quinta-feira, 20 de julho de 2017

Corrupção é um sintoma, não a causa do desastre


Há que criar condições para que os negócios lícitos compensem mais do que os ilícitos

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo
20 Julho 2017 | 03h04
Não carece de fundamento a sensação generalizada de que o Brasil atolou numa crise ética sem paralelo nem precedentes. Ao menos quanto a isso estamos todos de acordo: “nunca antes na História deste país”. A quantidade de senadores e deputados implicados em investigações ou processos criminais perfaz uma desconcertante (e ativa) maioria política. Na mesma condição figuram ministros e ex-ministros, além do atual presidente da República e alguns de seus antecessores. Olhando de longe, a Praça dos Três Poderes parece um banco dos réus com ar-condicionado.
Assim é na União, assim é nos Estados. Para ficarmos num único exemplo, lembremos o Rio de Janeiro, um cartão-postal cujo síndico fugiu com o dinheiro da folha de pagamento e não deixou solução à vista.
Não estão errados, portanto, os cidadãos que se queixam da corrupção com palavras fortes e, por vezes, chulas. O que está errado é embarcar nas teses que identificam na “desonestidade dos políticos” e na vileza de seus corruptores a causa maior da encalacrada nacional. A escassez de probidade não é um traço genético que distingue os políticos profissionais de outros seres humanos. Fora isso, a crise brasileira – que conjuga um desmoronamento ético, um sufoco econômico e um esgotamento das formas atuais da nossa democracia representativa, com a deterioração acelerada da legitimidade das instituições, dos partidos e dos agentes do poder – é extensa demais para ter sido causada por desvios de caráter de um grupo circunstancial de parlamentares, empresários e governantes. Com a licença do lugar-comum, o buraco é mais embaixo.
Embora estejamos numa crise que também é ética, a solução não virá de cruzadas sectárias contra “políticos ladrões” – estas, que já se perfilam no horizonte, só vão piorar as coisas. Campanhas moralistas apenas vão contribuir para o acirrar a polarização do debate público, para promover o culto da força bruta e para elevar as chances eleitorais de salvadores da Pátria com perfil voluntarioso e autoritário. De quebra, há uma probabilidade crescente de assistirmos à desmoralização do Poder Judiciário (que ainda conserva credibilidade), seja de fora para dentro (pela frustração das massas que esperam um “justiçamento” exemplar dos corruptos, o que a Justiça não pode entregar, pois não pode funcionar como falange vingadora e redentora), seja de dentro para fora (o que viria como resultado de excessos ou abusos praticados pelos próprios juízes, movidos pela intenção, consciente ou inconsciente, de “jogar para a torcida”, numa conduta compromete a imagem da autoridade judiciária).
A corrupção não é “o” maior problema do Brasil, não é “a” fonte da crise, é apenas uma parte da crise. É evidente que políticos corruptos devem ser investigados, julgados e punidos, como quaisquer outros criminosos, mas o discurso delirante de que figuras milagrosas varrerão todos os corruptos da terra brasileira não tem base na razão. Esse discurso, que já se prepara para subir nos palanques, só vai piorar quadro nacional. Não nos esqueçamos de que a mesmíssima promessa (“varrer a corrupção” e “restaurar a moralidade”) animou personagens como Jânio Quadros, além de apoiadores de primeira hora do golpe de 1964. Deu no que deu.
O combate à corrupção é imprescindível, mas não é, nunca foi e nunca será um programa de governo. Já está mais do que na hora de aprendermos que a corrupção não é causa, mas sintoma de algo mais profundo, que não funciona como deveria. É verdade que, no plano superficial, ela é sintoma da impunidade: como o risco de um corrupto ir para a cadeia sempre foi muito baixo no Brasil (risco que só começou a aumentar de uns anos para cá), o grau de sucesso de práticas corruptas sempre foi muito alto. No plano estrutural, porém, que é o que mais importa, a corrupção é sintoma de anacronismos persistentes do capitalismo brasileiro, que não podem nem poderão ser resolvidos pelo Código Penal.
No Brasil, a corrupção deve ser compreendida como sintoma de um modo de acumulação de capital que, no fundo, é anticapitalista: rechaça a concorrência, o livre mercado, o mérito e o valor do trabalho. Há uma expressão bastante em voga, crony capitalism, que tem sido usada para descrever o capitalismo baseado em privilégios concedidos pelo poder político – que, em troca, obtém obediência cega, bajulação servil e as mais diversas formas de apoio político (veladas ou explícitas) dos “capitalistas” beneficiados.
O conceito de crony capitalism tem ajudado na análise de economias como a chinesa, onde há acumulação de capital, mas não há livre-iniciativa, mas bem que se poderia aplicar ao Brasil. Entre nós, o “capitalismo politicamente orientado” já foi apontado nos anos 50 por Raymundo Faoro (Os Donos do Poder) como um travo que nos separa da modernidade. Faoro tinha razão – e ainda tem. Muitas das grandes fortunas brasileiras preferem o compadrio ao livre mercado.
O combate policial e judicial contra a corrupção dificulta o jogo dos agentes do “capitalismo de compadrio” e por isso não pode faltar. Mas, repito, o buraco é mais embaixo. A prática de desviar frações do erário – esse ethos inconfessável e evidente da rotina política – é o método por excelência de gestão do patrimonialismo. Por baixo disso, prospera o modelo de acumulação primitiva que ainda vige no Brasil, na base do tráfico de privilégios, que sabota a transparência do Estado e a própria ideia de República.
Um programa para superar o atoleiro ético do Brasil atual deve contemplar não apenas o combate à corrupção. Acima disso, deve buscar novos marcos legais que prestigiem a concorrência leal e criem condições para que os negócios lícitos venham a ser – pois ainda não são – mais compensadores que os ilícitos. Será que isso é pedir demais?
*Jornalista, é professor da Eca-Usp

