sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

NEUTRALIDADE DA INTERNET - Nos EUA, a neutralidade da rede acabou. ...

Nos Estados Unidos, a neutralidade da rede acabou. Ou quase. Vem aí uma extensa briga judicial.

Odiretor da FCC, equivalente americano à Anatel, liderou ontem uma votação que desregulamentou o serviço de provimento de internet. A partir do projeto de Ajit Pai, que venceu no conselho da agência por 3 votos a 2, empresas que vendem acesso a banda larga poderão bloquear sites online se o desejarem e cobrar a mais por determinados serviços. Pacotes que levam umas coisas, mas não outras, tão comuns na TV paga, passam a ser legais. É o fim, nos EUA, do que se convencionou chamar neutralidade de rede. Ou seja, deixa de ser obrigatório vender acesso à toda internet.
É, no mínimo, uma decisão polêmica. Pai, um advogado indiano-americano de 44 anos, começou a carreira no Departamento de Justiça, equivalente ao nosso ministério, onde trabalhava no setor que analisava a legalidade de fusões, incorporações e outros negócios no ramo de telecom. Tendo passado um bom tempo nas entranhas do governo, migrou para uma das empresas que vigiava, a Verizon, onde foi dirigir o jurídico. E de lá, em 2011, seguiu para a agência reguladora indicado pelo Partido Republicano. Assumiu seu comando em janeiro, indicado por Donald Trump.
Mas não dá para dizer que sua decisão seja apenas de ordem ideológica. Neutralidade de rede é um tema espinhoso. Pouca gente o compreende e, entre os entendidos, o assunto rende debates inflamados. Por ser complexo, é difícil aferir a opinião pública. Uma pesquisa recente do Washington Post, porém, após breve explicação do conceito, aferiu que 83% dos americanos gostam da ideia de que as empresas que vendem banda larga não deveriam repetir o modelo horroroso da TV a cabo. Aliás, isto vale até para eleitores republicanos: 3 em cada 4 não compram a tese de que se trata simplesmente de uma questão de livre mercado. É, isto sim, garantia de um serviço essencial mínimo.
Ainda na quarta-feira, dois senadores – incluindo a republicana Susan Collins, do Maine – enviaram um pedido de última hora implorando a Pai que adiasse a votação para que alguns pontos fossem esclarecidos. O diretor de tecnologia da FCC, Eric Burger, enviou uma carta interna questionando o texto final, que ambiguidamente permitiria aos serviços de banda larga literalmente bloquear sites ou páginas que desejem.
Ainda assim, Ajit Pai tem alguns argumentos relevantes. Em seu discurso pós-vitória, ele lembrou que esta não pode ser vista como uma luta de pequenos indefesos contra empresas gigantes. Afinal, todas as gigantes do Vale do Silício – incluindo Apple, Google, Facebook, Amazon e Netflix – fizeram extensa campanha a favor da neutralidade. E estas são, em geral, empresas bem maiores e poderosas do que as que vendem banda larga.
Sua provocação foi mais a fundo: aponta hipocrisia. O Twitter não permitiu que uma candidata ao Senado da direita radical, Marsha Blackburn, exibisse seu discurso no serviço. Considerou-o inflamatório. A Apple removeu de sua loja, recentemente, um app da revista Cigar Aficionado, voltada para fumantes de charuto. Diz que o estímulo ao tabagismo não está de acordo com os valores da empresa. Ou seja: enquanto no Vale questionam a possibilidade de censura dos provedores de acesso, eles próprios a praticam.
São excelentes jabs. Mas não custa lembrar. Se o Twitter não exibe o discurso, ele estará em outro site. Se o puritanismo da Apple incomoda, basta migrar para Android. Se o provedor de acesso bloqueia, não tem jeito. E, em muitas regiões, tal qual no Brasil, em geral só uma empresa oferece o serviço. Ou seja: o consumidor fica sem escolha.
Nos EUA, a neutralidade acabou. Ou quase. Vem aí uma extensa briga judicial.
Nos EUA, a neutralidade acabou. Ou quase. Vem aí uma extensa briga judicial

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ELEÇÕES 2018 -Mickey vai às urnas

