sábado, 26 de novembro de 2016

uso corret0 da língua portuguesa


Por que, porque, porquê, por quê: empregue corretamente cada forma

Por Thaís Nicoleti

Porque, porquê, por que, por quê. Quatro grafias para o mesmo som, ou seja, um convite à confusão. Com um pouquinho de atenção, no entanto, você vai perceber que é muito simples distinguir uma da outra.
Porque, uma só palavra, sem acento, só se emprega como conjunção, ou seja, para ligar duas orações. Grosso modo, pode-se dizer que as conjunções explicitam as relações semânticas entre as ideias. “Porque” encabeça uma oração que exprime a causa ou a explicação de outra. Lembre-se de que causa é aquilo que provoca determinado fato, o que é diferente de explicação.
Dessa forma, temos “porque” como conjunção subordinativa causal (aparece em uma oração subordinada) e “porque” como conjunção coordenativa explicativa (aparece em uma oração coordenada). Quando falamos em subordinação e coordenação, estamos no domínio da sintaxe, ou seja, falamos do conjunto de relações entre as partes do texto. Como se vê, a conjunção exprime, mais do que relações semânticas, relações sintático-semânticas.
Muito bem. Nosso objetivo aqui é a ortografia, portanto, por ora, basta identificar a situação em que “porque” é uma conjunção (causal ou explicativa, tanto faz).
Veja os célebres versos de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa:   Adão portugues em foco
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
Nesse verso, “porque” é uma conjunção, pois liga duas orações, cada qual em um verso do poema. O fato de não ser o rio que corre pela aldeia do “eu lírico” é a causa de o Tejo não ser mais belo que o rio que corre pela sua aldeia. O raciocínio tem algo de capcioso, mas mostra que o belo é subjetivo, filtrado pela emoção.
É também a conjunção “porque” que aparece na canção dos Titãs “Porque Eu Sei que É Amor”. Observe que a causa aparece antes do fato principal. O autor da letra poderia ter dito “Sei que cada palavra importa porque eu sei que é amor”. A inversão, porém, confere ênfase a esse verso, que se repetirá e dará título à canção.
Nessa mesma letra, encontramos a substantivação dessa conjunção, ou seja, o porquê com acento. Essa grafia, acentuada, indica que a palavra é um substantivo. Pode, então, ser substituída por sinônimos como motivo ou causa.
Porque eu sei que é amor,/ Eu não peço nada em troca/ Porque eu sei que é amor,/ Eu não peço nenhuma prova
Mesmo que você não esteja aqui,/ O amor está aqui/ Agora/ Mesmo que você tenha que partir,/ O amor não há de ir/ Embora
Eu sei que é pra sempre/ Enquanto durar/ E eu peço somente/ O que eu puder dar
Porque eu sei que é amor,/ Sei que cada palavra importa/ Porque eu sei que é amor,/ Sei que só há uma resposta
Mesmo sem porquê, eu te trago aqui/ O amor está aqui/ Comigo/ Mesmo sem porquê, eu te levo assim/ O amor está em mim/ Mais vivo
Eu sei que é pra sempre/ Enquanto durar
Note que o “porque” causal pode ser substituído por “como” quando a oração está antes da principal, exatamente como ocorre nesses versos. Seria possível dizer “Como eu sei que é amor, eu não peço nada em troca”, “Como eu sei que é amor, eu não peço nenhuma prova”, “Como eu sei que é amor, sei que cada palavra importa”, “Como eu sei que é amor, sei que só há uma resposta”, mantendo o sentido de “porque”. Na passagem “mesmo sem porquê”, temos o substantivo, daí o acento circunflexo. Poderíamos dizer “mesmo sem motivo“. Na condição de substantivo, “porquê” admite anteposição de artigo e flexão de número, portanto podemos dizer, por exemplo, que cada um tem seus porquês (isto é, suas razões ou seus motivos) ou que o porquê de uma atitude nem sempre é claro (o porquê de = o motivo de).
INTERROGAÇÃO DIRETA E INTERROGAÇÃO INDIRETA
Por que é um advérbio interrogativo de causa, que serve para introduzir uma pergunta de natureza causal. Veja um exemplo, extraído do “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade:
Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco?
