimentos em um superporto no Uruguai, que teria a participação do Brasil. Como está isso?
Somos integracionistas por princípio e no sentido mais profundo do termo. Esta região é a última reserva agrícola de importância que existe na humanidade. A velha Colônia de Sacramento foi fundada por Portugal numa disputa de fronteira. E os portugueses já se davam conta de que na parte central sul do que seria depois o Brasil, a forma mais econômica de sair para o mundo é por meio da água. É quase um mandado da geografia. Quando se trata de trasladar toneladas de mercadorias não parece sensato fazer pouco da geografia. Não há forma mais barata de transportar mercadorias do que navegar. Então, não é um problema da vontade do Brasil. É uma questão de interpretar o que geopoliticamente nos manda a constituição geográfica da região. É ridículo que um barco passe 10 ou 15 dias parado esperando que o carreguem e descarreguem em um porto. Nossa ideia é fazer um porto que seja brasileiro, paraguaio, argentino e uruguaio. Na verdade, que seja um porto de integração, que jamais eliminará a navegação menor. Temos de entender que é um porto para grandes volumes. Ele eliminará o transporte por caminhão? Não, vai aliviar, porque os caminhos devem ser preservados. Nós vemos como uma necessidade de crescimento, pois a região vai continuar crescendo, não vai ficar parada. E vai crescer o volume. Não vai substituir os portos que existem, mas vai complementar.
Para isso, seria necessário uma integração política com todos os países. As relações com a Argentina, por exemplo, como estão?
O Uruguai é um país pequeno, não determina nada. Seu tamanho lhe dá independência para poder dizer o que pensa. Dentro desses termos, quem tem mais importância nesse conjunto de relações é o Brasil. Por quê? Pelo que significa, pelos recursos que tem e pelo papel que lhe custa enormemente cumprir e tem de cumprir. Em primeiro lugar, o Brasil tem meios para transformar-se em uma potência importante. O único inconveniente é que chega tarde. Quando chega tarde, o mundo está se reunindo ao redor de gigantescas unidades. Podemos criticar a Comunidade Europeia, mas esse é um bloco que tem mais de 60 anos e demonstrou que tem uma saúde tremenda. Porque a saúde se vê quando você está com os pés no chão, não quando se está no auge do sucesso. Estamos vendo que ela resiste bem e vai continuar resistindo.
Por isso o sr. defende os blocos latino-americanos?
Não os defendo. É que não temos outra saída para nos defender, mas chegamos tarde. O Brasil tem um problema, sendo tão grande - tem um problema de autointegração.
O que quer dizer com isso?
Quero dizer que tem gente que diz: primeiro, precisamos nos integrar como país. E eu os entendo perfeitamente, porque não há um Brasil, há vários. Como vamos negociar com a China, como vamos negociar com os EUA, como vamos negociar com a Europa? Precisamos de uma expressão de caráter continental, que o Brasil precisa liderar de boa-fé. Mas não no sentido imperialista, impositivo, senão não existe sentido em aliados naturais. Precisamos criar uma confraria que nos identifique para criar um certo peso negociador no mundo contemporâneo. Porque os recursos, se somos vendedores de matéria-prima, são cada vez mais preciosos. E precisamos ter soberania sobre nossos recursos e não permitir que nos manipulem. Não podemos permitir uma “africanização” dos recursos da América Latina.
O que isso significa?
Que temos de acentuar a participação dos interesses de nossas sociedades na exploração de nossos recursos. Para isso, precisamos de políticas comuns. Vou ser mais claro: se frente a uma multinacional continuamos como hoje, disputando investimentos e pedindo ou impondo condições assimétricas e disputando entre nós, a única coisa que vamos conseguir é baixar a participação dos interesses do nosso povo, no momento em que a política deve ser completamente diferente. Por isso, o conceito de integração. Temos de colocar muitas coisas sobre a mesa. Mas os países grandes são aqueles que cortam o bacalhau. A burguesia industrial de São Paulo tem uma enorme responsabilidade - esta não é uma questão só dos governos. Se a burguesia paulista comete o erro de pensar que estamos no século 19 ou 20 e insiste em uma política que busca colonizar os vizinhos, talvez faça muito dinheiro, mas vai prejudicar o Brasil.
No longo prazo, o sr. quer dizer?
No futuro. Ao contrário, se a burguesia paulista assume a responsabilidade de uma política de alianças e se transforma no eixo de um conjunto de empresas latino-americanas que tratam de integrar a força produtiva por ramos de interesse, aí é outra história. Mas também não podemos pedir aos empresários que enxerguem além do fim do mês. Essas coisas precisamos fazer por meio de nossa política.