Mickey vai à urna

Esquerda e direita, oposição e situação, mortadela e salaminho – rachar conceitualmente o mundo em partes desiguais tem múltiplas utilidades. É um jeito de espremer o que é complexo na mente mais acanhada. E instrumento para criar identidade por oposição. Nós e eles, nós contra eles. Como separar uns de outros, aí é que são elas, ou eles, ou el@s, sabe-se lá. Não são mais.
Apresentar-se-á aqui, indivisível leitor, um chaveamento social tão revolucionário que é capaz de deixar o Centrão perplexo, o PT indignado e, de espanto, derrubar o PSDB do muro.
Antes da prova fria que curvará todas as separações anteriores a tamanha descoberta sociológica, uma admissão: o conceito não é novo nem original. De compartilhamento em compartilhamento, vaga replicando-se pelo YouTube há uns bons cinco anos.
Quem o descobriu foi ninguém menos do que Ariano Suassuna. O escritor de O Auto da Compadecida colheu-o da boca perolada de sua anfitriã carioca, durante jantar em homenagem à sua recém-concedida imortalidade pela Academia Brasileira de Letras, em agosto de 1990. Levaria décadas, porém, para o insight do autor paraibano se tornar viral. Vírus, à época, era outro organismo.
Apenas em 2012 Suassuna veio a público para contar o episódio revelador. Narrou-o para plateia de um tribunal superior, e, gravado, foi parar na internet. No vídeo, o homenageado imortal conta que tudo era banal naquele refinado jantar de letras, dos croquetes aos salamaleques. Até que a dona da casa lhe propôs a questão que viria a revelar a mais sintética das divisões de mundo: “Naturalmente, o senhor já foi à Disney, não é?”.
Para imensa decepção da anfitriã, Suassuna nunca tinha ido. Nem ele nem 96% dos brasileiros – segundo carona pega em pesquisa nacional feita pelo Ideia Big Data, sob encomenda para lastrear esta coluna. A diferença entre o autor nos anos 1990 e o brasileiro hoje é que este sabe o que é “Disney”. Ou diz saber.
No jantar de 27 anos atrás, levou tempo para Suassuna deduzir que a interlocutora referia-se à Disneylândia, como supôs – ou, como era mais provável, a Walt Disney World, o parque temático mais visitado do mundo. Hoje, apenas 4% dos compatriotas de Suassuna não sabem responder se gostariam “de ir à Disney”. O que significa que a imensa maioria dos brasileiros se divide em dois grupos: quem foi ou quer ir, e quem não foi ou nem quer.
O mais surpreendente é o tamanho do racha que tal questão político-filosófica impõe ao eleitorado nacional. Divide mais do que Lula x Bolsonaro, é mais universal do que um Fla x Flu. Pois 51% dos brasileiros aptos a votar pertencem ao que se poderia chamar de turma do Mickey. A patota que não quer ver o Castelo da Cinderela soma 45%. E 4% não sabem do que estamos falando.
Diferentemente da disputa eleitoral para presidente, não há divisão regional significativa entre os pró-Disney e os anti-Disney. Nem a variação de renda revela tendência clara a favor ou contra um dos grupos. Apenas dois segmentos se admitem francamente fãs do Pato Donald: mulheres mais do que homens, jovens mais do que idosos. Na ponta contrária, os que cursaram uma faculdade são bem menos curiosos sobre Pateta e cia.
De que serve, então, mensurar a turma brasileira do Mickey? Prever sua intenção de voto para presidente.
Eleitores que gostariam de ir à Disney têm 35% mais chance de votar em Bolsonaro num eventual 2.º turno contra Lula. Já eleitores que não querem autógrafo do Tio Patinhas têm 36% mais probabilidade de votar no petista. Só há um cenário onde a diferença é maior: se o eleitor quer ir à Disney, aumenta em dois terços a chance de ele votar em Luciano Huck no 2.º turno.
Os brasileiros se dividem em quem foi ou quer ir à Disney e quem não foi ou nem quer

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

KARNAL - sobre filosofia (1ª parte)


A alta cultura, a média, a baixa e a nossa

Estariam próximos os fãs de 'Velozes e Furiosos' dos de 'Aguirre, a Cólera dos Deuses'?


Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo
10 Dezembro 2017 | 03h00
Em 1936, o livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas chegou ao mercado e, desde então, 81 anos depois, continua aconselhando multidões. Não foi o primeiro texto de “autoajuda”, obviamente, porém é um marco fundacional. Dale Carnegie (1888-1955) enriqueceu. 
As pessoas que puderam ler o trabalho sabem que é fácil entender o motivo do sucesso. Lançado no momento em que a pior fase da depressão econômica estava começando a ser superada, a obra afirma uma inabalável crença na ação do indivíduo como gestor da sua felicidade. Herança de livros e tendências do período vitoriano pertence a um ciclo que envolve o capitalismo em si e a ideia de empreendedor. Era uma nova fase da sociedade ocidental urbana que tentava integrar a felicidade pessoal ao ideal de êxito financeiro. 
Os conselhos de Carnegie são incontestáveis. Não é um livro de mentiras. Se você guardar o nome de uma pessoa, repetir com clareza, olhar nos olhos, sorrir ao apertar a mão e manifestar-se interessado genuinamente nela, é evidente que os laços estarão mais fortalecidos e a primeira impressão será mais positiva. O ensinamento é prático e bom. 
O mercado só cresceu desde então. O “marketing pessoal” foi ficando sofisticado. O dono de fábrica do século 19, ressentido e ranheta, estava ultrapassado. O século 20 era o século da imagem pública, da propaganda pessoal, da teatralização gestual e afetiva e do controle de si como forma de networking. Marx profetizara que tudo viraria mercadoria e tinha razão. Somos nossa mais preciosa mercadoria. O Facebook é filho espiritual de Carnegie.
Fiz parte da imensa legião de detratores do ramo. Afirmei que a palavra autoajuda existe porque quem escreve ajuda a si. Acusei de rasos os conselhos e de lineares as perspectivas. Torci o nariz. Algumas coisas mudaram na minha percepção nos últimos anos. Continuo desconfiado de fórmulas únicas, porém suponho, hoje, que havia muito da crítica de um ciclista profissional à necessidade de rodinhas laterais de apoio na bicicleta do iniciante. Sempre existe algo de arrogante nos julgamentos das obras gerais ou de divulgação. 
Dei um curso sobre textos de autoajuda e tive oportunidade de ler muitos. Fiz a experiência com alunos de trazer excertos de grandes filósofos com conselhos práticos e bons como Montaigne e Pascal, sem mencionar os autores, e depois misturava com trechos da Bíblia e de autores que estavam entre os mais vendidos do setor. Ao final, como era óbvio supor, a maioria dos alunos tinha dificuldade enorme em distinguir a origem dos textos. As fronteiras ficavam mais diluídas.
O que eu tratei até aqui poderia ser idêntico se eu comparasse o esforço de um grande maestro clássico contemporâneo que persegue sutilezas dodecafônicas-atonais-minimalistas com o celebérrimo André Rieu. Aqui, creio, teremos dois tipos de leitores desta coluna. Um dirá: que coisa é essa de dodecafonismo? Outro, pelo contrário, lançará a dúvida: quem é esse André Rieu? 
Rieu tem formação musical sólida, ao que parece. Ele decidiu divulgar a música clássica. Para seus shows, seleciona trechos de grande apelo como uma valsa romântica vienense ou um pungente arioso do barroco, uma ária emotiva ou um tonitruante coral da Nona de Beethoven. O efeito é completado com roupas bonitas, arranjos específicos e luzes. Ele oferece a música de apelo amplo, melodiosa, sem necessidade de bula. Seria Rieu a autoajuda das orquestras?
Nos casos que estamos exemplificando existiriam dois grupos opostos? Aquele círculo seleto e bem-formado, capaz de trabalhar a ausência de tensão narrativa na Odisseia de Homero em comparação ao trecho do Gênesis do sacrifício de Isaac, guiado pelas mãos geniais de Auerbach? Esse grupo seria o que se oporia perfeitamente a um romance de Paulo Coelho ou a um livro de Dan Brown? Seriam antípodas ou, como querem alguns, apenas atenderiam mercados muito específicos e não se negariam? Em outras palavras, quem se deleita com A Cabana (William Young) não atrapalharia aquele que se dedica a Jerusalém Libertada (Torquato Tasso). Quem vê um filme de iluminação penumbrosa, gestos reduzidos e diálogos longos não retiraria público daquele filme blockbuster de explosões em série. Estariam próximos os fãs de Velozes e Furiosos dos de Aguirre, a Cólera dos Deuses? 
Inicialmente, a questão parece estar colocada em polos: superficialidade x densidade; produto açucarado x produto desafiador; entretenimento x questionamento; passatempo x crescimento; massas x ciclo de iniciados; caça-níqueis x arte elevada; kitsch x refinado e assim por diante. Será mesmo? As questões implicam mais atenção e voltaremos a elas na próxima coluna. Deixo a provocação: sua cultura é alta, média, baixa ou é apenas a sua? Afinal, o que seria cultura? Quem poderia elaborar seu julgamento e sua métrica? Voltarei ao tema. Bom domingo para todos de todas as culturas.