Esse é o caso típico do “por que” da pergunta, pois aparece em uma interrogação direta, com ponto de interrogação no final. Nem sempre, porém, esse advérbio vai introduzir perguntas diretas. É ainda ele que se emprega nas chamadas interrogações indiretas (sem o ponto de interrogação). Quando dizemos, por exemplo, que gostaríamos de saber por que alguma coisa ocorreu, estamos, de modo indireto, fazendo uma interrogação. É, portanto, o mesmo advérbio (“por que”) que se emprega na frase. Geralmente pode ser substituído pela expressão “a razão pela qual”. Gostaria de saber a razão pela qual algo ocorreu. É a grafia “por que” (em duas palavras) que se se usa no verso da canção “Lenha”, de Zeca Baleiro.
Eu não sei dizer/ o que quer dizer/ o que vou dizer
Eu amo você,/ mas não sei o que/ isso quer dizer
Eu não sei por que/ eu teimo em dizer/ que amo você
se eu não sei dizer/ o que quer dizer/ o que vou dizer
Se eu digo pare,/ você não repare/ no que possa parecer
Se eu digo siga,/ o que quer que eu diga/ você não vai entender,
mas se eu digo venha,/ você traz a lenha/ pro meu fogo acender
No trecho “Eu não sei por que eu teimo em dizer que amo você”, podemos substituir “por que” por “a razão pela qual” (Eu não sei a razão pela qual eu teimo em dizer que amo você). Esse advérbio “por que”, se colocado no fim da frase, ganharia um acento. Imagine que os versos de Zeca Baleiro fossem estes: Eu teimo em dizer que amo você não sei por quê.  No final do período, a chamada posição tônica,  o advérbio é acentuado.
DISTINÇÃO FUNDAMENTAL: POR QUE/ PORQUE
Aparentemente, essas  são as grafias que mais ocasionam confusão. É muito comum que as pessoas usem no lugar do advérbio “por que” a conjunção “porque”, o que pode ter origem no fato de que o advérbio interrogativo nas chamadas interrogações indiretas também encabeça uma oração. Daí a parecer uma conjunção, é um passo curto. Convém, portanto, explicar esse ponto. Será o advérbio (por que), não a conjunção (porque), a palavra que introduz uma oração cuja função é ser o objeto direto da anterior. Complicado? Nem tanto. Vamos à canção de Zeca Baleiro:
Eu não sei/ por que eu teimo em dizer/ que amo você [aqui as barras separam as orações, não os versos]
A primeira oração, “Eu não sei”, requer um complemento (o que é que eu não sei?). O complemento do verbo “saber” (o seu objeto direto) é a oração “por que eu teimo em dizer” (a razão pela qual eu teimo em dizer). Essa oração exerce a função de objeto direto da anterior, enquanto a causal (introduzida por “porque”) exerce função de adjunto adverbial de causa. O objeto direto é um termo complementar, que poderia ser substituído por um substantivo (Eu não sei alguma coisa). Essa “coisa” pode expressar-se na forma de uma oração justaposta (sem conjunção, iniciada por um advérbio). Vejamos alguns exemplos:
Eu não sei como você chegou aqui. [como = modo de chegar]
Eu não sei quando você chegou aqui. [quando = tempo, momento da chegada]
Eu não sei onde você mora. [onde = lugar em que se mora]
Eu não sei por que eu teimo em dizer [por que = motivo da teimosia]
Observe que a mesma oração (“Eu não sei”) é completada por orações iniciadas por advérbios interrogativos (“como”, de modo; “quando”, de tempo; “onde”, de lugar; “por que”, de causa). Pode-se dizer que, nesse tipo de estrutura, “por que” (advérbio) permuta com outros advérbios (como, quando, onde). Já a conjunção “porque” é empregada em outro tipo de situação. Como ela introduz um adjunto adverbial, que não é um termo complementar, a oração principal do período tende a expressar uma ideia completa. Veja um exemplo: “Ele não foi ao cinema porque se sentiu mal”. [Ele não foi ao cinema – ideia completa/  porque se sentiu mal – circunstância de causa, ideia acessória, não complementar].
PORTUGUÊS BRASILEIRO E PORTUGUÊS EUROPEU