E os chamados países bolivarianos. Como o sr. os enxerga dentro desse bloco?
Acho que eles têm definições aparentemente mais radicais que nós. Mas a capacidade de realização não é necessariamente estar à altura do que se declara, pela simples razão de que nessas questões históricas não se fazem as coisas pela simples vontade, mas pela nossa capacidade de integrar nossas respectivas sociedades. E nós temos alguns problemas capitais para resolver na América Latina: a comida, a habitação e a cultura e o conhecimento básico do nosso povo como tarefa primordial e prioritária. Alguns podem ter o sonho de uma sociedade sem classes, igualitária - eu sou uma dessas pessoas.
O sr. acredita nesse sonho do socialismo?
Sim, eu sim. Mas isso não se cria por decreto ou imposição. O problema é que para mim existe um pressuposto básico. Estão muito mais próximas do socialismo a Suécia ou a Noruega do que qualquer outro país. Até que a China. Ou seja, é necessário uma quantidade de desenvolvimento importante e ter superado uma série de coisas. E um grau de cultura massificada, que as nossas sociedades estão muito longe de ter. Estamos ainda na etapa que é chamada de libertação. Libertação da fome, da falta de trabalho, da ignorância. Essa é a missão da nossa época. Então, significa que se eu não tenho capacidade de administrar uma empresa com eficiência não posso fazer isso. Que o faça quem pode administrá-la com eficiência. É preciso colocar regras e não deixar que as quebrem, mas não podemos deixar retroceder a produção, porque ela é fundamental para manter uma política de distribuição que permita sair da pobreza e ter trabalho. Esses problemas para mim são prioritários. A luta de (Luiz Inácio) Lula (da Silva) para que comam todos os dias não é revolucionária para quem come todos os dias. Mas para quem não come é a maior revolução que pode haver. Tudo depende de como lutamos pelas coisas. Por isso, sou amigo dos companheiros bolivarianos e tenho uma enorme simpatia. Mas também não é assim que são feitas as coisas.
Se eu administro uma empresa de ferro e produzo 30% ou 40% menos estou indo para trás em vez de ir para frente. E por que não consigo o mesmo? Porque não tenho uma capacidade social. Eventualmente, o socialismo não é apenas uma questão de relações de propriedade, é também uma questão de responsabilidade, de capacidade de gestão de muita gente. E isso é uma mudança cultural brutal, que não se faz apenas com vontade, segundo ensina a história.
Até os anos 50, eu pensava assim. Mas a história é uma lição permanente, as pessoas têm de aprender. E, sejam quais forem os sonhos que as pessoas tenham, não se pode fazer coisas para que as pessoas retrocedam. Porque há uma coisa que deve ser prioritária, o respeito e o valor à vida. Os seres humanos que estão sobre essa Terra só têm essa vida.
Sobre as eleições presidenciais, quais são os seus planos?
Fazer uma escola aqui na frente da chácara. Porque eu gosto da terra, sou camponês de alma. Vou estar perto dos 80 anos e agora tem de vir uma nova geração, tem de haver renovação.
Mas o sr. não fica na política?
Sim, eu vou estar sempre na política. Até que eu morra. Mas tudo tem seu ritmo e sua possibilidade. Minha atividade tem de ser a de um conselheiro, desses que dão conselhos que ninguém dá muita credibilidade, porque esse é o papel dos velhos.
E sobre Guantánamo, como está a questão do traslado dos prisioneiros para o Uruguai? Chegou-se a acordo com os EUA?
Depende de uma Comissão do Senado americano. Nós oferecemos asilo a eles (os presos).
Mas para ficarem soltos?
Desde sempre, porque não vamos ser carcereiros dos EUA. Sabemos que há muita gente – não todos – que é uma infâmia que estejam presos. (Os americanos) pagavam US$ 10 mil por um suposto membro da Al-Qaeda.
Isso no Paquistão, onde as pessoas são capazes de mandar a mãe para a prisão por esse valor. Foi uma monstruosidade o que aconteceu. Havia pessoas que, sim, tinham vínculo com a Al-Qaeda, mas outras, não. Então, dissemos que nos mandassem. Fizemos as investigações que devíamos fazer. Sempre teremos as portas abertas. Quantos brasileiros vieram para cá durante a ditadura? (Leonel) Brizola, (João) Goulart.