sábado, 23 de maio de 2015

Para onde vai esse trem?

Para onde vai esse trem?

Fernando Gabeira
22 Maio 2015 | 03h 00
Num texto endereçado a cineastas, Chris Marker citou uma frase de De Gaulle: às vezes os militares, exagerando a impotência relativa da inteligência, descuidam de se servir dela. Marker defendia filmes inteligentes contra o populismo de alguns pares. Creio que De Gaulle criticava a superestimação da força armada. Algo que ficou célebre na pergunta atribuída a Stalin: quantas divisões tem o papa?
A oposição brasileiro tem se descuidado de usar a inteligência não por valorizar a força armada, mas as possibilidades eleitorais. Quantos votos nos dará esse projeto? Foi assim com a derrubada do fator previdenciário. Nada mais agradável do que votar pelos aposentados e ao mesmo tempo ganhar um bom número de votos.
  dava muita importância à questão da aposentadoria e a considerava um elemento divisor entre os conceitos de esquerda e direita. Não vejo assim no Brasil. A ideia de um sistema que garanta aposentadoria digna é universal no espectro político.
As coisas se complicam quando se discute a sustentabilidade do sistema. Tensioná-lo com mais gastos num momento de crise aguda acaba despertando propostas como a de Joaquim Levy: aumentos de impostos. Um projeto político no capitalismo não implica apenas respeito às normas democráticas. Implica também a admissão das próprias leis do capitalismo. Se nos levamos apenas pelo coração, faremos muitas bondades até que chegue o momento de pagar a conta. Os deputados jogaram essa conta para o governo, que, por sua vez, a transfere, via impostos, para a sociedade.
Quando Levy fala em ajustar a economia e, simultaneamente, em aumentar impostos a partir das bondades parlamentares, suas tesouras são apenas um passatempo como agulhas de crochê. As tesouras de Levy refletem o mesmo conflito de ideais socialistas com as leis do capitalismo. E a oposição tem de se manifestar claramente sobre isso: é um modelo de crescimento que faliu. Derrotá-lo não significa usar os mesmos métodos populistas, certamente com grandes dividendos eleitorais. Derrotá-lo é propor um novo caminho.
O caso das pensões e dos salários de pescadores, embora tenha distorções, no meu entender, merecia rejeição, ao menos para negociar.
Como começar um ajuste fiscal sem conhecer os cortes do governo? Este é o tema mais importante no ajuste. É nele que uma visão de oposição tende a se fixar: a racionalização da máquina, a redução de inúmeros e inúteis cargos de confiança.
Minhas críticas são feitas de fora, o trabalho na estrada não permite conhecer todos os dados. Mas a oposição precisa mostrar uma certa coerência com o próprio programa. O problema de votar, em alguns momentos, com o governo também é eleitoral: medo de desapontar o eleitorado que rejeita Dilma e o PT.
Mas é preciso dividir as esferas de atuação: um programa claro sobre o ajuste econômico e um trabalho sério sobre a corrupção, reconstruir e punir. A responsabilidade pela devastação da Petrobrás, a gestão temerária, o escândalo do desvio de bilhões é um fato histórico ainda em movimento, pois a Justiça não se manifestou sobre ele.
Nesse contexto, um fervoroso eleitor de Dilma é indicado para ministro do Supremo. Os principais nomes da oposição faltaram à sabatina. Era preciso fazer perguntas, descortinar a visão política de Luiz Edson Fachin e apresentar uma interpretação de seu discurso.
Não posso dizer que a culpa seja de Fernando Henrique Cardoso. Cada um avalia as prioridades, organiza a agenda, é uma escolha política: a homenagem a Fernando Henrique em Nova York ou a sabatina de candidato ao Supremo no Brasil. O resultado é que não foi dada toda a atenção à hipótese de o governo aparelhar o Supremo e bloquear as conquistas da Operação Lava Jato. 
Estou, talvez, reduzindo a escolha de um juiz a um fato conjuntural. Mas o escândalo da Petrobrás é mais que isso, é o espaço em que se vai jogar o que mais interessa às pessoas que foram às ruas: avançar na luta contra a corrupção.
Vivemos um momento em que nem governo nem oposição se movem de forma articulada, com ideias claras e compartilhadas sobre sua trajetória. Vivi outros momentos assim, mas muito rápidos. Usávamos uma expressão para descrevê-los: a vaca não reconhece seus bezerros.
Num texto para homenagear Robert Frost, John F. Kennedy escreveu: a poesia é o meio de salvar o poder de si próprio. Sem menosprezar a poesia, tenho uma expectativa mais pedestre: só as pessoas, com suas dificuldades cotidianas, sonhos e frustrações e pequenas conquistas, podem salvar o poder de sua degradação. Nenhuma força política parece preocupada em responder a essa expectativa com um projeto coerente, verificável nos movimentos cotidianos.
O Congresso parece desgovernado. Vota, simultaneamente, medidas de contenção e de mais gastos. Os repórteres estão sempre fazendo contas para verificar se estamos economizando ou gastando mais.
Era esperado um choque de posições no debate do ajuste; os setores atingidos procuram se defender: não há nenhuma previsibilidade de mudanças no tamanho da máquina nem o tipo de País que vai surgir desse debate. Vendo as universidades federais fluminenses em ruína antes mesmo da aplicação dos cortes, é razoável duvidar da retomada do crescimento com um simples ajuste fiscal. Tudo o que não funciona nos serviços públicos vai ganhar com os cortes uma poderosa desculpa para mascarar a incompetência: não há dinheiro.
Assim, a Nova República vai morrer e nascerá a Novíssima República, como aqueles antigos trens italianos, o rápido, o rapidíssimo, que nunca chegavam na hora. Será difícil achar a luz no fim do túnel se não decidirmos, pelo menos, em que direção procurá-la. O Brasil não precisa apenas de um ajuste fiscal, mas de rever todo o modelo que nos jogou no buraco.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