Existe diferença de grafia entre o registro brasileiro e o português no que se refere ao emprego dessas duas formas. O advérbio interrogativo de causa, que aqui se grafa em duas palavras, em Portugal é escrito como uma só palavra. Diga-se que o sistema de lá é mais sensato nesse ponto. Veja um exemplo, no célebre soneto de Camões “Busque Amor novas artes, novo engenho”:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n’alma me têm posto
um não sei quê*, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
Observe como o “porquê” final é um advérbio (como “onde” e “como”). Na grafia portuguesa, é uma palavra só e recebe o acento por estar na posição tônica. Na grafia brasileira, teríamos “dói não sei por quê”.
OUTROS USOS
Por que, em duas palavras, também pode ser equivalente a “pelo qual” (e flexões). Assim: “O ideal por que lutamos é a liberdade” equivale a “O ideal pelo qual lutamos é a liberdade”.  Nesse caso, temos a preposição “por” seguida do pronome relativo “que” (o pronome relativo é responsável pela retomada de um termo já mencionado e deve ser antecedido de preposição se a regência de um verbo ou nome assim o exigir). Veja alguns exemplos:
Essa era a explicação de que eu precisava. [precisava de – de que precisava]
Esse foi o filme a que eu assisti. [assisti a – a que assisti]
Aqui está a mala com que ela viajou. [viajou com – com que viajou]
Aquela era a causa por que lutava. [lutava por – por que lutava]
Por que também pode ser a preposição “por” seguida do pronome indefinido “que”, o que ocorre em situações como estas: Por que caminho você veio? [por qual caminho] ou Não sei por que motivo ela não veio [por qual caminho].  O encontro da preposição “por” (regida por um verbo ou nome) com a conjunção integrante “que” (a que introduz as orações substantivas) é outra estrutura em que teremos a grafia “por que”: Ansiava por que aquela viagem terminasse logo [ansiava por algo/ algo = que aquela viagem terminasse logo].
DÚVIDAS FREQUENTES
Em títulos jornalísticos, é comum observarmos o emprego de “por que” em interrogativas indiretas elípticas. Vejamos um exemplo:
Por que as mulheres devem amamentar os bebês
Esse tipo de construção intitula um artigo em que se discorre sobre as razões pelas quais as mulheres devem amamentar os bebês. Em outras palavras, caberá ao texto responder à interrogação indireta representada pelo título, que aqui chamei de elíptica, pois nela se subentende uma oração principal que configuraria uma estrutura do tipo “Saiba por que as mulheres devem amamentar os bebês”. É comum as pessoas hesitarem quanto à pontuação desse tipo de frase. Costumam perguntar se caberia um ponto de interrogação. A resposta é “não”, exatamente por se tratar de interrogação indireta.
O acento de “por quê” é outra dúvida frequente. A  regra é que seja empregado quando a palavra aparece em posição tônica, ou seja, antes de pausa forte (representada por ponto final, ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências), ou seja, no fim do período. Ocorre, porém, que, antes das orações coordenadas adversativas (aquelas introduzidas pelo “mas”), ocorre uma pausa enfática que autoriza o emprego do acento, dado que a pronúncia se torna tônica. Assim: Não sei por quê, mas isso não me agrada.
Esse acento não se usa apenas em “por quê”. O princípio se estende ao “que” posto em posição tônica. Assim: Você vai comprar isso para quê? Vou usar esse chapéu não sei com quê. Vale lembrar aqui que o “que” pode sofrer o processo de substantivação e, nesse caso, também será acentuado (Seu olhar evocava um quê de mistério). Na expressão “não sei quê”*, usa-se o acento.
A conjunção porque pode aparecer em orações interrogativas. Isso ocorre quando a pergunta incide sobre a relação de causa e efeito, não sobre a causa em si, de modo que a resposta será na forma de “sim” ou “não”. Veja um exemplo: “Você não veio ao escritório ontem porque estava doente?”. Nesse caso, quem pergunta quer confirmar a relação de causa e efeito (foi esse o motivo de sua ausência?). A essa pergunta respondemos “sim” ou “não”. É diferente de perguntarmos “Por que você não veio ao escritório?”. Agora, indagamos a causa, empregando, portanto, o advérbio interrogativo de causa.














