terça-feira, 22 de setembro de 2015

Privatizar é melhor saída para todos

Privatizar é melhor saída para todos

Adriano Pires
06 Setembro 2015 | 03h 00
O assunto privatização está, cada vez mais, voltando à moda. Depois de longos anos, onde a palavra privatização era pior do que palavrão, agora por causa dessa crise econômica sem precedentes o governo teve de ceder, ser pragmático e entender que, sem a privatização de uma série de ativos, em particular na infraestrutura e no setor energético, o País não tem saída. Na Petrobrás, o nome que se dá ao maior programa de privatização da história brasileira, no valor de US$ 58 bilhões de venda de ativos é Programa de Desenvestimentos. No setor elétrico, já se fala em alterar a Lei n.º 12.783/2013, que regulamentou a Medida Provisória (MP) n.º 579/2012, e licitar concessões vencidas pelo critério do bônus da outorga. Na infraestrutura, a palavra é concessões de serviços públicos, por meio do Plano de Infraestrutura Logística (PIL). 
O medo de pronunciar a palavra privatização é ruim porque o governo acaba passando a impressão de que olha a privatização como se fosse um mal necessário. Com isso, perde-se a grande oportunidade de promover um programa estruturado de longo prazo, que seja a alavanca capaz de fazer o País reencontrar o crescimento econômico. 
Um programa de privatização deve ter como motivação aspectos como: capacitação do setor privado, redução da dívida pública, retomada dos investimentos por parte das empresas privatizadas, modernização do parque industrial do País, concentração das atividades governamentais na provisão de bens e serviços tipicamente públicos, fortalecimento do mercado de capitais, aumento da eficiência microeconômica, redução do déficit público e estímulo à concorrência. Todos esses pontos estão ausentes tanto no discurso do governo federal quanto nas informações vazadas pelas estatais sobre os modelos de privatização.
Vamos olhar a Petrobrás. Diante de tantas barbeiragens cometidas pelos governos do PT, não restou outra saída senão a venda de ativos para que a empresa consiga enfrentar a dívida que hoje chega a R$ 400 bilhões. O dramático é que, justamente agora que o petróleo teve o preço do barril reduzido pela metade e que, consequentemente, o mercado está vendedor e não comprador, o governo terá de vender os ativos. E o anúncio da venda não vem acompanhado de um plano estratégico, tanto para a empresa como para o setor de óleo e gás no País. O que se vê é uma atitude míope, em que só se pensa no caixa, não aproveitando esse momento para refundar a empresa e trazer mais investimentos, concorrência e geração de empregos para o setor. 
No setor elétrico, em vez de fazer uma revisão profunda da MP 579, insiste-se na política de remendos e, com isso, já se publicaram 7 MPs e outros 7 decretos para corrigir a MP 579, sem sucesso. Ao invés de trazer de volta o modelo da concessão e reestruturar a Eletrobrás na direção da venda de ativos, o governo quer promover um leilão, misturando modelo de concessão com o de prestação de serviços, fazendo mais remendos na MP 579. 
Na concessão de infraestrutura, as idas e vindas sobre o valor da taxa de retorno e a participação de empresas estatais nos consórcios também mostram a dificuldade do governo em entender os benefícios da privatização.
Quem está meio ausente de todo esse processo e precisa, com urgência, participar de maneira ativa são os Estados. Assim como o governo federal, os Estados passam por uma grave crise e precisam aumentar suas receitas. Na área de energia existem ativos de propriedade dos Estados, como as distribuidoras de gás natural, que poderiam fazer parte de um programa de privatização. Das 27 distribuidoras de gás existentes no Brasil, 18 têm a participação direta dos Estados, como é o caso, por exemplo, das distribuidoras das Regiões Sul e Nordeste. Do ponto de vista estratégico, faria todo o sentido que os Estados construíssem um modelo de privatização com a Petrobrás, para que ambos vendessem as suas participações nessas empresas. Feito de maneira correta se promoveria uma privatização, que atenderia aos nove aspectos citados anteriormente e que representam as motivações capazes de explicar o porquê de a privatização ser a melhor saída para todos.
*Adriano Pires é diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE)