NPK soberania roubada

NPK – soberania roubada

Xico Graziano



16 Maio 2015 | 03h 00 O Brasil importa 75% dos adubos químicos utilizados na agricultura. E essa dependência externa, lamentavelmente, está crescendo. Em 2014 a produção nacional de fertilizantes encolheu 5,2%. Uma prova da falta de planejamento estratégico para o desenvolvimento nacional. Inexiste visão de longo prazo na política agrícola.
Adubos químicos fornecem a nutrição básica das plantas. Resumem-se na famosa composição NPK: nitrogênio, fósforo e potássio. Quem descobriu que os vegetais requerem elementos minerais para crescer foi Justus von Liebig. Aos 19 anos, o genial químico alemão apresentou, em 1822, sua tese intitulada Como os corpos minerais se relacionam com os corpos vegetais. Nela comprovava que as plantas não “comiam” matéria orgânica, conforme se pensava, mas apenas necessitavam das moléculas liberadas no húmus do solo.
A agricultura primitiva surgiu nos deltas – as várzeas dos rios –, onde as enchentes cuidam de repor a riqueza da terra. Valia apenas a fertilidade própria do solo. Quando as lavouras avançaram para as florestas, terras “gordas”, ricas em matéria orgânica, esgotavam-se e eram deixadas para descanso – o pousio –, abrindo-se novas áreas. Nesse processo, estercos animais serviram de principal fonte de nutrientes. Depósitos naturais, como dejetos de aves (guano) encontrados nas ilhas do Pacífico, na costa peruana, tornaram-se preciosos no século 19.
Após a 1.ª Guerra Mundial a indústria de fertilizantes químicos estruturou-se nos EUA e na Europa, tornando-se capaz de atender à expansão agrícola exigida pelo aumento populacional. No Brasil, somente a partir de 1950 se firmaram as empresas do ramo. E em 1974 surgiu o Programa Nacional de Fertilizantes e Calcário Agrícola, fortalecendo o setor. Resultado: no início dos anos 1980 o Brasil quase se tornou autossuficiente.
Entre 1976 e 2013, a produção brasileira de grãos expandiu-se 306%, passando de 47 milhões para 191 milhões de toneladas. Crescimento espetacular, ainda mais quando se verifica que a área cultivada aumentou apenas 51%, passando de 37 milhões para 56 milhões de hectares. Conclusão: houve uma forte elevação da produtividade física da terra, o dobro da observada, no mesmo período, na agricultura norte-americana.
O feito, sensacional, não teria ocorrido sem a intensificação no uso de NPK. Nos últimos 25 anos o consumo agrícola de fertilizantes multiplicou-se por dez, ou seja, cresceu 1.000%. Essa curva ascendente na demanda se destaca especialmente a partir de 1996, logo após a estabilização da economia. Sem a bagunça inflacionária, o crédito rural tornou-se mais eficiente. Retornaram os investimentos. Deslanchou a agricultura. Mas o País deixou de acreditar na indústria nacional, ampliando as compras de fertilizantes no exterior. Bom para as multinacionais.