terça-feira, 18 de julho de 2017

Que tal um protocolo? - Cláudio de moura castro

Pormque a mão de obra americana é mais produtiva do que a nossa?

Adam Smith foi o primeiro a perguntar, mas não o último : por que uns países são ricos e outros são pobres?  Estudos recentes sugerem que as diferenças de produtividade são uma hipótese promissora. Se soubermos por que a mão de obra dos Estados Unidos gera cinco vees mais produtos do que a nossa, estaremos no caminho da resposta. Aliás, os brasileiros são mais produtivos lá do que aqui, mesmo quando usam tecnologia igual.  especulemos.

naboa medicina, há instruções a ser seguidas, são os chamados protocolos. Se o sintoma é esse, o remédio é aquel.  Uma apendicectomia tem todos os seus procedimentos mapeados pelo protocolo correspondente.  Minha hipótese é que há problemas com os nossos protocolos,  não na medicina, mas no processo produtivo.

Proponho três hipóteses: não há protocolos, o agente desconhece o protocolo ou o protocolo é burro.  Essas três fragilidades ajudam a explicar a nossa baixa produtividade.

Não há protocolo. A cada ocorrência, a pessoa para, pensa e inventa uma solução. Se é algo novo, paciência. Mas, se é um evento repetitivo, perde-se tempo e a solução não é a melhor possível.  Diante de um pedido, o funcionário do banco coça a cabeça, olha no computador, pergunta ao colega e telefona.  Se o assunto não é novo, por que não há um protocolo já pronto?

O agente desconhece o protocolo. Por que desconhece? Falta de treinamento?  Incapacidade de entender instruções? Atitude displicente? Na prática, o funcionário não sabe se o material resiste à corrosão, qual a precisão exigida pelo fabricante, como ligar o trifásico.  E os classicos: cumprir o horário e o prometido.

O protocolo é burro.  Uma das fontes mais pródigas nos dias de hoje é informatizar o que já era idiota como procedimento manual. Vejamos apenas exemplos do cotidiano. 

     Fiz uma comprinha em uma loja pequena. Quatro pessoas participaram do meu atendimento.