A crise


A crise

FRANCISCO FERRAZ
07 Setembro 2015 | 02h 30
“Uma casa dividida contra si mesma não subsiste”
Abraham Lincoln, junho 16, 1858
Concordo que a atual crise é a mais grave que já tivemos. E vou além ao afirmar que o Brasil, por sua cultura e estrutura política, não está preparado para administrar uma crise dessas proporções. Isso porque para enfrentá-la e resolvê-la seria necessário construir uma resposta sistêmica que unificasse os principais atores políticos num projeto de ação dotado de lucidez, vontade política e audácia.
Houve uma grande oportunidade de preparar o Brasil para enfrentar o enorme desafio que se anunciava: a eleição presidencial de 2014. Mas o PT não podia perdê-la, pois precisava de mais um mandato para completar seu domínio e controle sobre o sistema político. Em seus três mandatos o PT teve condições legais e recursos para iniciar e dar curso à implantação do seu projeto de poder, mas não teve tempo para concluí-lo.
Enquanto era um partido pequeno, que se autoexilava politicamente pelo radicalismo, as crises eram resolvidas por negociações entre os partidos tradicionais. Diante da crise, a resposta era o “pacote” e o apelo à união nacional, um guarda-chuva conceitual aceito por todos e que a todos retribuía. Assim foi com o Plano Cruzado, com o governo Itamar e, em 1994, com o Plano Real. Totalmente diferente é a situação atual.
Enquanto esteve fora do poder o problema político típico desta crise não se apresentava nem para ele nem para o País. Com o PT no poder essa união nacional se tornou muito difícil. Ela é importante para os empresários e partidos tradicionais. Não tem a mesma importância para o PT.
Com a crise o PT perdeu o rumo: não pode mais praticar a única forma de governar que conhece e aceita e é forçado a engolir um remédio amargo, na menor porção que lhe for possível, sem deixar de lembrar ao povo que assim que a situação melhorar voltará a fazer mais do mesmo.
Conquistou o poder, na eleição de 2002, quando e porque Lula promoveu o encontro da esquerda com o marketing político e tranquilizou o eleitorado com a Carta aos Brasileiros. Só agora, passados 13 anos, está sendo cobrada do PT a promissória que Lula entregou em 2002. A Carta era uma forma de abrir a porta do sistema político para o PT, não uma “tocante” conversão ao mercado, à globalização pós-socialista e à democracia representativa, como muitos entenderam.
Logo após a eleição de 2014 as nuvens de tempestade começaram a se juntar. À crise moral – de dimensão até então insuspeitada – somaram-se a crise resultante do descontrole econômico, a crise política, a crise nas relações sociais e a decorrente do grau de desconfiança na solidez das instituições e na racionalidade das decisões. Ao agregar tantas dimensões, a crise aumentou incrivelmente o número e a diversidade dos seus protagonistas (players) e a gravidade dos problemas e desafios a resolver.
O PT está imobilizado diante da crise porque a solução que se propõe para ela colide com seu projeto político, é radicalmente diferente dos projetos de PMDB e PSDB, por implicar mudanças substanciais e radicais no sistema político – na Constituição, nas relações sociais, econômicas e políticas do País. 
Esse projeto se propõe a emascular a democracia representativa, fragilizando-a com organizações com funções representativas, aparelhadas e politicamente alinhadas ao governo e ao partido (projeto de decreto presidencial 8.243/14); a controlar os veículos de comunicação social (projeto de regulamentação das comunicações); a fazer alterações constitucionais como reeleições sucessivas; a regulamentar espaços privados dos cidadãos com imposição de valores, interferência nas funções da família e controle político da educação; criar o financiamento público exclusivo das eleições.
Que o plano político do PT segue essas linhas atestam os projetos com que mais se identifica. Nenhum deles, entretanto, poderá ser desenvolvido sem o controle do Estado. Não será recuperando a economia nos marcos do capitalismo e pelas regras do mercado que esses objetivos serão atingidos. 
O próprio comportamento não comprometido da presidente com as medidas ortodoxas necessárias; sua evidente má vontade com o ministro da Fazenda; sua pressa em reafirmar que a crise não passa de dificuldade passageira; sua absoluta negativa em cortar despesas públicas; sua insistência em acenar não para o aperto, e sim para a retomada do crescimento (sic) e dos projetos sociais indica claramente que o projeto de poder não foi engavetado.
Apesar dos índices recordes de rejeição, o governo ainda tem fichas para permanecer na mesa de jogo. Se até agora não pôde recuperar as condições que teve e perdeu, consegue ao menos usar seu “poder de veto” e a caneta das nomeações para conquistar apoios, bloquear jogadas adversárias, interferir no timing do processo, ao mesmo tempo que resiste furiosamente a reduzir despesas.
A crise econômica não leva o PT a repensar criticamente seu modelo e a crise venezuelana, como horizonte possível, ao que tudo indica, não o assusta. O que está em jogo é um conflito político que o PT evita revelar: a disputa entre uma política nos marcos da Constituição e dos avanços econômicos obtidos na gestão do presidente FHC e uma política de natureza socializante, pós-URSS, nos moldes do que ocorre em vários países da América Latina.
Não há, pois, entre o PT e a classe política dos partidos tradicionais um valor compartilhado e de maior hierarquia que pudesse estabelecer a base para um acordo de alto nível ante a crise. Quando se expurgam as ingenuidades e ilusões, o que há são duas visões de País e da crise que se excluem mutuamente.
Por essas razões acredito que a crise é maior do que a capacidade de nosso sistema político instável resolvê-la satisfatória e tempestivamente. Entre a pressão das ruas e o salve-se quem puder da classe política, não encontraremos o caminho para sair bem dessa crise.
*Francisco Ferraz é professor de ciência política e ex-reitor da UFRGS

terça-feira, 8 de setembro de 2015

o debate que não ocorre na saúde pública

O debate que não ocorre na área da saúde pública

O noticiário nos jornais, na televisão, nas rádios, em toda parte, tem estado repleto de informações sobre a área de saúde – epidemias, pandemias, ameaças de surtos em muitos países que se poderiam estender a outros (não há mais fronteiras físicas), falta de recursos dos governos para a saúde pública, etc.

Para ficar só nos últimos tempos, temos a dengue no Brasil custando à União R$ 4,2 bilhões em cinco anos; o prefeito de São Paulo pedindo ajuda até ao Exército para combatê-la; a Organização Mundial da Saúde (OMS) informando que a conta final da saúde no País cabe em 47,5% ao poder público e em 52,5% aos cidadãos; IBGE e Ministério da Saúde informando que uma em três crianças entre 5 e 9 anos de idade no País está com peso acima do recomendado pela OMS (16,6% dos meninos e 11,8% das meninas) – e, se nada for feito até 2025, serão 75 milhões de crianças com sobre peso ou obesidade (e uma das causas é “o consumo precoce de alimentos fast-food”).

Não é só. As estatísticas sobre tuberculose, mortes por causado fumo, etc. são assustadoras, aqui e lá fora. O Brasil teme também que chegue por aqui a“ gripe aviária”, que já reapareceu em outros países. Estamos vivendo, no País, uma “epidemia” de cesarianas: 55% do total dos partos, segundo a OMS.

Cresce a preocupação com o teor dos alimentos–tenta-se reduzir a proporção do sal,do açúcar e de outros componentes. Mas 55,6% dos brasileiros não vão regularmente ao dentista e 11% das pessoas até 18 anos já perderam os dentes, assim como 41,5% dos idosos. Como vamos caminhar nestes tempos de recessão econômica, déficits orçamentários, desemprego, redução da renda e perspectivas ainda sombrias para este segundo semestre e o ano que vem? Quem pagará as contas? Quem disponibilizará recursos para novos investimentos inadiáveis? Não há respostas.

Mesmo que houvesse recursos financeiros, entretanto, a questão não estaria esgotada. Não teríamos nem nos aproximado de algumas questões centrais e fundamentais. E para elas chama a atenção o texto Quatro tensões na saúde pública, do professor Nicolas Lechopier, doutor em Filosofia pela Universidade Paris 1 e que tem feito pesquisas com a Fapesp. Ele foi publicado na edição n.º 83 da revista Estudos Avançados, do instituto do mesmo nome na Universidade de São Paulo.

Ele começa lembrando que a saúde pública, conforme enunciado da Faculdade de Saúde Pública do Colégio Real de Médicos (Inglaterra), “é uma ciência e uma arte de prevenir a doença, prolongar a vida e promover a saúde através dos esforços organizados da saúde”.

