quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

as civilizações também morrem: poucos aceitam que a próxima cultura a sumir pode ser a ocidental






As civilizações também morrem: poucos aceitam que a próxima cultura a sumir pode ser a ocidental

Egito faraônico, Mesopotâmia, Grécia e Roma antigas, astecas, incas e maias. Todos lembram das culturas que sumiram, mas poucos aceitam que o Ocidente pode estar caminhando a passos largos para isso

Hilário Franco Junior ,
Impresso
31 Dezembro 2016 | 16h00
Para os contemporâneos de qualquer época é sempre difícil fazer balanços, falta a indispensável perspectiva histórica que só o tempo fornecerá. Mas a insatisfação e a inquietude do mundo ocidental são hoje bem palpáveis. Em quase todos os países a maioria da população está descontente, deseja mudanças, por isso opta pelo Brexit, elege Trump, flerta com os extremismos. Ao mesmo tempo, o medo de reformas é inegável: no recente referendo italiano, dos 58% que votaram “não” à reforma constitucional, metade sequer sabia claramente o que rejeitava. Na Europa e nos EUA os povos buscam um passado idealizado, na América Latina um futuro que nunca chega.
Em todo o Ocidente um grupo soi-disant bem-pensante critica os populismos, sem reconhecer sua participação na emergência deles. Nas últimas décadas ele quis acreditar que poderia obter a inclusão social dos desfavorecidos, nacionais ou estrangeiros, por meio de decretos, patrulhamentos comportamentais e discursos agressivos e censórios, justificados por uma suposta superioridade moral. Essa doutrina do politicamente correto, autoritarismo de boas intenções, não poderia deixar, mais cedo ou mais tarde, de gerar reações na maioria silenciosa, que tem dificuldade em aceitar um multiculturalismo cujos benefícios ainda estão por provar, e que lhe é impingido com ardor por uma minoria engajada. Por não perceber isso, é que houve estupefação diante dos 59 milhões de votos de personagem tão inculto, truculento, misógino, homofóbico e racista como Trump.