KARNAL - Sobre a Filosofia (2ª parte)


Não nos enganemos, a Filosofia, que se fechou para o grande público, também tem seu quinhão de autoajuda.

Eu tratei na coluna de domingo passado sobre padrões de cultura e de consumo cultural no mundo contemporâneo. Muitos me enviaram questionamentos sobre a noção de cultura e sobre a utilidade dos produtos culturais. Nada melhor para responder do que buscar um esforço sistemático de pensamento que é a Filosofia.
A Filosofia nasceu perguntando coisas muito práticas como, por exemplo, do que era feito o universo. Posteriormente, Sócrates, a grande personagem de Platão, não se refugiou em uma biblioteca com eruditos, mas conversou com pessoas simples e, por meio de perguntas, despertou as contradições que possibilitavam reposicionamento das ideias dos interlocutores sobre, por exemplo, o que era coragem.
Na Idade Média, a Filosofia limitou-se a poucos centros religiosos e universitários. O analfabetismo quase absoluto restringiu debates. Qual servo da gleba entenderia algo do argumento ontológico de Santo Anselmo? Quantos debateram nas praças a querela dos universais? Poucos, com certeza.
Na Idade Moderna, houve vários tipos de filósofos. Alguns apresentam estilo um pouco mais acessível, como Maquiavel e Montaigne. Outros, como Descartes e Spinoza, usam linguagem e raciocínio um pouco mais técnicos. Os iluministas tinham um sentido de missão que os aproximava da vontade jornalística. Ao usarem romances, Voltaire e Diderot seguiram uma tendência que já aparecera na peça A Mandrágora, de Maquiavel, e que seria presente também na obra A Náusea de Sartre: a literatura era uma forma de veículo. Não é necessário ser um filósofo profissional para ler o Cândido de Voltaire, mas ali está uma crítica ao raciocínio de Leibniz na forma atrativa da ficção.
O mundo contemporâneo é, majoritariamente, o mundo dos filósofos universitários. A obra de Kant como a Crítica da Razão Pura é um tratado denso, cheio de termos técnicos e com um raciocínio vedado aos de fora. Hegel está no mesmo campo. Tive um professor que dizia que, quando Hegel começou a escrever Fenomenologia do Espírito (o livro que levei mais tempo para ler e entender...), só ele e Deus sabiam o que ele queria dizer. Quando Hegel terminou, só ele sabia o significado.
O caminho não é linear. Filósofos continuaram fazendo peças de divulgação como a célebre palestra de Sartre O Existencialismo É Um Humanismo. Emerson, nos EUA, era quase um missionário percorrendo lugares para falar de Filosofia. Porém, a norma da filosofia universitária é o texto de um Heidegger ou de um Adorno. Em muitos sentidos, a Filosofia se fechou para o grande público.
Eu estava na França quando começou o movimento de “Um café para Sócrates”. Era uma tentativa de resgatar algo na chamada maiêutica socrática. Sem formalismos, um professor debatia com donas de casa, trabalhadores e estudantes. Nada de termos como epistemologia, heurística ou apodítico. Era uma conversa simples, ainda que não simplória ou banal.
Luc Ferry e seus livros são uma tentativa de fazer essa ponte. Ao falar de felicidade e vida familiar, muita gente torce o nariz para sua obra. Descobri, ao ler a obra do ex-ministro francês, que os críticos deixavam escapar sua vontade elitista. As grandes ideias não são para as massas. Havia mais demofobia do que oposição a um modelo.
Pensei em três caminhos. Um é o do conhecimento filosófico em meio estritamente universitário. Esse é produzido por e para especialistas. Busca (ou ao menos deveria buscar) expandir os limites do conhecimento, da natureza do que é conhecer e de como conhecemos as coisas. Mesmo que não compreendamos esse conhecimento, é inegável que o mundo precisa cada vez mais de Matemática, Física e Filosofia. Eu posso não entender um acelerador de partículas, mas quem o entende tira dele o futuro do cognoscível. O mesmo para quem lê Giorgio Agamben ou Paul Ricouer.
Um segundo caminho, que vejo como igualmente necessário, é o do construtor de pontes. Esse busca o limite do conhecimento filosófico e tenta, ao mesmo tempo, levar tal conhecimento para quem está abaixo da torre de marfim. Tais arautos levam algumas pedradas por simplificarem e muitas bordoadas se fizerem sucesso.
A terceira via é a chamada autoajuda (conceito porte manteau) e seus conhecimentos práticos para uma vida mais feliz. Esse sempre será um filão de sucesso editorial, mercadológico. As pessoas querem ser felizes, seja tomando um remédio ou lendo um guia de como fazê-lo. Não nos enganemos, a Filosofia também tem seu quinhão de autoajuda. Todo filósofo quer entender melhor como viver bem. Mas isso não significa perseguir a felicidade, o sucesso na carreira ou em ser popular a todo custo. A Filosofia, muitas vezes, mostra-nos como nossa vida pode ser tirânica, despótica, desequilibrada, violenta. Como provocamos dor e buscamos sofrimento. Às vezes, esse espelho do narciso moderno é o oposto do que gostaríamos de ver. Por isso, a autoajuda faz mais sucesso. Ela não lhe mostrará o quadro de Dorian Gray. Se o fizer, será retórico. Se não for retórico, se o obrigar a pensar, de fato, a ficar em situação incômoda e, portanto, buscar novas bases, sempre provisórias, sobre onde deitar algumas raízes, deixou de ser autoajuda e passou a ser Filosofia. Boa semana para todos nós.
Não nos enganemos, a Filosofia também tem seu quinhão de autoajuda