Os adubos nitrogenados fabricam-se a partir de derivados do petróleo e o Brasil poderia neles ter autossuficiência. Já os fosfatados se obtêm de depósitos de rochas ricas nesse elemento. Encontradas em todo o mundo, no Brasil as maiores jazidas estão em Minas Gerais, Goiás e São Paulo, atendendo hoje a metade do consumo das lavouras. Poderia crescer. Quanto aos adubos potássicos, extraídos de rochas sedimentares, a situação é mais difícil, pois a dependência externa atinge 90%.
Por meio da Vale explora-se aqui apenas uma mina de potássio, no complexo Taquari-Vassouras, situado em Sergipe. Sabe-se existirem reservas submarinas de potássio na costa brasileira, em depósitos semelhantes aos salinos. Jamais se tentou explorá-los. Localizam-se na Amazônia, porém, as melhores possibilidades. Por debaixo da selva localiza-se, a 650 metros de profundidade, grande reserva natural de silvinita, sedimento que se espalha por vasta região entre o Amazonas e o Pará. Tais riquezas do subsolo são conhecidas há décadas e, bem exploradas, poderiam atender a até 30% da demanda nacional.
Somente agora, porém, um projeto minerador, volumoso, se executa no município de Autazes (AM). Trata-se de um empreendimento dominado pela empresa canadense Falcon, que ainda aguarda as licenças ambientais e de lavra para iniciar sua exploração, prevendo começar a venda de fertilizante em 2018. Tudo demorado.
Intrigante, contudo, é saber que essas mesmas jazidas pertenciam à Petrobrás até 2008, quando foram vendidas à multinacional do Canadá. Quem realizou o negócio foi o então presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli.
Na época, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, estava elaborando um “plano nacional de fertilizantes” que, lançado, jamais saiu do papel. Dilma Rousseff, então ministra de Minas e Energia, ficou sabendo a posteriori que a Petrobrás havia vendido os direitos de exploração do potássio amazônico à Falcon. “Ela deu um esporro no Gabrielli pela venda”, conta Stephanes em entrevista publicada fevereiro passado no Boletim Informativo n.º 1.290 da Federação da Agricultura do Paraná (Faep).
Hoje, depois da corrupção descoberta pela Operação Lava Jato, certos dirigentes da Petrobrás se tornaram figuras suspeitas na malversação do dinheiro público. Teria sido respeitado o interesse público nessa venda das minas de potássio da Amazônia? Qual terá sido o real motivo da bronca da Dilma no Gabrielli? Quem testemunhou essa negociação? Teve propina nesse negócio também? Eu não ponho minha mão no fogo.
Por essas e outras, a agricultura nacional, que espanta o mundo com a pujança de suas safras, padece da crescente dependência externa na compra de seus fertilizantes. Uma perda de soberania roubada pelo descaso governamental. Falta planejamento sobre o futuro do nosso país.
*Xico Graziano é agrônomo, foi Secretário de Agricultura e Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo /E-mail:xicograziano@terra.com.br