A saúde pública, diz o autor do texto, “é possivelmente uma definição consensual”. Ela“ é definida simplesmente como uma arte e uma ciência. Do mesmo modo que a Medicina e outras ciências práticas, a saúde pública situa-se na intersecção entre a produção do conhecimento e o engajamento na ação. Como essas duas dimensões interagem na saúde pública? Como devem ser organizadas a pesquisa e a prática para tornar a saúde valiosa?”. Com essas perguntas, o que a princípio parecia já evidente, vai-se tornando cada vez mais complexo à medida que o pensamento do autor avança e raciocina em torno de “quatro tensões”: 1) finalidades da saúde pública; 2) legitimidade das ações; 3) estratégias de construção de saberes; e4) relações de poder. Porque, diz ele, a “saúde” que orienta e define a saúde pública é, com efeito, uma noção que tem muitos significados, é “ambivalente”.

Por isso, “não pode ser definida sem juízos valorativos que vão além da descrição científica” e do senso comum. Citando Sen e Nussbaum, ele lembra que “a saúde não é só o funcionamento correto do indivíduo; ela concerne nossa capacidade de agir, ela diz respeito ao que uma pessoa é capaz de fazer e de ser”. E essa ambivalência na definição de saúde “gera uma tensão estrutural no campo da saúde pública: a saúde negativa é a ausência de doença, que pode ser o objeto de uma constatação fatual.

Ao contrário, a saúde positiva é a valorização de um certo controle sobre as perspectivas de vida”. As consequências práticas são muitas, diz o autor.“ A ambivalência da concepção de saúde traduz-sena oscilação da saúde pública entre a prevenção e a promoção: o conceito positivo da saúde torna insuficiente a ‘simples’ prevenção e favorece as perspectivas de promoção da saúde; mas a falta de fundamentação empírica para as ações de promoção da saúde conduz finalmente ao reforço do conceito negativo de saúde.” E essa é apenas uma das tensões. Há outras. Como as questões complexas sobre as relações entre o Estado, os indivíduos e as comunidades.

Como no caso de doenças contagiosas e imunização de grupos – “que origina questões acerca dos deveres que os indivíduos têm em relação ao outro”. É obrigado, por exemplo, no caso de epidemias, doenças contagiosas,a“adotar comportamentos preventivos quando eles afetam o status de saúde dos outros”? Obrigado a aceitar a privação da liberdade diante dos interesses sanitários (vitais) de outros e da manutenção da ordem pública?

Nicolas Lechopier termina lembrando que “a saúde pública é um campo de políticas, um campo de conhecimentos científicos e um projeto de sociedade que levanta questões antropológicas, éticas e epistemológicas” – como a definição de saúde, o problema ético dos limites das intervenções que visam a promover a saúde pública, o quadro epistemológico das pesquisas e intervenções de saúde pública, o problema dos efeitos políticos das intervenções nessa área da saúde pública. Enfim, uma área em que os problemas surgem sob a forma de “tensões entre respostas que se contradizem”.

Cidadãos e governantes, emaranhados em nossas deficiências neste setor – ausência ou escassez de recursos financeiros, disputas políticas, choques entre visões de realidade e direitos individuais – conseguirão avançar?

Fonte: Estado de São Paulo  – 14.08.2015

uma corrida social na área do clima

Uma corrida social na área do clima

Washington Novaes
07 Agosto 2015 | 03h 00 Pode parecer descabida a insistência do autor destas linhas, nos artigos das sextas-feiras, no tema de mudanças climáticas e problemas com elas relacionadas nas áreas de suprimento de água, tratamento de esgotos, recuperação de recursos hídricos, políticas de governos nesses setores ou suas deficiências e até ausência em tantos níveis.
Ainda no começo desta semana, a Sabesp admitiu (Folha de S.Paulo, 3/8) que, por decisão da Agência Nacional de Águas e do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), terá de reduzir em 31% a retirada de água do Sistema Cantareira enviada para a Grande São Paulo entre agosto e novembro – em novembro, a captação deverá chegar a apenas 10 mil litros por segundo, a mais baixa nas últimas décadas.
O Tribunal de Haia determinou (Corporate Knights, 31/7) que os governos ajam com maior presteza em sua obrigação de proteger os cidadãos dos efeitos das mudanças climáticas, que não dependem de um único país. Devem, para isso, baixar em pelo menos 25% (sobre as de 1990) as emissões de poluentes que intensificam essas mudanças. Essa possibilidade de compromissos que se estendam a todos os países tem sido muito discutida em fóruns internacionais (Principles on Global Climate Change, 1/3).
Há fortes razões para isso em toda parte. No Brasil mesmo, o respeitado cientista Paulo Nobre tem lembrado (67.ª reunião da SBPC) que o déficit de chuvas no Sudeste em 2014, segundo pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), gerou a maior seca em 70 anos. O aquecimento da atmosfera desde 1945 é uma das causas, inclusive no Norte e no Nordeste. Outro cientista, Antônio Donato Nobre, pesquisador do Inpe e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, diz que esse bioma tem sido responsável pela manutenção de clima ameno no “coração da América do Sul”, mesmo onde a vegetação foi suprimida, como na mata atlântica do Sudeste. Mas poderão acontecer “estiagens abruptas”, como em 2014. Um dos motivos centrais é o desmatamento da Amazônia do Brasil (762.279 km2 em 40 anos e, se somadas as áreas degradadas, serão 2.062.279 km2). Por isso, diz ele, é fundamental criar e aplicar uma “estratégia contra a ignorância”; cessar imediatamente o desmatamento; abolir o uso do fogo; recuperar florestas; e conscientizar governantes.
Num panorama tão inquietante, é quase inacreditável conferir os números da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes, setembro de 2013) segundo os quais as perdas de água tratada em nossas redes de abastecimento estão por volta de 40%, com algumas cidades (no Amapá) chegando a 75%, ante 21% na capital paulista (a que mais as reduziu). E vamos no País com pouca água, perdendo água. Na coleta e tratamento de esgotos o problema é ainda mais grave, com dezenas de milhões de domicílios sem ligação com a rede coletora. E com o tratamento do que é coletado processando uma fração ainda muito menor.
Os problemas são fortes também nas áreas rurais, com a agricultura usando 75% da água (professor Ladislau Dowbor, 18/5), ante 15% na indústria e 10% no abastecimento domiciliar – mas cada pessoa precisando de 2 mil litros de água por dia para produzir e processar seu alimento. Estudo da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO-ONU) afirma que 14,5% das emissões que agravam o problema do clima provêm da pecuária. Mas a produção de alimentos também participa. A expansão do desmatamento em áreas para expandir pastagens ou culturas é um agravante considerável.
Pesquisas da revista Nature Climate Change disseram que 90% das pessoas na Europa, no Japão e na América do Norte estão conscientes do problema, enquanto 40% dos adultos nos “países pobres” em 119 países “nunca ouviram falar de mudanças climáticas”.
Teremos de avançar muito por aqui. Guarulhos, na Grande São Paulo, por exemplo, despeja quase toda a sua carga de esgotos sem tratamento no Rio Tietê. Um projeto conjunto estadual e municipal (Córrego Limpo) para baixar a poluição no Tietê e no Pinheiros prevê tratar 40 córregos afluentes por ano e a despoluição total de 300 em dez anos. Mas está paralisado (Folha de S.Paulo, 3/8). E no Rio de Janeiro, com queda nos royalties do petróleo, reduziram-se em 64% as verbas para o setor.
De qualquer forma, é preciso correr, principalmente na ação de governos em todos os níveis. Mas também dos cidadãos. É decisivo começar no plano nacional, pela dramática questão do desmatamento e degradação da Amazônia, assim como nos planos nacionais para água e saneamento. Depois, pelos planos macrodiretores que englobem todos os municípios de uma região e permitam, por exemplo, recuperar as condições dos cursos de água em toda a sua extensão, desassoreá-los. Nas grandes cidades, não se tem cuidado do problema da formação de ilhas de calor em áreas densamente povoadas e verticalizadas. Elas atraem mais chuvas e agravam a situação das áreas totalmente impermeabilizadas – onde a água não consegue se infiltrar e provoca inundações, já que as redes de drenagem, insuficientes, ainda vivem entupidas por sedimentos e precisam ser cuidadas e ampliadas. Os sistemas de licenciamento têm de estar atentos a esses problemas e cobrar soluções específicas.
Na área industrial, não se pode deixar de exigir tratamento localizado dos efluentes, assim como propostas para reduzir as emissões de poluentes na atmosfera. E, nos licenciamentos para construções em áreas residenciais, exigir em cada imóvel sistemas de captação de água de chuvas nos tetos; armazená-la em reservatórios para uso posterior ou descarga; e manter em cada imóvel uma porcentagem do terreno não impermeabilizada. O sistema educacional precisa transmitir aos alunos em todos os níveis as informações essenciais. E estes precisam debater com seus pais.
Nada disso é devaneio radical. Basta ver o que acaba de decretar nos EUA o presidente Obama para reduzir as emissões nacionais de poluentes.
*Washington Novaes é jornalista/ e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

o elo entre as crises na grécia e na china

ANÁLISE: O elo entre as crises na Grécia e na China

Políticas econômicas experimentais ligam as crises que têm tirado o sono do mercado financeiro global

À primeira vista, não há muito associando as más notícias na China e na Grécia. A primeira reflete uma bolha de mercado que está murchando; a segunda é resultado de fundamentos econômicos fracos e em processo de deterioração. Mas ambas as crises partilham um elemento comum, e não são as únicas: os países foram beneficiados com as políticas econômicas experimentais e ultrarrelaxadas que os maiores bancos centrais implementaram em todo o mundo.
Os mercados globais de equity (investimento privado) não vivem bom momento, o que é compreensível. Com os mercados de ações na China despencando e a Grécia apresentando o risco de uma saída desordenada da zona do euro, um número cada vez maior de investidores decidiu retirar algumas de suas fichas da mesa - e isso apesar dos frenéticos esforços de estabilização dos governos na China e na Europa. Alguns investidores temem até que esse seja o momento em que, inflados pelas políticas experimentais do banco central, os preços dos ativos retornam aos patamares mais baixos justificados pelos fundamentos econômicos menos velozes (como a taxa de crescimento econômico, a inflação e o desemprego).
Efeitos das crises afetam de Tóquio a Nova York
Efeitos das crises afetam de Tóquio a Nova York
Diante de uma lenta e frustrante recuperação econômica após a crise financeira global de 2008 e contando com uma considerável autonomia política, os bancos centrais ocidentais assumiram imensas responsabilidades macroeconômicas, e não por assim desejarem, mas por acreditarem que isso era necessário - as demais entidades responsáveis pela elaboração de políticas de governo, que dispunham de ferramentas muito melhores, foram essencialmente postas de lado em decorrência da disfunção política. A única maneira que esses bancos centrais encontraram para buscar um crescimento econômico mais alto foi sustentar artificialmente os preços dos ativos financeiros. Eles o fizeram na esperança que o otimismo nos mercados de ações fizesse as pessoas se sentirem mais ricas e, assim, se dispusessem a gastar mais (algo que os economistas chamam de "efeito da riqueza"); e isso desertaria os "espíritos animais" das empresas, levando a mais gastos corporativos com instalações, equipamento e pessoal.
Quanto mais os bancos centrais ocidentais insistiram nessa abordagem política, maior a pressão sentida pelos demais bancos no sentido de adotar também mais políticas de simulação. A resposta política coletiva teve sucesso em sustentar os preços globais dos ativos, mas foi muito menos eficaz em engendrar uma decolagem econômica - inserindo assim uma barreira considerável entre os preços dos ativos financeiros (altos) e os fundamentos econômicos (lentos).
Crise da Grécia
Aris Messinis/AFP
Em 3 de agosto, a bolsa de Atenas reabriu após mais de um mês; ações de empresas despencaram e o mercado registrou as maiores baixas desde os anos 1990