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

FUTURO - As 5 questões que moldarão o futuro, segundo especialistas Pontos foram discutidos em conferência promovida pelo Fórum Econômico Mundial em Dubai

 19/11/217

As 5 questões que moldarão o futuro, segundo especialistas

Pontos foram discutidos em conferência promovida
pelo Fórum Econômico Mundial em Dubai
Nós temos um futuro brilhante pela frente. Novas tecnologias prometem soluções para os principais maiores problemas do mundo. Ao mesmo tempo, nós temos um futuro assustador pela frente. Acelerar cada vez mais mudanças tecnológicas tem chacoalhado todos os aspectos das nossas vidas.

Essas afirmações são tão verdadeiras quanto contraditórias. Mas há gente se dedicando a entendê-las. Durante a conferência "Future Councils", promovida pelo Fórum Econômico Mundial em Dubai, 700 especialistas tentaram traçar um possível caminho. O evento divulgou em sua página os principais pontos discutidos e as ideias propostas:
 
1. A quantidade de informação no mundo cresce a uma velocidade surreal. Agora é hora de se concentrar na qualidade. Com mais dados disponíveis, seria lógico que os profissionais que lidam com esse recurso estivessem vivendo seu melhor momento. No entanto, quem trabalha com notícias, informações e ciência está tendo de se reajustar. 
Proposta: E se nós enfrentássemos o desafio do "fake news" (notícias falsas) munidos de um alto padrão de mídia e uma ampla alfabetização digital, com educação sobre os direitos e as responsabilidades dos cidadãos?
2. Dados não são o suficiente. Eles precisam ser confiáveis e úteis. Big data permite que desenvolvedores de produtos e serviços descubram informações sobre o comportamento humano como nunca antes foi possível. Mas precisa haver impacto.
Proposta: E se os aplicativos que monitoram a saúde pessoal em celulares levassem a mudanças comportamentais de dieta e atividade física, o que todas as pesquisas e a educação até agora não tinham conseguido fazer?
3. A blockchain será revolucionária. Ainda está confuso sobre o que é esse negócio? Leia esta matéria. Basta pensar em um grande banco de dados inteligente, que pode rastrear qualquer informação. Essa característica torna a blockchain bem útil para resolver problemas globais.
Proposta: E se a blockchain pudesse nos ajudar a alimentar um mundo cada vez mais populoso?
4. Leve em consideração o todo antes de decidir quais problemas precisam ser resolvidos. O Fórum Econômico Mundial disponibilizou o seu "Mapa da Transformação", em que mostra vínculos estreitos entre os maiores desafios globais. Ou seja, não se deve reduzir o seu olhar.
Proposta: E se em vez de construir mais e melhores tipos de estradas com novas tecnologias, investíssemos em plataformas colaborativas, como o Uber, para usar as estradas que já temos de forma mais eficaz?
5. Tudo tem a ver com confiança. Os especialistas tendem a ser otimistas. Mas há um entendimento claro de que o público em geral ainda tem muitas ansiedades em relação ao ritmo das mudanças. Se você está preocupado em perder seu emprego ou não conseguir acompanhar essa frequência, é mais fácil começar a achar que o mundo está contra você — o que desperta desconfiança.
"A sociedade está lutando para se adaptar tão rápido quanto a tecnologia está em movimento, o que pode apontar para uma necessidade de diminuir o ritmo de mudança por meio da regulamentação, ou criação de impostos sobre robôs", diz o Fórum.
Proposta: E se não nos adaptarmos tão rapido quanto a tecnologia e tivermos de encontrar maneiras de diminuir o ritmo de mudança?
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INFORMÁTICA - Interação homem-computador é cada vez mais uma via de duplo sentido

Interação homem-computador é cada vez mais uma via de duplo sentido.