Bandeira da Grã-Bretanha no chão no dia da votação do Brexit
A divisão ocidental é profunda, a democracia tal como a conhecemos, advertiu Obama recentemente, pode estar em vias de extinção. E de fato, a cada nova eleição ou referendo com estreita vantagem do vencedor o resultado tem sido o aprofundamento das cisões. Foi assim com a escolha de Dilma, Trump, Rajoy, os referendos do Brexit e de Renzi. No dia seguinte a este último, o editorial do La Repubblica diagnosticou um país em “clima de guerra civil sem armas”. A necessidade de rever as regras da democracia é óbvia, porém trata-se de vaca sagrada que ninguém quer tocar mesmo morrendo de fome diante dela.
A França é bom exemplo: nenhum governo consegue fazer as reformas estruturais necessárias, pois a cada decisão importante “a rua se manifesta”, alguma fração da sociedade questiona fortemente, ocorrem manifestações e contramanifestações que comprometem a harmonia social. A democracia representativa é posta em causa, porém a democracia direta defendida por alguns e que foi viável nas pequenas cidades-Estado da Grécia antiga, não o é nos Estados modernos de dezenas ou centenas de milhões de cidadãos.
Na Europa do sul, alguns partidos advogam o não pagamento da dívida externa, “imoralidade” que sufoca suas economias e o padrão de vida de seus povos, sem reconhecer a imoralidade de tomar algo e não devolver, sem admitir que os gastos eleitoreiros dos governos (isso também não é populismo?) geram a dívida. Contudo os governantes são reflexo de seus cidadãos. E estes querem mais direitos que obrigações, todos vivem mais tempo e não pretendem trabalhar mais, todos exigem serviços públicos gratuitos de qualidade e impostos baixos: que paguem hoje os credores estrangeiros e amanhã as próximas gerações nacionais.
Em toda parte o discurso predominante acusa as elites de todos os males, sem perceber que o problema é exatamente o inverso – faltam verdadeiras elites, literalmente entendidas como “os melhores, os mais qualificados” de uma comunidade, de uma nação. Como carecem verdadeiros homens de Estado, cultos e corajosos, seus pobres substitutos limitam-se a aprofundar a velha política romana do “pão e circo”. O pão, mais do que conquistado pelo bíblico “suor do rosto”, é fornecido pelo Estado sob a forma de inúmeras alocações sociais e, no futuro, se a ideia em estudo em vários países vingar, um “rendimento universal” pago desde o nascimento a todo cidadão sem necessidade de contrapartida! O circo é estimulado por programas de auditório, reality shows, imprensa cor-de-rosa, competições esportivas, redes sociais. Os avanços do presente não são sociais, políticos, éticos, culturais, são tecnológicos, e várias vezes estes comprometem aqueles: qualquer indivíduo se sente em condições de opinar sobre tudo, de divulgar meias mentiras e mentiras inteiras, de recrutar terroristas, e pode fazê-lo em escala global.
Egito faraônico, Mesopotâmia, Grécia e Roma antigas, astecas, incas e maias. Todos lembram destas civilizações brilhantes que desapareceram, poucos talvez aceitem que a civilização ocidental pode estar caminhando a passos largos para isso. A trajetória é semelhante à daquelas: interesses de pequenos grupos sobrepostos aos do todo; apatia que redunda em retração cultural, demográfica e econômica; penetração, admitida numa fase, sujeitada noutra, de povos com outros comportamentos, valores, idiomas, religiões. A necessidade de o Ocidente se autorreformar em profundidade é urgente, embora não se deva colocar nisso muita ilusão, como advertiu Tomás More exatos 500 anos atrás, na sua Utopia: “reconheço de boa vontade que existem na república utopiana muitas coisas que eu desejaria ver nas nossas terras, coisas que desejo, mais do que espero”.
HILÁRIO FRANCO JÚNIOR PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA USP E AUTOR DE A IDADE MÉDIA, NASCIMENTO DO OCIDENTE (BRASILIENSE

media training para bolsonaro 'olhar para si'



 
Olga Curado agora dá aulas a deputado do PSC, políticos e empresáros implicados na Lava Jato
20/11/2016
Entre os políticos que já fora ajudados por Olga Curado estão nomes como o de Lula, Dilma e Aécio
Por Gilberto Amendola