sábado, 16 de maio de 2015

as vantagens do lobby profissional

As vantagens do lobby profissional

The Economist
15 Maio 2015 | 02h 05
Não há nada incomum no fato de um presidente que encerrou o seu mandato viajar pelo mundo com a finalidade de promover os negócios para o seu país. Mas dados os vários escândalos de corrupção que cercam o Partido dos Trabalhadores, que no Brasil está no governo, os promotores decidiram investigar as viagens que Luiz Inácio Lula da Silva vem realizando desde que deixou a presidência, em 2011. Lula visitou países como a República Dominicana e Gana, onde seus colegas continuam no poder, supostamente para persuadi-los a assinar contratos com a Odebrecht, o maior conglomerado brasileiro de engenharia.
Por enquanto, os promotores estão apenas ponderando se existe uma justificativa legal para investigar Lula formalmente por suposto tráfego de influência, considerando seus persistentes vínculos com o poder. Ele e a Odebrecht negam estar envolvidos em operações impróprias: ambos afirmam que a empresa simplesmente ofereceu hospitalidade a Lula em palestras no exterior, por ela patrocinadas.
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Mas a decisão do Ministério Público reflete preocupações de um teor mais grave a respeito doa laços confortáveis que se estabeleceram entre as empresas brasileiras e a política. As elites empresariais e políticas do País estão umbilicalmente ligadas desde sempre. Executivos e funcionários dos altos escalões do governo cursaram as mesmas escolas e frequentam os mesmos partidos.
Aí, entram em cena os heróis mais improváveis: os lobistas das empresas. Um campo cada vez mais amplo de "relações governamentais" tenta "substituir as relações pessoais pelas institucionais", afirma Caio Rodrigues, diretor da Abrig, o lobby dos lobistas. A Abrig, que em 2008 tinha 12 membros, agora tem 145. A maioria das maiores empresas já tem departamentos internos de relações com o governo; os escritórios de advocacia, por sua vez, estão oferecendo cada vez mais consultoria nesta área; ao mesmo tempo, começaram a surgir cursos universitários na especialidade.
O profundo interesse suscitado por seu novo MBA em relações institucionais levou a Fundação Getúlio Vargas a oferecer 45 vagas em seu campus de Brasília, em vez das 40 inicialmente planejadas. A ABRIG confirma que agora o Brasil tem cerca de 2 mil profissionais de relações governamentais. Seu número cresceu consideravelmente desde a crise financeira global, quando, inicialmente Lula e depois sua protegida e sucessora, Dilma Rousseff, começaram a intensificar seu envolvimento com o setor privado.
Os lobistas brasileiros ainda não têm um conjunto de normas claras que devem ser seguidas. Alguns aspectos de sua função são regidos por leis contra o suborno, conflitos de interesse e coisas semelhantes. Mas a ABRIG está pressionando para que sejam introduzidas reformas, segundo o modelo do Canadá, que exigiriam que os lobistas se registrassem e informassem com quem se encontram, em nome de quem, e por que motivo. "A formalidade tem uma função antisséptica", diz Rodrigues. Indubitavelmente, como em outros países, o lobby furtivo continuaria a ocorrer fora do sistema formal, mas pelo menos proporcionaria um caminho legítimo, regulamentado, para as empresas se justificarem perante o governo.
Se o governo estará disposto ou não a ouvir, é outra questão. No círculo mais próximo de Dilma muitos prefeririam manter distância dos lobistas. Portanto, as empresas de relações governamentais continuam procedendo com extremo cuidado. A Patri, uma das maiores, diz que trabalha para pôr empresários na mesma sala com os encarregados da tomada de decisões, mas não os representa diretamente.
A Arko Advice oferece aos seus clientes profundas análises dos votos dos parlamentares, mas afirma que não tenta influenciar sua votação. Mesmo assim, num país em que 40% do Produto Interno Bruto passa pelo Estado, o lobby nunca deixará de existir. Será melhor a variante profissional.