segunda-feira, 14 de novembro de 2016

grandes lojas escondem taxas dos consumidores

Grandes lojas ‘escondem’ taxa de compras a prazo

Pesquisa da Proteste mostra que redes de varejo não informam claramente custo total do parcelamento
Malena Oliveira, Paula Pauli, especial para O Estado,
O Estado de S.Paulo
14 Novembro 2016 | 06h00
 
 
A maioria das grandes lojas de eletrônicos e eletrodomésticos não expõe de forma clara as despesas para adquirir um produto a prazo. Essa é a conclusão de um estudo da associação de consumidores Proteste, que visitou lojas e sites dessas redes para avaliar o cumprimento de uma norma de 2008 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que diz que o Custo Efetivo Total (CET) precisa estar explícito para o cliente.
O indicador, que aparece em valor porcentual na simulação do parcelamento, facilita a comparação entre financiamentos ao resumir os custos relacionados a juros, taxas de análise de crédito, seguros e outros encargos.
“A informação faz com que o cliente não seja induzido a erros ao calcular o valor do produto”, diz Marcos Augusto Vazão, professor de Direito do Consumidor da Faculdade Autônoma de Direito (FADISP). Mas ele explica que o dado passa batido por muitos na hora das compras.
A Proteste visitou a Casas Bahia, Fast Shop, Pontofrio, Ricardo Eletro e os hipermercados Carrefour e Walmart. Também acessou os sites de Americanas.com, Shoptime e Submarino e analisou materiais publicitários. Nas visitas, a associação verificou se os produtos continham informações sobre o CET, se os lojistas tinham conhecimento da norma e se sabiam como calculá-lo.
Na consulta, apenas a rede de supermercados Walmart e os sites Americanas.com, Carrefour, Shoptime e Submarino informam de forma clara e legível o CET em todos os produtos que podem ser parcelados. Já as lojas físicas de Pontofrio e Casas Bahia divulgam a taxa, mas em letras minúsculas. A Fast Shop destaca os encargos financeiros em porcentuais anuais, sem deixar claro que se referem ao CET, enquanto as lojas físicas do Carrefour divulgam apenas as taxas do cartão da marca.
Os funcionários e lojistas não souberam informar o que era o CET ao serem questionados pela Proteste. Quanto aos encartes publicitários, apenas o folheto do Walmart mostra o CET nas ofertas de parcelamento dos produtos.
Na avaliação do advogado e técnico da Proteste Weberth Costa, não é razoável que as lojas deixem de informar esse dado. “Quando não tem acesso ao CET, o consumidor não sabe ao certo os custos do que ele está contratando e não tem como fazer comparações”, diz.
Especialista em Direito do Consumidor, o advogado Carlos Alberto Leite afirma que muitos só se dão conta do valor total da compra quando a conta chega. “O argumento mais usado é que o vendedor se aproveitou da falta de conhecimento do consumidor”, diz. No entanto, as decisões na Justiça consideram que as condições do parcelamento foram aceitas quando houve o primeiro pagamento. “Nesse caso, resta apenas solicitar esclarecimentos sobre o valor cobrado”, explica Márcia Ventosa, do escritório Finocchio & Ustra Sociedade de Advogados.
Em busca do melhor preço, a analista Gabriela Bernardino compara condições de financiamento e diz nunca ter sido surpreendida com uma cobrança diferente da acertada na compra: “Procuro sempre as opções sem juros”.
Professora da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (FDSBC), Bianca Richter diz que já precisou acionar órgãos fiscalizadores por causa da falta de informação nas compras. “Como essas empresas zelam por sua reputação, a resposta costuma ser mais rápida”, diz.
Procurados pela reportagem, Carrefour e Via Varejo, dona das Casas Bahia e do Pontofrio, informam que seguem as normas estabelecidas no Código de Defesa do Consumidor e orientam seus funcionários sobre como esclarecer as dúvidas dos clientes na hora das compras. Ricardo Eletro não comenta. A Fast Shop não foi localizada.

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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