Essa barreira acabaria vencida de duas maneiras possíveis: da melhor, com a melhoria dos fundamentos, validando assim os preços, ou de uma forma pior, com os preços recuando para patamares justificados pelos fundamentos enfraquecidos. E aqueles ocupados com a análise dessa dissociação se preocupavam com a possibilidade de um choque antes que os fundamentos tivessem tempo de melhorar - causado por um erro na política econômica e/ou acidente de mercado. Agora, a situação na Grécia corre o risco de representar o erro na política econômica, e a situação na China corre o risco de ser o acidente de mercado.
A Grécia e seus credores estão envolvidos em negociações prolongadas e azedas. Não faltaram cúpulas de lideranças europeias, reuniões de ministros das finanças da zona do euro e encontros técnicos entre funcionários do governo grego e as "instituições" da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional. Mas todas elas fracassaram em produzir os quatro resultados necessários: reformas estruturais abrangentes, austeridade menor e mais inteligente, perdão de dívida e financiamento externo suficiente. Enquanto isso, a situação nas ruas vai de mal a pior.
Economia grega está implodindo numa velocidade alarmante
Com os bancos fechados há mais de uma semana, a economia grega está implodindo numa velocidade alarmante. A atividade econômica está em processo de paralisação e o turismo cai rapidamente. Estão começando a ocorrer episódios de escassez de gêneros como combustível e outros artigos importados. Os controles de capitais foram acionados, na tentativa de combater a fuga dos euros que continuam no país. Os caixas eletrônicos estão ficando sem dinheiro. Um número cada vez maior de pequenos negócios se aproxima da falência. Tudo isso alimenta uma crise de desemprego que já era alarmante, com cerca de 50% dos jovens sem trabalho. Enquanto isso, na China, as autoridades se sentem virtualmente impotentes enquanto um notável período de prosperidade no mercado de ações, que atraiu um número cada vez maior de cidadãos (incluindo aqueles usando posições alavancadas para comprar ações), se converteu em queda livre. E quanto mais as ações despencam, maior a corrida de investidores rumo à saída - apesar de grandes esforços do governo para dar estabilidade ao mercado. E quanto ao futuro?
O sistema global tem a capacidade de administrar cada um desses choques, mas não sem certo desgaste. Podemos até lidar com os dois problemas ao mesmo tempo, desde que nada mais dê errado. Mas o sucesso não é garantido. Para tanto, são necessárias políticas econômicas muito mais abrangentes e mais bem coordenadas entre si. Se continuarmos com dificuldades nessas respostas, o preço dos ativos seguirá caindo em direção aos patamares justificados pelos fundamentos econômicos, em baixa, encerrando assim a grande dissociação entre as perspectivas das economias avançadas

o crash da bolsa do tio xiu


O crash da bolsa do Tio Xi

A China descobre que o Partido Comunista não tem como controlar o mercado de ações

Antes de chegar a um fim violento no mês passado, a alta do mercado acionário chinês era alimentada por mais do que mera euforia maníaca. Havia também empuxo político. Muitos investidores diziam que a valorização era impulsionada pelas “turbinas do Estado”, pois acreditavam que o governo tinha tudo sob controle e que as ações só se movimentariam numa direção: sempre para cima. Outros diziam que era a “bolsa do Tio Xi”, como se se tratasse de um presente do mais alto líder do país, Xi Jinping. A imprensa estatal conferia sanção oficial ao frenesi: um editorial do Diário do Povo, publicado em maio, pouco antes de a bolha estourar, previa que os bons tempos estavam só começando. Comprar ações era “comprar o sonho chinês”, proclamou importante corretora de valores.
O tombo sofrido pelo mercado nas últimas quatro semanas, quando as ações chinesas perderam quase um terço de seu valor, deixou o sonho em frangalhos. Embora o mercado ainda esteja 75% acima do nível registrado no ano passado, o fato é que muitos pequenos investidores chegaram atrasados à festa. Entre os entrevistados em um amplo levantamento online, realizado pelo portal de internet Sina, menos de 20% disseram ter tido lucros com ações este ano.
Pequenos investidores são responsáveis por 90% do volume negociado diariamente
Pequenos investidores são responsáveis por 90% do volume negociado diariamente
A queda das ações é ruim para o governo. Os chineses estão com a sensação de que as autoridades lhes prometeram as alegrias de um mercado em alta só para fazê-los experimentar as agruras de uma baixa brutal. O humor sarcástico que tomou conta de alguns grupos de chat via celular dá uma boa mostra do sentimento dominante: “Amigos, não corram, viemos salvá-los”, exclamam numa piada alguns valorosos soldados chineses, representando o socorro que o Estado envia ao mercado em apuros. O refrão da tropa logo muda para “Amigos, não corram, ou atiraremos em vocês”. Os sinais de alerta soavam havia algum tempo. No início de junho, a ChiNext, bolsa que concentra companhias de crescimento acelerado, alcançara um múltiplo de preço sobre o lucro de 147, patamar semelhante ao atingido pelas ações de tecnologia americanas durante a bolha pontocom do fim dos anos 90. Quando as ações começaram a cair, muitos imaginaram que os órgãos reguladores permaneceriam de braços cruzados, deixando que a correção fizesse seu serviço. Mas, quando as perdas chegaram perto dos 20% e as manchetes negativas começaram a se acumular, mesmo na imprensa local, as autoridades não conseguiram manter o sangue frio.