é preciso abrir os olhos para os massacres. e agir


É preciso abrir os olhos para os massacres. E agir


Washington Novaes
15 Maio 2015 | 03h 00
Por mais que tentem viver isoladas, protegidas, indiferentes aos dramas, a cada dia muitas pessoas se sentem assaltadas – via comunicação – pelos dramas de várias partes do mundo. Podem ser os da África, do Sudeste da Ásia, de outras partes da América Latina. E, como relatou o correspondente deste jornal na Suíça, o competente Jamil Chade (4/5), “a resposta da ONU para crises globais é inconsistente”, lembrando o historiador Stephen Schlesinger, que há poucas semanas esteve por aqui fazendo conferências. Na opinião dele, enquanto houver na ONU direito de veto para Estados Unidos, Rússia, China, França e Grã-Bretanha, “o risco será sempre de não conseguir agir diante do massacre”. Quem propõe, por exemplo, uma solução para a guerra civil na Síria, onde já morreram 220 mil pessoas? Quem tem solução para os dramas de várias partes da África e para a morte de milhares de pessoas que dali tentam fugir para a Europa?
Nas últimas semanas têm sido frequentes notícias sobre imigrantes clandestinos que tentam chegar à Itália e são aprisionados. Muitos deles, levados por facções da Máfia italiana, à qual pagam pelo transporte, mais grande parte dos euros que recebem depois por trabalhos aviltantes. Segundo a ONU (Folha de S.Paulo, 2/5) só no ano passado milhões de pessoas se deslocaram de seus países por causa de “conflitos e violências”. Na África, porque “suas terras são progressivamente ocupadas (Eco-Finanças, 24/4) por empresas que expulsam os moradores” para extrair minérios, principalmente diamantes e petróleo, ou instalar grandes plantações.
É inevitável que venha à memória o livro do jornalista Ryszard Kapuscinski, que durante quatro décadas foi correspondente na África de jornais poloneses. Em Ébano – Minha Vida na África ele relata histórias terríveis do que viu em vários países. Alguns jornalistas o acusaram de “fantasioso”. Mas a realidade parece inexorável. Como o que testemunhou sobre a guerra que envolveu Ruanda, o ex-Congo, Burundi e mais vizinhos, em que perderam a vida milhões de pessoas, disputando áreas férteis das quais haviam sido antes expulsos por mineradoras de outros países que as haviam ocupado. Mas quase nada disso chegou pela maior parte da comunicação ao resto do mundo.
Neste momento estão em cena conflitos no Zimbábue, onde fazendeiros expulsam antigos ocupantes de milhares de hectares; em Uganda, onde se acentua a ocupação de terras por empresas petrolíferas e mineradoras; em Moçambique, onde o Estado é o único proprietário de terras, mas concede usufruto aos grandes; na Tanzânia, na Nigéria, na Somália, na Eritreia, por motivos parecidos. Zeid Ra’ad, alto dirigente da ONU, tem dito (FP, 21/4) que a União Europeia precisa de “uma abordagem mais sofisticada, mais corajosa (...). Está virando as costas para os imigrantes mais vulneráveis no mundo e corre o risco de tornar o Mediterrâneo um grande cemitério” (onde morrem fugitivos). A seu ver, é indispensável ter políticas para o curto prazo que autorizem a entrada dos imigrantes africanos, proporcionem a eles trabalho qualificado, concedam asilo, atuem para que possam viver com suas famílias.