     Para quem chega ao aeroporto com passagem marcada, só falta dizer quantas malas tem. Por que a enormidade de teclas pressionadas pela atendente:

     Vemos nos bancos e alhures que, além de teclar no computador, o funcionário precisa anotar em um papelzinho.  É burrice informática.

     Preenchemos não sei quantas vezes as mesmas informações em formulários diferentes.

     O médico digita e imprime os exames pedidos. No laboratório, a atendente vai transcrever tudo, do papel para o computador.

     As portarias dos edifícios pedem o número da identidade. Como não a conferem, vale inventar qualquer numero. Aliás, pedir RG faz o edifício mais seguro?

Esses exemplos do cotidiano meramente ilustram os drenos em nossa produtividade. Não passam de um convite para pensar em um dos problemas mais sérios da economia brasileirea.

(Transcrito da Veja, edição 2529, de 10 de maio de 2017, à página 99)









terça-feira, 4 de julho de 2017

Trabalhos manuais podem criar prazer e felicidade tangíveis




suzana herculano-houzel
Carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha.
Escreve às terças, a
cada duas semanas.

Trabalhos manuais podem criar prazer e felicidades tangíveis


Karime Xavier/Folhapress
Usar somente tecnologias digitais pode nos afastar do prazer de construir algo com as mãos
Eu e meu companheiro de mesa ao jantar começamos a trocar figurinhas sobre nossas respectivas palestras que aconteceriam no dia seguinte. De campos diferentes, não reconhecíamos o nome um do outro. Contei-lhe sobre todas as evidências que temos encontrado de que nossa espécie é apenas mais um primata, dona do maior número de neurônios no córtex cerebral de qualquer animal, mas graças a isso capaz de criar, transmitir culturalmente e acumular tecnologias e conhecimento que nos tornam uma potência cognitiva.
Uma das nossas conquistas cognitivas, através de decisões inteligentes, é a boa qualidade de vida, que inclui a sensação de felicidade. Essa, por sinal, era a praia do meu comensal: como lidar positivamente com o estresse (ao invés de evita-lo), encontrar e cultivar o bem-estar.
Rapidamente convergimos sobre nossa impressão de que jornalistas, e boa parte da sociedade em geral, gostam de demonizar a tecnologia como um mal da vida moderna –quando a tecnologia, por definição qualquer processo, sistema ou objeto que ajuda a resolver um problema, é intrinsecamente positiva; o problema é o uso que escolhemos fazer dela.
Por exemplo: na opinião do meu vizinho de jantar, poder usar tecnologias digitais é maravilhoso, mas um problema é que, usando somente isso, nossos feitos cognitivos passam a ser etéreos, intangíveis, guardados em nuvens. Em suas pesquisas, ele descobriu que uma das maiores fontes de prazer para nós humanos é construir algo com as mãos. E poucas pessoas ainda fazem isso em seu dia a dia.
Pensei imediatamente em meu prazer recém-descoberto: a jardinagem. Fui menina de apartamento, e agora, morando em Nashville, pela primeira vez tenho um jardim. Num dia de estresse intenso por conta de um problema de saúde, precisando esvaziar a mente e me acalmar, fui comprar tijolos, terra e mudas para começar um canteiro. Três horas e um bocado de suor depois, eu era outra pessoa. Aquela noite, e ao longo dos dias seguintes, fui várias vezes namorar meu novo canteiro, com folhagens roxas e verdes cercadas de suculentas pequeninas.
Em meu trabalho, construo conhecimento que ocasionalmente ganha vida em papel, materializando-se em artigos e livros. Meu jardim, ao contrário, é tangível toda vez que olho pela janela ou coloco meu chapéu e luvas.
Meu companheiro de jantar aprovou. Era Tal Ben-Shahar, autor de best-sellers sobre felicidade e professor do curso mais concorrido que já houve em Harvard, sobre psicologia positiva. Acho que eu passaria no seu curso...

domingo, 2 de julho de 2017

A estupidez há de crescer (estadão, Daniel M de Barros)


A estupidez há de crescer

A quantidade de informação a que temos acesso multiplicou-se infinitamente, mas nossa quantidade de tempo continuou a mesma. Assim, a superficialidade do conhecimento torna-se a regra


Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo
02 Julho 2017 | 05h00
SÃO PAULO - Pelo andar da carruagem aposto que a vida inteligente será a primeira a ser extinta no planeta. Não pelo fim da vida em si, mas pelo ocaso da inteligência que testemunhamos aproximar-se a cada alvorecer. Apesar de não ter uma definição precisa, de forma geral todo mundo sabe diferenciar a inteligência da estupidez. Diante de ambas, é possível identificar os lados de cada uma.
Mas às vezes ficamos na dúvida. Admiramos as capacidades intelectuais daquela pessoa culta, que tem muito conhecimento e é capaz de oferecer soluções inspiradoras. No entanto, quando notamos que, apesar de toda sua bagagem, o raciocínio lógico é falho, fazendo-a titubear diante problemas novos, sem relação com situações análogas, percebemos que fomos apressados em considerá-la inteligente. 
O contrário também acontece: se achamos esperto o sujeito que pensa rápido, que abstrai facilmente conceitos difíceis, logo mudamos de opinião se lhe falta conhecimento ou sobra ignorância. É por isso que uma das teorias mais influentes sobre a inteligência a divide em dois componentes: inteligência fluida e inteligência cristalizada. A primeira constitui essencialmente o raciocínio abstrato, que permite resolver problemas lógicos independentemente de conhecimentos prévios, torna-nos mais adaptáveis a ambientes mutáveis. A segunda depende do acúmulo de experiência, desenvolvimento progressivo de habilidades, constituindo, entre outros, o vocabulário e a cultura geral. Juntas, elas constituem uma medida geral de QI, que – surpresa – vem aumentando a cada geração.
Por espantoso que seja para quem passa os olhos pelas redes sociais, testes de QI ao longo dos anos mostram que conforme as gerações se sucedem aumentam as pontuações. A bagatela de três pontos por década, em média. Veja então que não é só por preguiça que pedimos aos filhos para nos ajudar a encarar as novas tecnologias – de alguma maneira eles são realmente mais espertos que nós.

Crise, não só política

Crise, não só política

Está nos faltando a mensagem que aponte caminhos de esperança para passos à frente

* Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S. Paulo
02 Julho 2017 | 03h00
Há poucas semanas participei de um encontro preparatório de uma conferência que organizarei em Lisboa para a Fundação Champalimaud sobre a crise da democracia representativa. Ao encontro compareceram, ademais dos responsáveis pela fundação, Alain Touraine, Pascal Perrineau, Michel Wieviorka, Ernesto Ottone, Miguel Darcy e Nathan Gardels, entre outros intelectuais. Os debates ressaltaram que a população desconfia da justeza e mesmo da capacidade de gestão dos sistemas político-partidários prevalecentes nas democracias representativas. Um dos presentes citou o abade Sieyès, que afirmava: “Se o poder vem dos que estão em cima, a confiança vem dos que estão em baixo”. Escapam dessa crise, por óbvio, os países onde prevalecem formas autoritárias de mando em que conta a repressão, não o consentimento.
Perrineau chamou a atenção para dados mostrando que não diminuiu a confiança nas famílias, nas instituições comunitárias, no localismo. A crise parece ser mais “política” e quanto mais distante a pessoa está dos centros de poder, mais desconfia deles. Tem inegavelmente uma dimensão territorial: quanto mais afastados estão os núcleos populacionais das novas modalidades de produção e da vida associativa contemporânea “em rede”, maior a probabilidade do seu enraizamento nas tradições, maior o “conservadorismo” e maior temor do “novo”, principalmente da substituição do trabalho humano por máquinas. Pior ainda, por máquinas “inteligentes”.
Há mais: nessa quebra de confiança vão de cambulhada as instituições políticas criadas ao longo dos dois últimos séculos, os partidos e os parlamentos. O analista se surpreende quando vê que na distribuição de voto, tanto nas últimas eleições francesas como nas inglesas do Brexit ou nas norte-americanas que elegeram Trump, o “voto operário” se deslocou para a “direita” e com ele se foi também boa parte do voto proveniente do que se chamava de “pequena burguesia”. O Labour Party inglês, os democratas nos Estados Unidos e os socialistas e comunistas na França foram levados de roldão pelo voto “conservador” ou, quem sabe, pela formação de uma maioria de outro tipo, como fez Macron.
Em resumo, há algo de novo no ar e não apenas nas plagas brasileiras. Uma nova sociedade está se formando e não se vê claramente que instituições políticas poderão corresponder a ela. Dito à moda gramscsciana: o velho já morreu e o novo ainda não se vislumbra; ou, se vislumbrado, não é reconhecido, acrescento. 
Que força motora provoca tão generalizadas modificações? Relembrando o assessor de Clinton que dizia sobre o fator-chave nas eleições “é a economia, seu bobo”, poder-se-ia dizer agora: é a globalização (como digo há décadas). Esta surgiu com as novas tecnologias (nanotecnologia, internet, robotização, contêineres, etc.) que revolucionaram as relações produtivas, permitiram a deslocalização das empresas, a substituição de mão de obra por máquinas, a interconexão da produção e dos mercados, etc. Tudo visando a “maximizar os fatores de produção”, ou seja, concentrar os centros de criatividade, dispersar a produção em massa para locais de mão de obra abundante e barata e unificar os mercados, sobretudo financeiros. Criaram-se assim condições para a emergência de sociedades novas.
Novas não quer dizer “boas sociedades”, depende de para quem. Sem dúvida o crescimento exponencial da produtividade e da produção aumentou a massa de capitais no mundo. Sua distribuição, entretanto, não sofreu grande desconcentração. Mais ainda, o “progresso” trouxe, ao lado da diminuição da pobreza no mundo, o aumento do desemprego formal e dificuldades para a empregabilidade, posto que o trabalho humano conta mais, nos dias de hoje, se com ele vier criatividade. Globalmente houve um amortecimento do controle nacional de decisões (pela concentração de poder nos polos criativo-produtivos e bancários) sem haver regras de controle financeiro global. Com isso a ameaça de crises, ou ao menos a percepção da possibilidade delas, aumentou as incertezas.
É inegável que a “nova sociedade” incrementa a mobilidade social (forma-se o que, à falta de melhor nome, se está chamando de “novas classes médias”) e ao mesmo tempo se criam contingentes não desprezíveis de inocupados ou impropriamente ocupados (novas formas de subemprego). Ao mesmo tempo se deslegitimam as formas institucionais anteriores, os partidos, e mesmo as de coesão social (as classes com seus sindicatos e associações). Criam-se sociedades fragmentadas, às que se somam, em situações como a brasileira, a fragmentação dos partidos. Em qualquer caso, dá-se perda de sua credibilidade. Pouco a pouco se dissipam os laços entre “a sociedade” e o “sistema político”. Há, portanto, mais a ser entendido e contextualizado do que uma crise do sistema representativo.
Isso implica novos populismos e leva a “direita” ao poder? Não necessariamente. Alain Touraine, em sua apresentação, referiu-se a um tema que lhe é caro: liberdade, igualdade e dignidade são os motes nos quais há que persistir. Mas como? Trump juntou os cacos da “velha sociedade”, o rustbelt, temerosa dos outros e do futuro (lá vêm os imigrantes, ou os terroristas ou, extremando, os “muçulmanos”) e ganhou. Macron, contudo, ganhou defendendo a liberdade e o progresso (a globalização e a integração da Europa) e combateu as corporações, poderosas na França.
Em países como o nosso, isso não basta: há que insistir na igualdade (nas políticas sociais, em reformas que combatam os privilégios corporativos). E, principalmente, na “dignidade”, no respeito à pessoa e à ética. O “basta de corrupção!” não é uma palavra de ordem “udenista”. É um requisito para uma sociedade melhor e mais decente. Em momentos de transição, a palavra conta: só ela junta fragmentos, até que as instituições e suas bases sociais se recomponham. É o que nos está faltando: a mensagem que aponte caminhos de esperança para passos à frente.
*Sociólogo, foi Presidente da República
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