Ensinar o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a se ouvir, a compreender que tudo aquilo que ele diz pode ter consequências na vida de outras pessoas; ensiná-lo a olhar para dentro de si e a encontrar um ponto de equilíbrio – tudo isso, claro, usando técnicas do Aikidô, arte marcial que prega os princípios da não violência.
Parece uma missão impossível, mas esse já foi um dos trabalhos da especialista em media training, jornalista, poeta e budista Olga Curado. Sim, Bolsonaro foi um dos políticos nacionalmente conhecidos que, ao longo dos últimos 16 anos, procurou melhorar a própria comunicação tendo se socorrido dos serviços de Olga (o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves também já foram ajudados por ela).
A ética profissional não permitiu que Olga contasse detalhes das sessões com o deputado linha dura. O que não impediu que a reportagem imaginasse o excelentíssimo se atirando e rolando no tapete macio do escritório da especialista – eventualmente utilizado para dinâmicas físicas. “É importante ensinar a cair para que a pessoa aprenda a se levantar. Proponho exercícios de equilíbrio físico. A pessoa tem que cair para perceber o seu ponto de equilíbrio. Cair no chão, rolar e perceber como é rígida. No filme O Discurso do Rei, o coach usa técnicas parecidas com essa para melhorar a comunicação do rei gago”, diz Olga.
A reportagem procurou Bolsonaro para que o próprio comentasse as aulas, mas o pedido parou na assessoria do deputado que, automaticamente e sem ouvi-lo, avisou que ele não falaria sobre o assunto.
Ainda sobre Bolsonaro, Olga comenta que ele é um personagem curioso – com crenças que ela não discute. “Ele tem o público dele. O importante é que políticos como Bolsonaro tenham a medida clara do que falam. Às vezes, políticos falam sem a noção das consequências. Falam e se surpreendem com o efeito nocivo do ódio. Se surpreendem com a interpretação que fazem do que eles dizem. É preciso cuidado com a força bruta da inconsciência”, diz.
‘Água no pescoço’. Sem revelar especificidades de seus clientes, Olga conta como muitos dos políticos chegam em seu escritório. “Normalmente me procuram quando a água já está batendo no pescoço”, fala. Não à toa, citados na Operação Lava Jato (políticos e empresários) estão entre os seus clientes mais recentes. “Claro, o meu trabalho acontece antes do caso chegar em Curitiba”, avisa. “Mas eu preparo, por exemplo, quem vai dar algum depoimento em CPI ou explicações públicas. Tento passar técnicas para que eles tenham autocontrole mesmo diante das perguntas mais duras. Até para dizer que não vai responder é preciso algum preparo”, lembra.
Mas existiria alguma dica básica que poderia ser aplicada para a maioria dos políticos em maus lençóis? “Não adianta querer ser simpático, seduzir os interlocutores ou fingir ser íntimo demais. Não precisa cometer suicido público, mas não se deve enrolar. Não ajudo políticos a se esconderem. Eles precisam assumir responsabilidades por aquilo que pensam ou querem. Não ensino a mentir. Não faço teatro”, afirma Olga.
Para ela, o que faz muitos homens públicos apresentarem problemas de comunicação é a falta de clareza em seus propósitos. “Quando pergunto por que determinado político quer ser prefeito ou governador, ele me diz que é pra ‘melhorar a vida das pessoas’. Ok, tudo bem. Isso é mais ou menos verdade porque muitos não têm uma agenda concreta. A qualidade da comunicação tem a ver com coerência. Não adianta exercício de retórica. Ou o político explica como ele pretende ajudar as pessoas ou o eleitor percebe. O eleitor tem uma sensação quando o que se diz é verdadeiro ou apenas um exercício artístico, uma elaboração artificial”, diz.
Segundo Olga, a nossa “cultura do líder” faz com que muitos tenham vergonha de dizer coisas como ‘não sei’. “O mais fácil é a gente ouvir: ‘isso eu não sei, mas na minha opinião...’ Essa é a síndrome da opinião sobre assuntos que as pessoas não sabem. Políticos sofrem disso e, por isso, sofrem com a exposição pública”, conta. “Tento confrontá-los para que não assumam os dois personagens mais manjados do comportamento político: o da vítima ou o do super-herói. Nenhum funciona. Quando se escondem atrás desses personagens, só falam para convertidos. Portanto, não ganham eleições majoritárias.”
Além das questões conceituais, a especialista trata de problemas bastante concretos, como o de ensinar como um político deve respirar, como olhar para as pessoas, segurar um olhar sem constrangimento, como não parecer arrogante, usar as mãos de uma maneira correta, manter a postura e ter a consciência do próprio corpo. “Muitos tomam um susto quando se olham. Dizem: ‘ eu não sabia que era assim. Trata-se de um processo de educação não verbal”, afirma.
Questionada sobre políticos que teriam o domínio da arte da comunicação, Olga cita dois que não foram seus alunos: “Tem um que é bastante óbvio: o Obama. Ele sabe criar um ambiente empático, sabe dar a atenção devida aos seus interlocutores, tem clareza e etc.”.
Cunha. O outro é um pouco mais surpreendente. “Eduardo Cunha. Ele não precisa de aula. Acho que já nasceu sabendo. Não é um julgamento de conteúdo, mas de forma. Ele tem a fala clara e sabe o que quer quando está se expressando. Na votação do impeachment, ele ouvia os maiores xingamentos contra ele e apenas repetia: ‘Excelência, por favor, o seu voto’”.