Sem efeito. Tentativas atabalhoadas de estabilizar o mercado mostraram-se em grande medida inócuas. Juros foram reduzidos; vendas a descoberto, restringidas; IPOs suspensas; e foram concebidos programas de compras de ações, financiados com recursos do banco central. “Temos as condições, a capacidade e a confiança para sustentar a estabilidade do mercado de ações”, trombeteou o Diário do Povo, com o pandemônio ainda em curso.
O CSI 300, índice das maiores empresas chinesas listadas em bolsa, acumulava queda de 16% oito dias depois da redução dos juros. Evaporaram do mercado cerca de US$ 3,5 trilhões, valor superior ao de todas as companhias de capital aberto da Índia. Ao fim do pregão de 7 de julho, mais de 90% das ações chinesas haviam tido suas negociações suspensas, fosse por solicitação das empresas envolvidas ou por terem sofrido desvalorização superior ao limite diário de 10%. “O governo não deixa a gente tirar o dinheiro da bolsa e a gente não sente segurança para investir mais em ações”, diz Wei Xinguo, cozinheiro de um restaurante em Xangai e um dos 90 milhões de chineses que têm aplicações em ações.
O predomínio de investidores como Wei torna as bolsas chinesas voláteis. Os pequenos investidores são responsáveis por 90% do volume negociado diariamente - proporção inversa à observada nas bolsas de países desenvolvidos, onde prevalecem os investidores institucionais. Mas a incapacidade que o governo demonstrou ao tentar acalmar a situação, mesmo promovendo forte intervenção no mercado, não tem precedentes. Trata-se de uma consequência do fato de a alta ter sido, em grande medida, impulsionada pelo endividamento dos investidores.
O financiamento de margens chegou a 2,2 bilhões de yuans (US$ 355 bilhões), o equivalente a cerca de 12% do valor de todas as ações negociadas livremente no mercado e a 3,5% do PIB chinês. Ambos os porcentuais são “sem dúvida os mais elevados já registrados na história dos mercados acionários mundiais”, afirma o banco Goldman Sachs. Com instituições financeiras não bancárias e plataformas de empréstimos peer-to-peer também oferecendo crédito aos investidores, é provável que a alavancagem efetiva do mercado tenha sido ainda maior. Isso ajudou a impulsionar a alta. Agora está intensificando a baixa, com os investidores tentando vender seus ativos para saldar dívidas.
O caráter acentuado da queda suscitou temores de que o próprio crescimento da economia chinesa estivesse em perigo. Felizmente, em sua trajetória descendente, o mercado de ações parece tão dissociado dos fundamentos econômicos quanto estava quando subia sem parar. Entre meados de 2014 e o início do mês passado, enquanto o valor das ações quase triplicava, a economia chinesa registrava seu mais baixo ritmo de crescimento em mais de duas décadas. O fato é que, nos últimos meses, o desempenho da economia melhorou. Grandes investimentos públicos em obras de infraestrutura parecem ter estabilizado o setor industrial; os preços dos imóveis, que havia muito tempo estavam em baixa, começaram a reagir.
Impacto. O mercado de ações ainda é apenas uma pequena fração da economia chinesa. O valor das ações com livre flutuação corresponde a cerca de um terço do PIB. Na maioria dos países ricos, o índice é de 100%. As ações representam só 15% do patrimônio das pessoas físicas, de modo que a queda deve ter um impacto limitado no consumo. As consequências sistêmicas do endividamento com margens também são limitadas. O financiamento foi oferecido por corretoras, não por bancos, e equivale a menos de 1,5% do total de ativos do sistema bancário.
O pânico certamente deixará sequelas. Em 8 de julho, os contratos futuros de matérias-primas, de chumbo a ovos, atingiram seu limite diário de baixa, pressionados pelas vendas de investidores que tentavam pôr algum dinheiro no bolso. Nos mercados internacionais, o preço do minério de ferro, commodity de que a China é a principal importadora, registrou pequena queda. Mesmo assim, são remotos os riscos de natureza sistêmica.
As consequências de longo prazo, porém, podem ser graves. Como qualquer economia grande e sofisticada, a China precisa de um mercado de capitais saudável. Em tese, as ações deveriam oferecer a todo investidor, das pessoas físicas aos fundos de pensão, retornos que, ao longo do tempo, superassem a baixa rentabilidade dos depósitos bancários. Para as empresas, o financiamento via emissões de ações é uma alternativa importante aos empréstimos bancários, reduzindo a dependência em relação ao financiamento através de obrigações. A fiscalização e obediência a normas que acompanham as aberturas de capital também devem ajudar a aprimorar a governança corporativa.
Antes do crash, a China caminhava lentamente em direção a reformas que corrigiriam algumas das distorções de seu mercado. Um programa lançado no ano passado conectou as bolsas de Hong Kong com as da China continental. Apesar de limitada a cotas rígidas, a integração prometia introduzir uma presença mais institucional nas bolsas chinesas. As autoridades reguladoras haviam aumentado a fiscalização sobre o uso de informações privilegiadas e também pretendiam mudar o funcionamento das ofertas públicas iniciais de ações, garantindo às empresas maior controle sobre o momento e o tamanho de suas IPOs. Mas, como demonstra sua reação vigorosa, ainda que ineficaz, o governo chinês reluta em ceder o controle.
Além disso, o crash deixou cicatrizes numa geração de investidores. O personal trainer Xu Pengfei, de 25 anos, aplicou 100 mil yuans na bolsa em abril, dois meses antes do crash. Ele conseguiu sair do mercado antes de perder dinheiro, mas não faz planos de investir em ações de novo. “Agora fiquei ressabiado.”
© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Magia de hoje será a realidade de amanhã

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Entrevista. José Luis Cordeiro, professor da Singularity University

'Futurista' presente em evento de inovação no Recife diz que mundo dará salto de 2 mil anos em duas décadas

'Magia de hoje será a realidade de amanhã'

Marina Gazzoni
31 Agosto 2015 | 02h 04
Para Cordeiro, ciência vai 'curar' o envelhecimento
Para Cordeiro, ciência vai 'curar' o envelhecimento
RECIFE - Carros sem motorista, carne artificial, crianças projetadas e até o fim da morte. Tudo isso será realidade nas próximas décadas, de acordo com previsões divulgadas na última semana, em Recife, pelo futurologista venezuelano José Luis Cordeiro, em sua palestra magna na 15ª Conferência de Inovação Tecnológica da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), que tem associados como Natura, Braskem e Fiat. Engenheiro mecânico e ex-executivo da indústria de óleo e gás, Cordeiro é atualmente professor da Singularity University, instituição de ensino localizada dentro do escritório da Nasa no Vale do Silício, na Califórnia, e pesquisador do projeto Millenium, órgão ligado à Universidade das Nações Unidas que elabora relatórios sobre tendências do futuro.
Usando uma gravata do Mickey Mouse - personagem que ele relaciona à criatividade, inovação e até à imortalidade -, Cordeiro surpreendeu a plateia em Recife com projeções que parecem absurdas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Cordeiro ao Estado:
Como será o futuro?
Estamos vivendo tempos incríveis. Veremos mais mudanças nas próximas duas décadas do que nos últimos 2 mil anos. A tecnologia evolui mais rápido e trará um crescimento expressivo para este século. O mundo cresceu 400% no século 20, mas podemos crescer 4.000% no século 21.
Quais as principais tendências tecnológicas?
Existem quatro macro tendências que devem trilhar o desenvolvimento tecnológico, que levam a sigla de NBIC - é nano, bio, info e cogno (estuda como a informação se transforma na mente). A nanotecnologia levará a engenharia à perfeição. Nada vai sobrar no processo produtivo e vamos acabar com o lixo. Com avanços na biologia, vamos projetar as crianças, controlar o envelhecimento e até evitar a morte. E a informática deixará tudo conectado - os carros, as cidades, as máquinas. O Google já tem carros sem motorista e eles vão ganhar as ruas. Nós vamos fazer parte da última geração que dirige. E vamos conectar cérebros humanos com cérebros artificiais e com coisas. A telepatia, por exemplo, será uma realidade.
Isso é mesmo plausível?
Sim. Hoje parece maluquice. Mas a inovação quando nasce é assim mesmo. A magia de hoje será realidade amanhã graças à ciência.
E sobre impedir a morte. O sr. está falando sério?
Absolutamente sério. A tecnologia vai evoluir para isso. Já sabemos que as células do câncer não envelhecem. Ninguém será imortal, porque se um piano cair sobre a sua cabeça, você ainda vai morrer. Mas vamos curar o envelhecimento. Tudo terá de se reinventar, começando pelos planos de saúde e de previdência.
Existem questões éticas que envolvem os experimentos na área biológica. Essas tecnologias vão passar por cima disso?
Os diferentes países, culturas e religiões enxergam esse tema de forma diferente. Na Índia, há pesquisas avançadas em clonagem de órgãos. E existem muitos experimentos com ratos e até com humanos na China que vão permitir curar muitas doenças. Estou quase convencido que em dez anos não haverá mais paraplégicos, graças às pesquisas com células tronco feitas na China e que não podem ser feitas nos Estados Unidos porque eles consideram que elas são antiéticas.
E qual será o preço? Serão soluções para poucos?
As tecnologias quando são lançadas são caras, mas depois ficam baratas. O primeiro genoma humano custou mais de US$ 1 bilhão e levou mais de uma década para ser mapeado. Mas faremos isso em minutos e por US$ 10 daqui a dez anos. É como ocorre com eletrônicos, que chegam caros e elitistas e depois ficam populares
Qual será o impacto da tecnologia no mercado de trabalho?
Novas profissões serão criadas e outras eliminadas. Há 200 anos, 90% dos humanos eram agricultores, hoje só 10% são. Ou seja, 80% dos humanos foram desempregados da agricultura. E estamos contentes com isso. No futuro, também vamos substituir muitas profissões por trabalhos que serão melhores, com maior poder aquisitivo e mais intelectuais.
No relatório do projeto Millenium fala-se no risco de manutenção de um alto índice de desemprego de longo prazo. Isso é culpa das novas tecnologias?
Durante a transição, os robôs poderão fazer muitas coisas que hoje os humanos fazem e vamos precisar de tempo para aprender outras. Nesse período, é possível que tenhamos mais desemprego.
Quanto tempo levará?
Pode ser dez anos, talvez mais, talvez menos. Quando passamos de caçadores e coletores para agricultores, levamos milhares de anos. Quando passamos de agricultores a industriais, levou um século. Agora será mais rápido. Algo como uma década ou duas.
Será mesmo possível implementar essas inovações? Hoje há restrições ao Uber em vários países, como o Brasil.
Teremos confrontações entre o novo e o velho, mas as novas tecnologias vão ganhar. O Uber vai ser aceito em todos os países, simplesmente porque é uma tecnologia melhor e mais barata.
E os carros autônomos? Eles vão acabar com o emprego dos motoristas do Uber.
Existirão outros empregos, serão melhores e pagarão mais. O carro autônomo será uma tecnologia melhor, que vai acabar com as mortes no trânsito. Acho que no futuro vão até proibir que os humanos dirijam.
Os países ricos estão na frente no desenvolvimento tecnológico. O abismo entre ricos e pobres será maior?
Não. Tudo está conectado e todos terão acesso à tecnologia. Não haverá desculpas para ser subdesenvolvido.
Qual o papel do Brasil no desenvolvimento tecnológico?
É promissor. Há muitos brasileiros fazendo pesquisas em robótica, engenharia e biomedicina. O próprio Google tem um centro de inovação em Minas Gerais. O Brasil não precisa criar tudo. Pode inventar algumas coisas e copiar o resto.
* A repórter viajou a convite da Anpei