O título é o de um texto profético de J.C.R. Licklider, Man-Computer Symbiosis, escrito em 1960 (!). Licklider foi um cientista brilhante com atuação em múltiplas áreas, uma delas o projeto Arpanet, que acabou gerando a Internet que conhecemos hoje.
No último texto aqui, resvalei em IA (inteligência artificial) e arrisquei afirmar que as máquinas não desenvolverão “ética e consciência” nos moldes humanos. Reconheço que há divergências quanto a essa previsão, mas o citado artigo de Licklider ajuda a diminuir as inquietudes de diversas formas.
Além de espantosamente prever que a futura interação com máquinas seria baseada em voz, e de descrever em 1960 o que hoje chamamos de “computação em nuvem”, ele traz uma visão sobre o futuro papel das máquinas.
Transcrevo: “se hoje os computadores ajudam na solução de problemas que nós formulamos, eles passarão a participar da própria formulação dos problemas. Numa futura simbiose, nós definiremos os objetivos, as hipóteses e os critérios, e faremos a decisão final. Os computadores além de todo o trabalho de rotina, prepararão o caminho para conclusões técnicas e, mesmo, para o pensamento e a pesquisa científica”.
Simbiose é um conceito da biologia, que define uma relação de interdependência entre criaturas de espécie/natureza diferente. Um exemplo clássico é o da figueira, cuja polinização depende de um tipo específico de vespa, a qual, por sua vez, alimenta-se apenas de figo. Sem a vespa a figueira não frutifica. Sem o figo a vespa se extingue.
Num processo de tomada de decisão, gastamos a maior parcela de tempo em reunir material, organizá-lo de forma coerente, agrupar os dados em gráficos e tabelas. Só uma pequena (mas nobre) parcela de tempo é destinada a, dado todo o panorama construído, tirar uma conclusão.
Essa preparação prévia já está em boa parte a cargo dos computadores, das ferramentas de busca, da Internet com seu imenso repositório. Com as referências certas, pode-se chegar a uma decisão sensata.
O que existe hoje é, assim, a interação homem-computador. Um interação que é cada vez mais uma via de duplo sentido.
Há tempos a automação instalou-se em fábricas, em linhas de montagem e, mesmo hoje, não é raro a máquina precisar da ajuda do homem para completar tarefas complexas. Nem o homem sozinho, nem a máquina de forma autônoma dariam conta do que há por fazer, ou seja, a dependência mútua já está posta. Evoluirá de uma extensão mecânica do homem para uma “simbiose”?
Numa interdependência real, além de ajudar a organizar o pensamento e responder nossas perguntas, as máquinas poderão nos auxiliar na própria formulação das questões. Afinal, muitas vezes é mais importante e difícil descobrir qual a pergunta certa a fazer.
Há certamente uma revolução a caminho. G.K.Chesterton alerta para um desvio nessa busca, a ser considerado: “revolucionar” deveria ser usado como um verbo transitivo, buscando um foco, não um verbo intransitivo, que se autojustifica.
Quanto à importância de fazer a pergunta certa, ao final do Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams, o supercomputador onisciente finalmente consegue responder à obsedante pergunta “qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais?”. A resposta foi “42”.
Nem o homem sozinho nem a máquina autônoma dariam conta do que há por fazer

