segunda-feira, 24 de abril de 2017

Está Difícil, no Mundo Atual, Lidar com o Diferente.

Para Bernardo Tanis, violênciatornou-se ‘um ato de afirmação’ e o homem ‘só aceita o que é idêntico a ele mesmo’
A rapidez das mudanças do mundo, a fragilidade dos vínculos e a dificuldade de enxergar o outro são algumas das razões, apontadas por Bernardo Tanis, para o mal-estar geral da sociedade. O psicanalista – que acaba de assumir a presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP – , quer ampliar a atuação dos profissionais na área social, aproximando-os da população “A psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje”, afirmou em entrevista à repórter Marilia Neustein, em seu consultório.
Para Tanis, os desafios dos analistas de hoje são muitos, entre eles a dificuldade do indivíduo em lidar com a alteridade: “Está muito difícil para o homem lidar com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente”, diz, Abaixo, os principais trechos da conversa.
Como você avalia o momento que o País e o mundo estão vivendo, de polarização política? A relação entre as pessoas está se tornando mais violenta? 
O mundo está se transformando nas últimas décadas de um modo vertiginoso. Muito mais rápido do que conseguimos entender. Temos a sensação de que ele está mais violento, mas se pensarmos nos milhões que morreram na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra, nas atrocidades e matanças, teremos que refletir que talvez haja uma transformação no modo da violência – e precisamos entender as raízes desse cenário.
Existe mais violência?
Violência sempre existiu na história da humanidade, mas talvez o que a motiva hoje seja algo diferente. Uma coisa interessante que vem acontecendo nas últimas décadas é uma mudança do mundo que o indivíduo encontra no seu cotidiano, na sua história. Havia uma continuidade maior que a de hoje e o ritmo de mudanças na vida, nas famílias, nas amizades, no trabalho, era bem mais lento. Do ponto de vista subjetivo, esse indivíduo conseguia se projetar no futuro.
Era mais previsível.
Não que fosse ideal, porque também havia amarras, havia situações em que o indivíduo ficava preso. Nós ganhamos talvez maior margem de liberdade na vida afetiva, na sexualidade, na aceitação da diversidade. Mas em outras coisas o mundo foi nos conduzindo a um desenraizamento muito grande. Então, em relação ao trabalho, por exemplo, as pessoas não sabem se vão continuar amanhã no mesmo emprego. As mudanças são rápidas, há muitas incertezas. As pessoas estão se sentindo substituíveis, pouco relevantes, seja na vida afetiva ou na inserção no mundo do trabalho.
Acredita que há uma frivolidade nas relações e na maneira de se constituir no mundo?
Sim. Existe a dificuldade de uma certa continuidade dos vínculos. E isso vai produzindo uma forma de ilusão. Então, isso envolve questões de confiança em si mesmo, de confiança no outro, nas instituições. E isso tem uma ressonância – uma questão muito importante que a psicanálise estudou – que é uma condição de desamparo. Assim, quando o mundo externo não lhe dá muitas garantias, soma-se a estranheza com você mesmo e com esse mundo exterior.
De que forma isso aparece no consultório?
O que é que nós vemos? Maior quantidade de quadros de depressão, por exemplo. Situações de vazio que a pessoa vive ou adições fortes, compulsões. Há muito sofrimento, angústia, e isso precisa ser obturado. Então o que a gente vê são formas de obturação. E a violência aparece também aí, como forma de reagir ao sentimento de insegurança e de fragilidade social. A violência acaba aparecendo muitas vezes como um ato de afirmação.
Como os psicanalistas podem lidar com essas mudanças e fenômenos contemporâneos?
Acabamos de assumir a presidência da SBPSP e o mote científico e também de intervenção na cultura da nossa gestão vai ser a questão do “o mesmo e o outro”. Identificamos que em nosso tempo está muito difícil para o homem lidar com a alteridade, com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente. Veja o tema das migrações, dos exilados. Consideramos, desde uma perspectiva psicanalítica, que do mesmo jeito que o ser humano é auxiliado pela psicanálise a conhecer motivações inconscientes do seu modo de lidar com a vida, consigo mesmo e com o mundo, ele também tem que aprender a dialogar com esse outro dentro de si mesmo para viver de um modo mais consciente, mais integrado. E as culturas de uma determinada sociedade também têm que aprender a conviver com o diferente dentro dessa cultura.
Nesse contexto, como vê o cenário polarizado?
Há momentos na história em que determinados grupos têm interesses em polarizar a discussão política. Como se existisse algo totalmente bom e algo totalmente ruim, excluindo as complexidades. Penso que o que acontece nas redes sociais, em alguns debates, às vezes na mídia, é que justamente as pessoas que têm um pensamento mais complexo, mais rico, que aceita a diversidade e enxerga a complexidade, ganham menos espaço. Isso se dá também no contexto da psicanálise.
De que forma? Por exemplo, discute-se muito hoje, no caso da psicanálise e da saúde mental, a questão das neurociências, do avanço da psiquiatria, dos psicotrópicos, as medicações, como se fosse também uma questão ou um ou outro. Sem levar em consideração que são modos de conceber e de lidar com o aspecto do humano complementar e não são excludentes. É inegável que temos um corpo biológico e que certas substâncias influenciam na nossa subjetividade. Podem ajudar a lidar com a ansiedade ou com a depressão, mas a dimensão subjetiva do humano, que Freud chamava alma humana, que é a angústia e o sofrimento humano ligado ao existir, isto não é tratado por nenhuma medicação. Essa transformação só pode vir de uma prática clínica. Então são vínculos complementares. Por isso o que queremos, na Sociedade de Psicanálise, é convocar um diálogo cada vez maior entre os diferentes campos do conhecimento. É procurar, buscar, tentar essa interface com as experiências das outras disciplinas. Achamos que psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje.
Retomando o tema da alteridade, acredita que existe uma falta generalizada de empatia? As pessoas, de uma forma geral, não conseguem se enxergar em um lugar diferente, independente de qual situação seja?
Se a gente aceita essa diferença, a partir daí pode desenvolver a empatia. Não é a partir daquilo que a gente vê que é igual. Por que é que uma formação de analista é longa, demorada? Porque o analista precisa fazer uma análise pessoal, pois ele vai transitar consigo mesmo por esses fantasmas, por essa questão do próprio narcisismo, de aceitação do outro nele mesmo, das raivas, do desejo de dependência, das vivências de solidão. Porque pra eu poder escutar o outro e poder lidar com a diferença do outro, preciso escutar essas coisas em mim.
Quais são os maiores desafios dos analistas hoje?
Acho que desafios não faltam. Talvez um dos maiores seja a questão dos tempos e dos ritmos. Vivemos em um mundo muito acelerado e as pessoas têm uma urgência muito grande de resolver seus problemas. Além disso, há uma certa ditadura da felicidade. Nós temos que ser felizes, temos que ser todos muito bonitos, ter corpos malhados, temos que estar sempre com uma cara sorridente. Não há o direito a se exercer a subjetividade plenamente. Não há direito a ficar às vezes triste, a não querer ir pra balada. Não há direito a ter dúvidas. A psicanálise, nesse sentido, se propõe a ser o espaço da singularidade. E para isso é preciso tempo, é preciso espaço.
Vivemos uma falsa liberdade? Somos escravos dessa falta de tempo?
O ritmo do mundo de hoje aparentemente nos fala da liberdade, que cada um pode ser do jeito que quer, que pode se vestir como quer, viver sua sexualidade como preferir. Sim, há algo que caminha nesse sentido, mas também há uma tirania de tudo isto também. Uma pessoa hoje na sessão de análise tem dificuldade de desligar o celular porque tem que estar conectada permanentemente. A quantidade de informação que a gente recebe é monstruosa. A psicanálise nos ajuda a construir uma narrativa de nós mesmos, mas para ter o tempo dessa narrativa, pra poder se situar no mundo, é preciso abrir um espaço, por pequenino que ele seja.
Como vê a democratização da psicanálise? Ela deve sair do consultório e dialogar com outros setores da sociedade?
Sim, isso é um dos nossos objetivos. Queremos oferecer pequenos cursos para que as pessoas possam se aproximar de psicanálise. Grupos de escutas sobre situações que acontecem na vida de todos nós – como adoção, envelhecimento, famílias, drogas. Queremos expandir nosso setor de parcerias e convênios e mostrar o que a psicanálise tem pra dar à comunidade como um todo. Como psicanalistas precisamos nos preparar para essa escuta.
Olhando para o cenário político, acha que as delações e os escândalos de corrupção aumentam essa sensação de vazio e descrença?
Como eu vejo um pouco o fenômeno que tá acontecendo? Face a essa descrença e a essa corrupção, surgem as filosofias e os desejos autoritários. Então, do que é que precisamos? A conclusão que surge é que precisamos de um pai bravo. De um governo forte, que puna os culpados. Então aí surgem as filosofias autoritárias. Assim surgiram o fascismo e o nazismo, os governos autoritários. Em lugar de pensar, o que precisamos é criar uma sociedade cuja regulação interna seja democrática. Fortalecer não uma figura autoritária mas a democracia, as instituições, os funcionários que operem com regras claras e transparentes. Pode parecer utópico, mas é o caminho de uma sociedade forte.  


segunda-feira, 17 de abril de 2017

O Bom e o Mau

O bom e o mau

Se prevalecer a superação do humano pelo robótico, estaríamos nos condenando?
16/04/2017 | 05h00
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 Por Demi Getschko - O Estado de S.Paulo
Está em Zaratustra: “o homem é uma corda estirada entre o animal e o além-do- homem. Uma ponte sobre o abismo”. Incerto é o olhar para a frente e temerário o olhar para trás. A “corda” sobre o abismo busca a transição, mas não pode prescindir do apoio no animal.
Duas notícias nesta Semana Pascal: um engenheiro chinês fabricou a própria noiva robótica e com ela casou; o dono da Tesla, Elon Musk, um genial inovador, declarou que fabricar um ciborgue é hoje sua prioridade. 
Criar vida da matéria não é tópico novo. A ficção tratou da lenda do Golem, feito de barro por algum rabino e que seguiria estritamente as ordens de quem lhe deu vida. Deve ser a mesma motivação do engenheiro chinês ao projetar a “noiva”, mas os golens do cinema revoltam-se e acabam atacando o criador. Ao projetar a “noiva”, algo pode ter saído errado – errar é humano – e a cibernoiva pode aprontar alguma, se sua programação não estiver perfeita. Os ciborgues não erram: seguem sua programação.
Em artigo do The Guardian, um debate de conceitos entre Musk e Nicolelis, famoso neurocientista brasileiro. Nicolelis vê na automação e na inteligência artificial ferramentas de apoio ao homem. Musk aposta que a inteligência artificial superará a humana: no limite, o ciborgue poderia ser o novo “pensante”, e o humano seu auxiliar mecânico. Se prevalecer a superação do humano pelo robótico, estaríamos nos condenando a desaparecer como espécie? A “corda”, solta do apoio animal, cai no abismo.
Outro perigo é a vaidade: híbris, no sentido grego de orgulho e arrogância desmedidas. Uma falange angélica, capitaneada pelo “portador da luz”, Lúcifer, também tentou alçar-se a grandes alturas, e deu-se mal. Do nosso lado, diz o Gênesis, provamos do fruto da árvore do conhecimento, a árvore do bem e do mal e, a partir de então temos o discernimento (e a respectiva responsabilidade) pelas escolhas que fizermos. 
Diziam os gregos que “aquele, a quem os deuses querem destruir, passará a avaliar como ‘bom’ o que é mau para si. Perderá seu bom senso”.
Em Nova York foi colocada, diante do touro furioso à porta da bolsa de valores, a estátua de uma menininha corajosa. E há elogios às pencas para a intrépida criança.
Sinceramente não entendo. Entre os animais prevalece o instinto de preservação. Num caso real, o adequado seria que alguém se colocasse à frente da menina protegendo-a do touro, e ela fosse admoestada pelo comportamento insano. Estimular essa “coragem” pode ser apenas falta de bom senso e temeridade quanto à própria preservação. Parece-me um dos desvios de nossos dias.
É Páscoa, época de renascimento. Que o animal-homem, uma espécie biologicamente muito jovem, consiga ainda manter-se e aflorar, mesmo de dentro de um eventual futuro ciborgue. Boa Páscoa!
É ENGENHEIRO ELETRICISTA

domingo, 9 de abril de 2017

Google lança ferramenta de checagem de notícias falsas em buscas

Google lança ferramenta de checagem de notícias falsas em buscas Sistema vai criar etiqueta para dizer se fato contido em publicação é 'verdadeiro', 'falso' ou 'exagerado', por exemplo 07/04/2017 | 15h56 0 Por Redação Link - O Estado de S. Paulo Sistema terá etiquetas para cada notícia Sistema terá etiquetas para cada notícia Leia mais Facebook e Google lançam iniciativa para combater notícias falsas na França “Notícias falsas”: a polêmica chega ao Judiciário O Google lançou nesta sexta-feira, 7, uma nova função para seu sistema de buscas: a checagem se uma notícia é falsa. Agora, boa parte das notícias que aparecerem como resultados de buscas feitas no Google terão uma etiqueta mostrando se a notícia foi verificada por um sistema de checagem. Não será o Google, porém, quem vai cuidar da checagem dos fatos: nas etiquetas, a empresa vai mostrar as frases que podem ser verdadeiras, exageradas ou falsas, e a checagem de pessoas, empresas e organizações dedicadas ao assunto. Entre elas, estão grupos como PolitiFact e Snopes, que se tornaram conhecidos no ano passado, durante a campanha presidencial norte-americana, que foi influenciada pelo fenômeno das notícias falsas. Pouco depois da eleição, o presidente executivo do Google, Sundar Pichai, disse que "não deveria haver uma situação na qual uma notícia falsa é distribuída, de forma que estamos trabalhando pelo melhor aqui". O sistema também será aberto a jornais como The Washington Post e The New York Times – o que significa que diferentes empresas jornalísticas poderão checar o trabalho uma das outras, ou dar vereditos e impressões diferentes sobre um mesmo fato. "A checagem não será feita pelo Google, de forma que cada pessoa possa julgar como quer receber uma informação", disse a empresa, em um post em seu blog. Segundo o Google, o plano é utilizar a etiqueta de notícia falsa apenas para fatos, mais do que opiniões específicas – entre os exemplos de classificação estão "verdadeiro", "parcialmente falso" e "mentiroso".

Americanos tentam aprender a pensar 'como computador.

Americanos tentam aprender a pensar ‘como computador' Fazer abstrações e criar algoritmos para o cotidiano aumentam o interesse por ciência da computação 09/04/2017 | 05h00 0 Por Laura Pappano - The New York Times Criança deve aprender lógica de comandos Criança deve aprender lógica de comandos Leia mais Saiba como a inteligência artificial pode ser usada à favor do direito Homem e máquina disputam o coração dos ouvintes de streaming de música The Beauty and Joy of Computing (A Beleza e Alegria da Computação, em tradução livre), o curso que ajudou a conceber na Universidade da Califórnia em Berkeley, o professor Daniel Garcia explica um conceito importantíssimo em ciência da computação – a abstração – com ajuda de milk-shakes. “Em um livro de receitas, você não vai encontrar um milk-shake de morango. O que há é uma receita de milk-shake geral, com sorvete, leite e uma fruta à escolha do leitor”, explica o professor. “A ideia da abstração é esconder os detalhes.” A abstração requer o reconhecimento de padrões e a destilação da complexidade num resumo preciso e claro. É um método que permite melhorar aspectos de sistemas complexos sem compreender e dominar cada parte. Esta é uma ideia útil que, junto com outras ideias da ciência da computação que também são úteis, deixa as pessoas curiosas para saber mais. É óbvio que os computadores se tornaram parceiros indispensáveis na solução de problemas, para não mencionar companheiros pessoais. Mas, de repente, não basta ser um usuário fluente de interfaces de software. Compreender o que está por trás da “mágica dos computadores” agora parece crucial. Em particular, o “pensamento computacional” está cativando educadores – de professores de jardim da infância a professores universitários – oferecendo uma nova linguagem e orientação para lidar com problemas em outras áreas da vida. Desde 2011, o numero de cursos de graduação em ciência da computação mais que dobrou, segundo a Computing Research Association. Nas universidades Stanford, Princeton e Tufts, a ciência da computação é agora o curso mais popular. Não é só: a PBS, rede americana que já exibiu programas como Vila Sésamo, está usando dinheiro da Fundação Nacional da Ciência dos EUA para ajudar a desenvolver um programa para crianças de 3 a 5 anos em que quatro macacos se metem em apuros e depois “saem das trapalhadas aplicando o pensamento computacional”, disse Marisa Wolsky, produtora executiva de mídias para crianças. “Vemos isso como um currículo inovador que ainda não está sendo feito.” Evolução. O pensamento computacional não é novo. Seymour Papert, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), usou o termo em 1980 para idealizar como crianças poderiam usar computadores para aprender. Em 2006, a então professora da Universidade Carnegie Mellon, Jeannette M. Wing, escreveu um artigo chamado “Pensamento Computacional”. Em um momento de vacas magras para a área de ciência da computação, o artigo serviu como um renascimento. Do mesmo modo como a teoria da evolução de Charles Darwin é usada para explicar política e negócios, Wing defendeu o uso amplo de ideias da computação. E não só no trabalho. Aplicando o pensamento computacional, “podemos melhorar as eficiências de nossas vidas diárias”, disse ela numa entrevista, “e nos tornarmos um pouco menos estressados.” Entre as principais habilidades que se pode aprender com o pensamento computacional estão reconhecer padrões e sequências, criar algoritmos, idealizar testes para descobrir erros, reduzir o geral ao específico – e vice-versa. Outro exemplo divertido é o “pipelining”: permitir que a ação seguinte numa sequência comece antes que a primeira complete a sequência. Pense numa fila de bufê de alimentação. “Quando se vai a um restaurante por quilo, veem-se garfos e facas na primeira estação”, disse ela. “Acho isso uma chatice. A gente não deveria ficar equilibrando o prato enquanto segura garfo e faca.” O pensamento computacional, disse ela, pode ajudar numa tarefa básica como planejar uma viagem – desdobrando-a em reserva de voos, de hotéis, de aluguel de carro – ou ser usado “para algo tão complicado como assistência médica ou tomada de decisões políticas”. Identificar subproblemas e descrever sua relação com o problema maior permite um trabalho objetivo. “Quando se tem interfaces bem definidas”, diz ela, “pode-se ignorar a complexidade do resto do problema”. Concorda com ela o professor Mark Guzdial, da Universidade Georgia Tech. “Resolver problemas com computadores é o que fazemos todos os dias”, disse ele. Como tornar as habilidades amplamente acessíveis é “um desafio interessante”. /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Temos que continuar a fazer o que fazemos: contar boas histórias

Para especialista, na era das notícias falsas, os jornalistas precisam insistir em informação de qualidade e análise 0 08 Abril 2017 | 16h00 O pesquisador Rick Edmonds, do Poynter Institute, na Flórida, acompanha a adaptação dos jornais ao mundo digital há mais de uma década. Para ele, a internet alterou a relação dos leitores com as fontes de informação e trouxe o desafio de ensinar o público a reconhecer o jornalismo de qualidade. Nesta entrevista, Edmonds discute o papel da mídia e das empresas de tecnologia para reduzir a disseminação de notícias falsas. Como distinguir notícia falsa de jornalismo de qualidade? O primeiro componente é que ele é baseado em fatos. E essas informações são cuidadosamente checadas. Não é apenas pegar o que alguém disse a você e publicar. É preciso verificar e analisar criticamente esses fatos. Um terceiro ingrediente é que o conteúdo seja apresentado de forma acessível aos leitores e seja relevante para a vida deles, não importa em que área seja. Nem é preciso dizer que há muita coisa circulando hoje que não tem uma dessas qualidades ou mesmo nenhuma delas. Qual o papel do jornalismo nesse novo mundo digital? Antigamente, os jornais realmente eram os guardiões da informação. Mas o mundo digital destruiu os muros. Há muitas fontes de informação à disposição e muitas maneiras de espalhar sua mensagem pelo mundo sem ter de passar por um veículo de comunicação. Políticos, integrantes de forças policiais, empresas têm hoje formas diretas de chegar até o público. Esse é o coração da transformação digital. Como os veículos de comunicação podem participar desse diálogo? É impossível colocar todo esse conteúdo de volta na garrafa. O melhor conselho que ouvi nesse sentido veio de Martin Baron, editor do Washington Post. Ele diz que, basicamente, temos de continuar fazendo o que fazemos, jornalismo de qualidade. Contar boas histórias e divulgá-las ostensivamente. Qual o papel das empresas de tecnologia nesse contexto? Google e Facebook têm assumido, ainda que tardiamente, que são parte do problema de disseminação de informações inverídicas e estão se colocando à disposição para fazer o que for possível para suprimir conteúdos falsos ou pelo menos avisar os usuários sobre a falta de credibilidade. Essas empresas têm procurado parcerias com instituições como o Poynter para incentivar programas de checagem de dados e treinar pessoas. O Poynter é proprietário do Tampa Bay Times, que criou o Politifact (primeiro serviço para checar a veracidade do que os políticos estavam falando). Com essas iniciativas, as empresas querem que voluntários sejam capazes de dizer o que é ou não falso. Isso, no fundo, é assumir apenas parte da responsabilidade sobre o problema. O que a imprensa pode fazer para esclarecer os leitores sobre o risco das fake news? Alguns diriam que saber ler notícias é exercer um tipo de pensamento crítico, e o pensamento crítico é a ferramenta adequada para que adultos se engajem na vida pública. É possível ensinar isso na escola, se houver vontade e tempo. Falar desse assunto com adultos é mais difícil, porque não é uma boa campanha de marketing dizer: ‘Você não sabe do que está falando, deixe eu dizer a você’. Mas sinto que muitas pessoas precisam de ajuda para navegar nesse mar de informações. A proliferação de fake news e a eleição de Donald Trump, de fato, fizeram aumentar o número de assinantes dos principais jornais americanos. A principal associação de jornais nos Estados Unidos tem batido na tecla de que é preciso procurar uma fonte confiável de informação, em qualquer plataforma. Quem é Rick Edmonds Analista de negócios de mídia do Poynter Institute Publicado na edição de 9 deabril de 2017 Formado em Harvard, começou a carreira como repórtesno Philadelphia Inquirer, onde foi finalista do Prêmio Pulitzer de reportagem em 1982. Coordena Conferências sobre temas como a publicidade e dop jornalismo na era digital.