Trumponomics e o Brasil

O resultado das eleições americanas de novembro cimentou consenso de que as políticas econômicas do presidente eleito Donald Trump, cuja posse ocorrerá em menos de duas semanas, serão bastante parecidas com as adotadas na segunda metade dos anos 80. A esperada expansão fiscal proveniente de uma reforma tributária e de expressivas reduções nos impostos corporativos hão de beneficiar empresas, o que tem levado a altas consecutivas da bolsa americana. Políticas que acabem por valorizar o dólar e aumentar o déficit externo americano fecham o arco de pensamento predominante entre analistas, alguns acadêmicos e investidores que veem nos anos Reagan a fonte de inspiração para o Trumponomics. Mas, e se os efeitos no Brasil forem piores do que se imagina?
Fala-se muito na alta dos juros pelo Fed e nas implicações que isso poderá ter para a queda de juros no Brasil. O Banco Central brasileiro, embora mais disposto a fazer o que já deveria ter feito, tem se mostrado cauteloso com o processo de redução dos juros por entender que altas mais aceleradas e intensas da taxa básica americana poderão afetar negativamente o Brasil. Mas há no Trumponomics aspectos que nada têm a ver com a inevitável redução da Selic.
Trump e os Republicanos do Congresso têm descrito – ainda sem muitos detalhes – o que poderá vir a ser a reforma tributária americana: corte dramático de impostos corporativos, hoje relativamente altos quando comparados aos de países desenvolvidos, e a adoção de um “border adjustment tax” (BAT). A proposta prevê a substituição do imposto de renda sobre pessoas jurídicas pelo BAT, ou o ajuste de tributação transfronteiras. De acordo com a legislação corrente, incide sobre o lucro das empresas imposto de 35%. Empresas com operações no exterior são taxadas em igual montante, porém recebem crédito equivalente ao imposto que pagam nos países onde o lucro se originou. Os EUA são um dos únicos países a ter essa prática – a maioria dos países desenvolvidos, ou mesmo dos países emergentes, não taxam os lucros das empresas nacionais com operações fora do país de origem. É consenso entre os economistas que a legislação atual prejudica a competitividade das empresas americanas. Propõem os Republicanos, portanto, reduzir os impostos corporativos para 20%, eliminar o pagamento de imposto sobre os lucros provenientes do exterior e ajustar na fronteira a alíquota do imposto corporativo.
O BAT proposto funcionaria, portanto, assim: se uma empresa importa US$ 100 em insumos para a produção, por exemplo, esses custos deixariam de ser dedutíveis da receita, conforme ocorre hoje. Dito de outro modo, o lucro da empresa tributado seria ajustado na fronteira para excluir o custo de qualquer bem ou serviço que tenha sido adquirido fora dos EUA. Na prática, o BAT funciona como um imposto sobre importações – sejam elas bens de consumo finais ou bens de consumo intermediários –, sem qualquer impacto adicional sobre as exportações. Ou seja, empresas americanas que exportam mas compram seus insumos nos EUA estarão isentas do BAT. Portanto, para uma empresa como a Embraer, que vende bastante para os EUA, a introdução do BAT pode vir a ser muito relevante: empresas aéreas americanas que compram aviões da Embraer não poderão mais deduzir o custo dessas aeronaves de suas receitas, o que pode incentivá-las a trocar aviões da Embraer por aviões da Boeing.
Além disso, há outro efeito, de maior nuance. A proposta de reforma tributária Republicana permite que empresas americanas deduzam da receita os custos com salários. O setor aéreo é relativamente intensivo em trabalho – a mão de obra representa cerca de 30% dos custos. A Boeing pode deduzir esse montante de suas receitas para pagamento de impostos. Já a Embraer não poderia fazê-lo. Portanto, supondo que a parcela de mão de obra também seja de 30% para a empresa brasileira, ela pagaria 6% de BAT para vender aviões para os EUA, uma desvantagem em relação à Boeing.
Perceberam o problema? Não se trata apenas de Fed e juros. Trumponomics pode ser bem ruim para as principais exportações brasileiras, desmantelando a única coisa que ainda ajuda o Brasil.
*Economista, pesquisadora do Peterson Institute For International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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