REFORMA DA PREVIDÊNCIA: necessária e justa

Reforma da Previdência: necessária e justa

Para entender a reforma da Previdência, dois pontos precisam ser considerados: 1) ela é necessária; e 2) sendo necessária, é socialmente justa? A resposta é sim para as duas questões.
A necessidade da reforma da Previdência fica clara quando consideramos que o Brasil gasta muito com benefícios previdenciários, apesar de ter uma população ainda relativamente jovem. Em 2016, o Brasil gastou com benefícios previdenciários 13,1% do Produto Interno Bruto (PIB) – 8,1% do PIB com a previdência do setor privado (RGPS) e 5% do PIB com a previdência dos servidores públicos da União, Estados e municípios (RPPS). Esse nível de despesas com a Previdência só é encontrado em países muito mais envelhecidos que o Brasil, como a França.
Para piorar, a população brasileira está envelhecendo num ritmo extremamente acelerado. Mantidas as regras atuais, até 2060 as despesas com o RGPS crescerão em mais 9 pontos porcentuais do PIB e as despesas do RPPS também crescerão de forma relevante. Isso significa que, se nada for feito, a carga tributária terá de crescer em pelo menos mais 10 pontos porcentuais do PIB, apenas para financiar o aumento das despesas previdenciárias.
Pode-se argumentar que esse aumento poderia ser compensado por uma redução de outras despesas. Ainda que o controle das despesas públicas seja sempre desejável, a realidade é que é impossível acomodar o aumento dos gastos com Previdência por meio do corte de outras despesas. No caso da União, por exemplo, as despesas previdenciárias já respondem por 52% de todas as despesas primárias, valor que sobe para 56% quando se consideram também os benefícios assistenciais para idosos e deficientes.
Ou seja, se não houver a reforma, o aumento dos benefícios previdenciários não só levará a uma forte compressão de todas as demais despesas – com educação, saúde, segurança, etc. –, como ainda exigirá um forte aumento da carga tributária.
Se a reforma da Previdência é claramente necessária, ou até indispensável, resta saber se as mudanças propostas são socialmente justificáveis.
Simplificadamente, o texto atualmente em discussão na Câmara dos Deputados faz duas mudanças principais: introdução de uma idade mínima para aposentadoria (de 62 anos para as mulheres e 65 anos para os homens) e convergência entre as regras da previdência do setor privado e dos servidores públicos. Do meu ponto de vista, as duas mudanças são justas.
As atuais regras previdenciárias permitem a aposentadoria por tempo de contribuição em idades muito baixas (em média, 53 anos para as mulheres e 56 para os homens). Num contexto em que a expectativa de vida das pessoas que chegam aos 60 anos de idade é de mais de 80 anos (inclusive no Nordeste), não parece justificável que a sociedade toda pague para que as pessoas se aposentem cedo. A função da previdência pública é garantir renda para as pessoas que não têm mais capacidade de trabalhar, e não garantir aposentadorias precoces para pessoas que ainda têm plena capacidade de trabalho.
Sem ela, serão comprimidas as despesas com educação, saúde, etc., e exigido, ainda, forte aumento de impostos
De modo semelhante, as regras previdenciárias para os servidores públicos permitem aposentadorias em valores bem mais elevados que para os trabalhadores privados. Ainda que os servidores contribuam sobre o salário integral, a verdade é que o déficit por trabalhador do RPPS é muito maior que o déficit por trabalhador do RGPS. Para mim não faz sentido que, para financiar a aposentadoria de um servidor, seja destinado um montante muito mais elevado de recursos públicos – que poderiam ser alocados em outras prioridades – que para financiar a aposentadoria de um trabalhador privado.
Vale lembrar que, tanto para a introdução da idade mínima quanto para a convergência das regras de previdência do RPPS e do RGPS, há uma transição bastante longa.
Por fim, gostaria de registrar que não me identifico com o atual governo. Mas essa não pode ser uma desculpa para ficar contra uma reforma essencial para que os próximos governos – sejam eles quais forem – possam governar.

POLÍTICA - Você no poder: como funciona

Você no poder: como funciona

Muita gente perguntando como, exatamente, funciona o sistema distrital puro...
O sistema eleitoral define tudo o que vai acontecer na relação entre governo e cidadão da eleição em diante. Todo governo é uma hierarquia. Cada modelo estabelece essencialmente quem vai ter a última palavra nas decisões que afetam a todos.
Quando você vota por um sistema proporcional, em que o candidato colhe um voto aqui, outro ali no Estado inteiro, uma vez depositado o voto na urna está cortada qualquer possibilidade de identificação entre quem foi eleito e quem o elegeu. No sistema distrital misto dá pra saber que pedaço do País votou em quem, mas você entrega ao partido a decisão sobre o que fazer com o representante que perder a sua confiança.
A democracia foi inventada para inverter o jogo ancestral da minoria mandando na maioria na base da violência, mas sem que a maioria se transformasse em outra forma de tirania contra as minorias. O voto distrital puro com recall, referendo e iniciativa é a única fórmula que entrega essas duas coisas juntas. Mas atenção! O voto distrital não é um fim, é só um meio para um objetivo mais amplo. O sistema tem de ser o distrital puro para que os direitos de recall, referendo e iniciativa – estes, sim, as ferramentas operacionais que mudam tudo – possam ser exercidos com garantia de legitimidade e sem ter de parar o país inteiro a cada passo.
Esse sistema permite que, com a maior facilidade, mas não qualquer facilidade, cada eleitor convoque um recall ou referendo indubitavelmente do seu representante, a ser votado só no seu distrito, acionando um mecanismo absolutamente transparente. Qualquer cidadão das maiorias ou das minorias eventuais em que o distrito se divide a cada eleição poderá iniciar um processo de recall contra o representante que, uma vez eleito, passa a ser o representante daquele distrito. Se colher o número estipulado de assinaturas, o distrito inteiro é chamado a votar de novo para derrubar ou manter, seja o representante, seja a lei do legislativo local (municipal ou estadual) que se queira desafiar por referendo.
Para garantir a legitimidade e a funcionalidade desses processos num sistema representativo cada distrito tem de ser desenhado em cima do mapa real da população e ter aproximadamente o mesmo numero de pessoas. Assim, um município pode decidir quantos representantes quer ter na sua Câmara Municipal, mas o tamanho dos seus distritos eleitorais será dado pela divisão do total de habitantes pelo número de representantes desejado. Os distritos estaduais e federais serão sobrepostos aos distritos menores.
Uma vez estabelecidos, esses distritos municipais, estaduais ou nacionais são numerados e daí para a frente só poderão ser alterados em função do censo populacional, um critério inteiramente objetivo. Cada eleitor passa a ser um “Eleitor do Distrito (municipal, estadual ou federal) n.º Tal” até o censo registrar que ele mudou de lá. Como cada representante só pode disputar os votos de um único distrito, quem for eleito terá condições de saber o nome e o endereço de cada um dos seus representados, e vice-versa.
Por isso nos Estados Unidos os deputados do Congresso Nacional não são representantes do “Estado fulano”, são representantes do “Distrito Congressional n.º Tal”. Esse distrito tende a coincidir com um Estado, mas isso não é obrigatório. No Senado, sim, a representação é dos Estados, independentemente da população. Dois senadores por Estado. Na Câmara o único limite é o mínimo de um representante mesmo para Estados que tenham menos de 700 mil habitantes, que é o tamanho de cada distrito nacional, porque eles têm 435 deputados e são 304 milhões de habitantes. Cada deputado representa, portanto, “aqueles” 700 mil cidadãos com existência física e endereço certo e sabido. Num Brasil de 513 deputados cada distrito federal teria cerca de 400 mil habitantes. Se algum representante morrer, renunciar ou sair do Congresso por qualquer motivo, não tem suplente ou reposição pelo partido. Convoca-se outra eleição só naquele distrito para eleger o substituto. O representante de cada eleitor nos centros de decisão é pessoal e intransferível. Você, e só você, põe o seu representante. Você, e só você, tira o representante de lá se ele não o representar bem. A imunidade protege o eleitor, e não o representante, que não fala por si, fala por você. O eleitor não tem de dar nenhuma satisfação para fazer um recall ou “retomar” um mandato. Só tem de consultar os demais representados dele. Se a maioria dos eleitores do distrito concordar, rua!
O resto é o federalismo que faz. Como tudo deve estar sempre referido a pessoas, a única fonte de legitimidade do processo político, tudo deve partir e tudo deve voltar, na maior medida possível, para a célula eleitoral mais próxima do indivíduo: o bairro, o distrito. Lá ele tem de ter plenos podres. Daí para cima quem ordena as relações entre as instâncias maiores e menores de representação é o principio do federalismo. Ele estabelece que tudo o que puder ser resolvido por um único distrito – a escola local, por exemplo – deve ser decidido, gerido e, se possível, financiado por esse distrito. Ao município, um conjunto de distritos, deve ser deixado tudo o que pode ser decidido e financiado num único município (parques, zoneamento, regras de convivência, polícia local, saneamento, etc.). Aos Estados, só o que não puder ser resolvido por um único município (como estradas, combate ao crime, etc.). E à União, apenas o que não puder ser resolvido por um único Estado (diplomacia, relações internacionais, controle da moeda e defesa nacional).
Num sistema desses acaba aquele papo do “eu falo em nome do povo”. Passa a ser possível conferir isso, preto no branco, só pelas pessoas afetadas por cada tipo de decisão a ser tomada. Não há milagre. Esse sistema põe um patrão em cima de cada político – você! –, que fica obrigado a jogar do jeitinho que você quiser para não perder o emprego.
O sistema de voto distrital puro põe em cima de cada político um patrão, que é você