Parece incontestável. Segundo o Ministério Público italiano (Estado, 21/4), nada menos que 1 milhão de sírios e africanos aguardam autorização dos países para onde querem imigrar. Federica Mogherini, chefe da diplomacia da União Europeia, diz que “não existe mais álibi para a Europa. Temos o dever moral e político de assumir nosso papel. O Mediterrâneo é nosso mar e precisamos agir juntos como europeus”. Esse mesmo tom foi seguido neste jornal por Gilles Lapouge: “O Mediterrâneo foi o esplendor do mundo, mas neste início de terceiro milênio ele é a vergonha, a miséria e o horror”. Opinião compartilhada por Martin Schulz, presidente do Parlamento europeu: “É uma vergonha e uma confissão de quanto os países fogem de suas responsabilidades”.
Notícias dizem que a organização Mare Nostrum resgatou no mar, em 2014, cerca de 150 mil fugitivos; 500 mil esperam a oportunidade na Líbia. A Triton recebe do governo italiano alguns milhares de euros por mês para abrigar refugiados da África. “Essa rota é a mais mortal do mundo”, já disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (FP, 21/4).
As razões são muitas. Angola, sede de grandes empresas petrolíferas e mineradoras de diamantes, tem a maior taxa no mundo de morte de crianças até 5 anos de idade – 150 mil morreram no ano passado. 25% de suas crianças são muito desnutridas. E o governo propôs este ano corte de 33% no orçamento da saúde (The New York Times, 20/3). Aids é a principal causa de morte entre adolescentes, segundo a ONU (AP, 18/2). E a África Subsaariana é o pior lugar.
Uma boa notícia: o continente africano afinal está livre do surto de Ebola – que matou mais de 10 mil pessoas na Libéria, na Serra Leoa e no Senegal – graças à Organização Mundial de Saúde (OMS) e à cooperação de alguns países. Mas a própria OMS adverte que já identificou 16 vírus transmissores no continente. E que agora há outras grandes ameaças. Ela mesma identificou uma “ameaça global” na resistência a antibióticos: “Doenças que eram curadas com relativa facilidade podem voltar e matar 10 milhões de pessoas até 2050”, com bactérias que provocam pneumonia, diarreia e infecções. Só em 2013 foram 480 mil casos de tuberculose em cem países. E não há novos medicamentos desde 1987. São centenas de milhares de pessoas que podem ser atingidas agora. Na Guiné são 460 mil; na Libéria, 170 mil; em Serra Leoa, 280 mil (FAO, 17/12/2014).
Como ficará o Brasil diante desse panorama?
PS: Este texto já estava escrito quando a União Europeia pediu ao Conselho de Segurança da ONU que apoie seu plano para conter “o fluxo mortífero de imigrantes” no Mediterrâneo, “desmantelando organizações de tráfico humano e destruindo seus navios” (Estado, 12/5).
*Washington Novaes é jornalista - E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