Tendência irreversíve

Tendência irreversível

PRISCILA CRUZ E RAFAEL PARENTE
31 Agosto 2015 | 03h 02 O que você faria para transformar o nosso sistema educacional atual de tal forma que ele passe a garantir educação de qualidade para todos? Antes de responder, lembre-se de que você não pode mudar os papéis de educadores ou alunos ou alterar a governança distribuída entre União, Estados e municípios; nem pensar em muitas mudanças no currículo, nos espaços, horários ou rotinas das escolas; e, claro, em direito adquirido ninguém toca. Você provavelmente chegará à mesma conclusão que nós: não há como realizar transformações urgentes sem inovações disruptivas e em escala.
Mas o que é inovar em educação? O termo viralizou recentemente nos meios educacionais e hoje é utilizado por líderes dos três setores sociais no Brasil e no mundo, possivelmente com significados bem diferentes. Em nossa concepção, inovar em educação é criar e implementar, com sucesso, novas ferramentas, metodologias ou modelos que tornem a gestão de escolas e redes mais eficiente demonstrando melhoras efetivas na aprendizagem dos alunos. A inovação pode ou não incluir computadores, aplicativos e internet, ocorrer de baixo para cima ou o contrário, começar com programas de governo ou a partir de iniciativas dentro de uma sala de aula, ser incremental ou radical, relacionar-se a conteúdos, a métodos ou à gestão.
Seja qual for o caminho, o primeiro passo é desenvolver uma cultura de inovação nas escolas, nas secretarias e no ministério. Os educadores e gestores precisam assumir o compromisso contínuo com a busca, a adaptação e o desenvolvimento de práticas que tenham por objetivo a excelência na aprendizagem dos alunos e o preparo deles para a complexa vida do século 21. Isso significa ampliar a escala de soluções que apresentem evidências de sucesso, com coragem suficiente para romper modelos que podem ter servido no passado, mas que já não dão conta dos desafios contemporâneos.
Há várias razões pelas quais precisamos inovar. A principal delas não é novidade para ninguém: o nosso sistema educacional é atrasado e extremamente ineficiente. Quase metade dos jovens brasileiros não conclui o ensino médio na idade adequada e a principal causa do abandono escolar é o desinteresse. A escola não se mostra relevante ou capaz de motivá-los. Menos de dois em cada dez jovens brasileiros de 17 anos têm conhecimentos básicos e essenciais relacionados à interpretação de texto e ao raciocínio lógico matemático.
A segunda grande razão é o desenvolvimento cada vez mais veloz das tecnologias e da ciência em geral. Mas as escolas e redes de ensino se descolaram dessa evolução. Equipamentos e internet de qualidade, por exemplo, são realidade para poucas salas de aula. No campo da ciência, descobertas importantes sobre o modo como o cérebro aprende e conecta ideias e conhecimentos não chegam ao cotidiano escolar – muitas vezes não conseguem sequer passar pelas barreiras ideológicas das universidades.
Finalmente, a terceira razão fundamental diz respeito à equidade. O nosso país é enorme e ainda muito desigual do ponto de vista socioeconômico. Isso só mudará definitivamente quando as camadas mais pobres da população tiverem oportunidades educacionais tão boas quanto as que têm as mais favorecidas. É uma agenda do século passado que precisa ser cumprida ao mesmo tempo que avançamos nas questões citadas anteriormente. E acreditamos que por meio da inovação isso é possível.
Bons exemplos de ações, programas e políticas públicas inovadoras podem ser encontrados no Brasil e no mundo, mas boa parte ocorre localmente e não é reconhecida e nem estimulada pelo governo. O modelo atual de sistema inibe a proatividade, a criatividade e a inovação.
Para ganharmos escala é preciso que os líderes governamentais deixem de agir só como aqueles que cobram e controlam e passem a ser os que buscam, reconhecem, estimulam e disseminam soluções inovadoras criadas localmente. Alguns exemplos disso são a Innovation Zone de Nova York, as práticas de personalização na Colúmbia Britânica (Canadá), a formação entre pares da Austrália, o Portal Rioeduca e os Ginásios Experimentais da cidade do Rio de Janeiro, o Instituto Chapada (Bahia) e o Ginásio Pernambucano. Um movimento real de inovação na educação demanda foco, vontade política, estratégias inteligentes, boa articulação e ações que podem até ser impopulares num primeiro momento. A evolução incremental do que temos hoje, o mais do mesmo, já não é suficiente. Mais do que nunca, o tempo atual nos obriga a inovar, com doses enérgicas de transformação, em cada uma das áreas da política educacional, da formação dos professores ao currículo, das avaliações ao financiamento.
Para concluir, é preciso entender e respeitar a capacidade dos jovens de inovar e de transformar a própria realidade. Temos de valorizar as mudanças que a juventude vem propondo e reconhecer iniciativas de movimentos que estimulam a inventividade, a produção e a inovação por meio da colaboração em rede, como o Movimento Maker, os Fab Labs, entre outros.
Quando tivermos um ecossistema que estimule e apoie pessoas inovadoras e dê suporte integral a grandes avanços de colaboração, imaginação e superação, teremos professores e alunos líderes e protagonistas de soluções para novos e velhos problemas, teremos gestores à frente de instituições criativas e teremos famílias participando de uma jornada real de transformação positiva. Esse é o modelo que queremos e de que precisamos para atingir nossos maiores objetivos. Essa é a escola que possibilitará a nossos jovens sonhar e realizar cada vez mais.
Priscila Cruz é mestre em administração pública pela Havard KEnnedy School, fundadora e diretora executiva do movimento todos pela educação. Rafael Parente é phD. em educação pela New York University, é fundador e CEO do Laboratório de Inovação Educacional (LABI) e da Aondê Educacional.

o tempo certo d errar

 tempo certo de errar

26 de agosto de 2015
Diversas culturas abominam o erro. Acreditam que se você errou, você é um perdedor. No Vale do Silício, uma região ao norte da Califórnia que foi berço para as maiores empresas de tecnologia do mundo, a visão quanto ao erro é bem diferente. O erro é bem-vindo, desde que você tire um aprendizado dele, pois dessa maneira, estará mais perto de acertar da próxima vez que tentar.
Toda história de sucesso que conheço teve muitos tropeços até encontrar o acerto. Visitei recentemente o escritório de uma empresa brasileira que abraçou o erro como aprendizado, e que, com isso, descobriu que existe um tempo certo para errar. E a hora certa de focar quando encontrar um acerto. A Movile é uma empresa brasileira de tecnologia que desenvolve plataformas de comércio e conteúdo para celulares, smartphones e tablets.
Fundada em 1998 em Campinas, como uma startup, tem hoje escritórios espalhados em regiões estratégicas da América Latina e também no Vale do Silício. No início das atividades, o foco do negócio estava em SMS. Com os avanços tecnológicos, eles se reinventaram e assumiram o DNA de criar projetos inovadores. Em 2012, quando já estavam consolidados no Brasil e América Latina, foram para o Vale do Silício com a meta de encontrar um projeto global para o qual pudessem se dedicar. Foi então que começou uma nova página na história da empresa.
No Vale, eles aprenderam que muito do que pensavam eram hipóteses e não fatos e era importante testar as ideias antes de investir tudo em uma opinião. Eles perceberam que deveriam desenvolver vários mini projetos até encontrar aquele que seria responsável por ter grande aderência. Porém, cometeram um erro que consideram o maior de todos: o primeiro projeto demorou quatro meses para ser feito. Ou seja, demoraram quatro meses para errar.
Quatro meses em uma região como o Vale do Silício, trabalhando com tecnologia, é muito tempo. Foi então que descobriram que teriam que errar mais rápido e, para isso, deveriam fazer testes numa velocidade maior. Uma semana seria suficiente. A regra era simples: arriscar, fazer rápido, testar, melhorar, aprender, testar de novo e, se necessário, matar o projeto.
Em um ano e meio, a Movile desenhou mais de 40 projetos, mas só um foi levado adiante: o aplicativo Playkids, que se tornou um grande sucesso em todo o mundo. Quando a empresa percebeu que aquele seria o projeto que teria grande aderência, ela focou muito para desenvolvê-lo – a ponto de matar os outros projetos que não estavam dando certo. Atualmente, o Playkids é o aplicativo voltado para crianças mais rentável do mundo. No Brasil, é o segundo mais bem-sucedido em receita de toda loja de aplicativos.
A velocidade em criar e testar projetos, a capacidade de tomar riscos e a capacidade de pensar grande são os maiores diferenciais da brasileira Movile. Quando estamos diante de duas possibilidades: travar e estagnar, ou arriscar e aprender, escolher a última pode ser decisiva para o crescimento de uma empresa no mundo de hoje.
* Bel Pesce é fundadora da escola FazINOVA e autora dos livros “A Menina do Vale” e “Procuram-se Super-Heróis”. Apaixonada por culturas empresariais, Bel Pesce explora diferentes cases em sua coluna no Estado PME.