9 "verdades" que esta eleição desmente


9 “verdades” que esta eleição desmente

Fernão Lara Mesquita

4 de novembro de 2016 § Deixe um comentário
OPI-3001.eps
Artigo para O Estado de S.Paulo de 4/11/2016
1 – “Identificação biométrica e rapidez de apuração são provas do avanço da democracia brasileira”.
É exatamente o contrário. Aqui o eleitor só entra em campo depois do jogo jogado para dizer sim ou não aos escolhidos dos “caciques” dos partidos. Em democracias de verdade, como a americana, a suíça e outras, aproveita-se toda e qualquer eleição para que o eleitor decida literalmente tudo. Junto com presidentes, legisladores ou prefeitos ele elege diretamente os funcionários públicos sem função exclusivamente política tais como xerifes, policiais, promotores, diretores de escolas públicas, etc.; vota leis de iniciativa popular; referenda ou derruba leis do Legislativo; autoriza ou não impostos novos ou aumentados; aprova ou não a contratação de dívida; confirma ou não o mandato do juiz da sua comarca; vota o “recall” ou não de funcionários eleitos na eleição anterior. Para a eleição da semana que vem 162 temas adicionais, 71 propostos por abaixo-assinados de cidadãos comuns, foram certificados em 35 estados para constar das cédulas pedindo decisão dos eleitores de Trump ou Hillary. Por isso 30 milhões deles já receberam suas cédulas com um mês de antecedência e as vão enviando preenchidas pelo correio. Por isso demora para apurar eleições em democracias de verdade.
OPI-3001.eps
2 – “A política não se renova porque brasileiro não sabe votar”.
Essa afirmação toma o efeito por causa. O povo elege o de sempre porque só consegue autorização para se apresentar como candidato quem se compõe com os donos dos partidos. Por isso reforma política pra valer inclui necessariamente um ponto chave da que os americanos fizeram lá atrás. Tornar as eleições municipais apartidárias para quebrar as pernas dos “caciques” (cujo poder passaria do controle dos 5.570 potenciais “currais” municipais de hoje para apenas 27 estruturas estaduais) e abrir as portas da política à entrada de sangue novo. Qualquer um pode se candidatar a prefeito ou vereador sem pedir licença a ninguém.
3 – “Ha partidos vitoriosos nesta eleição”.
Esta foi a eleição do “não”. “Eu não voto mais”, “Eu não voto no PT”, “Eu não voto em ladrão”, “Eu não voto em político”, etc… O mais foi consequência do controle da portaria do “Sistema”. Votou-se no que sobrou dos “não”, já era conhecido ou pôde botar a cara na TV pra mostrar que existia, o que vale dizer estar num partido grande e velho. Ponho a mão no fogo como 99% dos eleitores não sabe em que partido votou ou, se lembra, não sabe nem a tradução da sigla daquele em que acabou votando, mesmo dos tradicionais.
OPI-3001.eps
4 – “A ideologia move a polarização esquerda x direita”.
Nem os presidentes dos partidos conseguem definir esquerda e direita. Mas um grande divisor de águas aparece nítido no Brasil como no resto do mundo, especialmente o latino: ser contra ou a favor da austeridade fiscal. Só que não é uma fronteira ideológica, é fisiológica: de um lado pena a massa que paga a conta, trabalhando dobrado e ganhando a metade; do outro entrincheira-se a “casta” que é paga pela conta trabalhando a metade e ganhando dobrado. É essa que, sentindo-se agora ameaçada, quebra-quebra e queima pneus por aí porque as TVs lhes deram a dica de que esse é o jeito do seu “Dane-se a miséria nacional, ninguém toca no meu!” alcançar mais que as esquinas que já não conseguem encher de gente e soar como o contrário do que é.
5 – “É impopular encarar de frente os problemas mais velhos e óbvios do Brasil”.
Se ha algo que ficou bem definido nesta eleição é que quanto mais assertivo foi o candidato em relação a eles – necessidade de ajuste, privatização, desmonte da corrupção de sindicatos e partidos com dinheiro de imposto, fim da chantagem trabalhista e dos “marajalatos” – mais fulminante foi sua eleição e a distância aberta em relação ao oponente, não importando as “tradições” das praças envolvidas. João Dória e Nelson Marchezan são os exemplos mais visíveis mas não os únicos.
OPI-3001.eps
6 – “Existe um preconceito de gênero”.
O número de prefeitas e vereadoras eleitas caiu apesar da “cota” de 30% de candidatas imposta por aquele mesmo pessoal que, conforme a hora, nos diz que “não existe gênero” senão o que cada um escolhe para si. Quem escolheu não eleger seu prefeito ou vereador só por esse atributo foi a metade feminina do eleitorado brasileiro ou, se quiserem, os 100% “sem gênero definido pela natureza” que acabam de aprender, com Lula e Dilma, que pôr alguém para cuidar da coisa pública só por ser mulher é um tipo de oportunismo para enganar trouxa que em geral acaba em desastre.
7 – “Lula ainda é uma força para 2018”.
Nesta campanha “ter apoio de Lula” passou a ser a “denúncia” atirada por candidatos “de esquerda” contra candidatos “de esquerda”. Em quem colou não sobrou nada…
OPI-3001.eps
8 – “Basta melhorar a gestão pro Brasil ir pra frente”.
Foi-se o tempo! Agora o setor público está que não tem nem pra lavar o chão do IML, como no Rio, e a economia privada, em choque hemorrágico, não tem mais com que se reerguer, mas a reforma da Previdência de que se fala não toca nos “marajás“, só põe dinheiro no caixa no futuro distante e a PEC 241 nem menciona o rombo de estados e municípios. A briga em torno de quem vai pagar essa conta (na qual as denuncias da Lava-Jato serão as armas nos bastidores) nem começou ainda.
9 – “O Brasil é uma democracia”.
Da democracia não temos nem o elemento definidor que é o império da lei igual para todos. Na raiz do presente desastre estão os privilégios legalizados e direitos “adquiridos” que “foros especiais” podem tornar até hereditários, como na Idade Média. Sem um direito só pra todo mundo não tem saída. E pra chegar lá tem de por o povo no poder, o que se faz submetendo os eleitos aos eleitores antes e depois da eleição, com prévias transparentes para escolha dos candidatos e “recall” para a troca dos que, eleitos, “apresentarem defeito”. Sem isso “O Sistema” continuará para sempre indomesticável, cavalgando impunemente o lombo do povo.
OPI-3001.eps

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