ONde houver fé, que eu leve a dúvida

Onde houver fé, que eu leve a dúvida


Eugênio Bucci
14 Maio 2015 | 03h 08 Uma senhora controvérsia eclodiu no fim de semana. A London Review of Books publicou reportagem do jornalista Seymour Hersh acusando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de ter mentido sobre a operação de soldados americanos que invadiu o território paquistanês e matou o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, em maio de 2011. A história é complicada.
A Casa Branca sempre disse que matou o homem por sua própria conta, sem que o governo do Paquistão tivesse conhecimento. Afirma que localizou sozinha o maior inimigo dos Estados Unidos e, ato contínuo, tomou as providências para ir até lá e dar cabo do sujeito, sem pedir licença a ninguém. Hersh conta outro enredo. Assegura que tudo não passou de uma encenação – uma encenação à qual as autoridades do Paquistão deram sua ajuda prestimosa: entregaram a exata localização do alvo em troca de uma recompensa de US$ 25 milhões. Teria sido por força desse conluio que as forças paquistanesas não opuseram resistência à invasão de seu território e ainda deram uma mãozinha extra, cortando o fornecimento de energia elétrica da casa a ser tomada de assalto. De acordo com a reportagem, enfim, o ataque não foi um ato de ousadia ou de coragem, mas uma reles execução autorizada de um homem enfraquecido e indefeso, que era mantido como prisioneiro desde 2006.
A assinatura de Seymour Hersh tem um peso enorme. Aos 78 anos, é uma lenda viva da imprensa. Apontado por muitos como o maior jornalista investigativo dos Estados Unidos, começou sua carreira como repórter de assuntos policiais em 1959 e dez anos depois revelaria ao mundo o massacre de My Lai, num trabalho que lhe valeu o Pulitzer em 1970 e mudou o rumo da Guerra do Vietnã. Em 2004 mostrou a tortura praticada por militares americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Agora, em 2015, garante que a morte de Bin Laden foi um jogo de cena. Desmenti-lo não é – nem será – um ato administrativo corriqueiro. Não obstante, é o que o governo americano vem tentando fazer. É o que lhe resta.
Como Hersh não revelou a identidade de todas as fontes, tentam desqualificá-lo por aí. Logo na segunda-feira Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca, acusou a reportagem de estar “repleta de imprecisões e informações totalmente falsas”. O porta-voz do Departamento de Segurança Nacional, Ned Price, afirmou que o texto contém “tantas alegações infundadas” que seria impraticável checá-las todas. Por onde pode, a administração Obama move-se para defender sua narrativa oficial, cheia de grandiosidades patrióticas e eloquências heroicas.
Onde estará a mentira – ou as mentiras, no plural? Difícil apontar. Só o que se pode saber até agora é que a polêmica vai crescer. Não existem comprovações públicas sobre os detalhes fundamentais. Você pode ter um palpite aqui, outro ali, pode preferir acreditar em Obama ou em Hersh, mas ninguém provou de modo irrefutável as falsificações da narrativa da Casa Branca. O que a reportagem faz, com eficiência, é desautorizar essa narrativa. Se já existiam indícios de alguma inconsistência na história contada pela administração Obama, esses indícios se agravaram. A dúvida que estava apenas incipiente ganhou solidez e, no caso presente, expor a dúvida é o que de melhor a imprensa pode oferecer.
Calma. O que se segue não é uma defesa de ataques irresponsáveis às autoridades, mas justamente o oposto. O que se segue é a defesa da democracia. Comecemos pela constatação óbvia, mas regularmente esquecida, de que a democracia não se faz com certezas. A democracia não se faz com sociedades que confiam cegamente em seus governantes. A democracia depende da nossa capacidade de duvidar do poder.
Isso não significa que qualquer acusação baseada numa delação anônima possa ser publicada sem critérios. Significa apenas que, em circunstâncias excepcionais, a identidade da fonte de uma grande reportagem pode ser mantida em sigilo, pois sem isso uma informação de notório interesse público não teria como ir até o público. Eis por que as sociedades livres reconhecem o sigilo da fonte como prerrogativa do jornalista profissional. Não se deve abusar dessa prerrogativa, é claro, mas sem ela não há como avançarem as investigações independentes que só a imprensa pode conduzir e difundir.
Sem sigilo da fonte os americanos não teriam conhecido o escândalo de Watergate, o mundo não teria sido informado sobre os abusos de bisbilhotice cibernética praticados pela NSA e os cidadãos brasileiros não teriam sido alertados sobre as mordomias e as torturas da ditadura militar, os desvios do mensalão e os subterrâneos da Petrobrás. O sigilo da fonte não é, como supõe o senso comum desinformado, um atalho para a maledicência. Ao contrário, tem-se mostrado a via possível de acesso à verdade factual quando os interesses do poder estão em jogo. Um veículo que abusa desse sigilo incorre em erro, é evidente, mas erra mais ainda quem insiste em querer arrancar da imprensa essa prerrogativa essencial.
O sigilo da fonte vale menos como ponto de chegada à verdade final e mais, muito mais, como ponto de partida de um debate que só a opinião pública em liberdade será capaz de resolver. Quase nunca a função do jornalista é noticiar uma certeza pronta e acabada. No mais das vezes, sua função é noticiar uma dúvida de interesse público. Se governantes desejam ser aclamados pela fé incondicional dos eleitores, a tarefa da imprensa tem sido a de desmontar essa pretensão.
Só por isso a reportagem de Seymour Hersh já prestou um serviço, desses que podemos qualificar de inestimável. Onde havia uma certeza oficial, violenta e pomposa, ela plantou uma dúvida do tamanho do mundo. Parece um paradoxo, mas é assim que é. Os santos que cuidem de levar a fé aonde as almas se afligem. Os jornalistas devem cuidar de levar a dúvida a espíritos entorpecidos pela força, pelo poder e pela sedução de quem governa.
*Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP