segunda-feira, 28 de maio de 2012

Evolução? Mudança!

Evolução? Mudança!

A partir da falsa dicotomia língua primitiva X língua sofisticada, o linguista Sírio Possenti reflete sobre as adaptações da língua em diferentes sociedades, que adotam critérios próprios, de acordo com seu gosto e suas necessidades.
Por: Sírio Possenti
Publicado em 25/05/2012 | Atualizado em 25/05/2012
Evolução? Mudança!
A ideia de que as línguas evoluem – no sentido de se tornarem mais sofisticadas e complexas – já caiu por terra. Pode-se até falar em evolução, mas no sentido de mudanças e adaptações, defende linguista. (montagem a partir de Acid Pix/ Flickr – CC BY 2.0)
Durante algum tempo (no século 19, basicamente, mas é incrível como o tempo ideológico não passa!) acreditou-se que as línguas evoluem. Segundo o sentido mais comum da palavra, defendeu-se que haveria línguas primitivas, precárias (crença que ainda persiste em muitos domínios). Elas seriam faladas por sociedades também primitivas. Ambas evoluiriam, tornar-se-iam mais sofisticadas, adquiririam mais recursos, capazes de permitir a expressão de formas de pensamento mais complexas.
A tese caiu por terra em decorrência de dois argumentos: a) a análise das línguas ditas primitivas por gente que sabia o que estava fazendo mostrou que não há línguas primitivas, se elas forem consideradas ‘em si’, isto é, objetivamente, e em cada um de seus subsistemas (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica); b) a comparação com as línguas ditas civilizadas mostrou claramente que certos subsistemas (como o dos casos) são partilhados por línguas ditas de civilização e línguas ditas primitivas. Portanto...
Na verdade, um terceiro argumento foi muito relevante: o latim e o grego, línguas altamente flexionais, sempre foram considerados exemplos de línguas ‘evoluídas’. Ora, essa avaliação deveria fazer com que o inglês fosse considerado ‘primitivo’, já que praticamente não tem flexões (poucas de número, nenhuma de gênero, pessoas verbais quase invariáveis etc.). Ora, considerada a ‘produção’ em inglês – literária, filosófica, científica etc. –, a tese é completamente insustentável. Portanto...
Os estruturalistas descobriram que cada sistema deve ser analisado imanentemente, sem comparação com outros (também em antropologia). Mas mesmo as comparações com outros sistemas destruíram a hipótese de que há línguas mais avançadas do que outras, qualquer que seja sua função (falar das coisas, produzir conceitos, narrar, fazer poesia ou chistes etc.).
Cada falante típico de uma língua como o inglês conhece o mesmo número de palavras que conhece um falante de uma língua como o kaigang
O que pode ‘faltar’ em certas sociedades são certas instituições, que agenciam as línguas de maneiras específicas: a escrita, a literatura, a ciência, o direito, a filosofia etc. Mas, mesmo assim, as análises mostram que nenhuma delas afeta o cerne estrutural das línguas. A zona mais afetada é o léxico, mas ele não faz parte da ‘estrutura’ da língua e seu maior ou menor incremento depende de parâmetros externos a ela.
Certamente, nenhuma língua falada em sociedades nas quais essas instituições não existem pode ter tantas palavras quanto o inglês ou mesmo o português, cujos dicionários registram não só as proferidas por comunidades quase ‘isoladas’ – digamos, os falantes de um estado –, mas todas as já registradas, mesmo as específicas de certas comunidades (cientistas, por exemplo) e mesmo as que ninguém mais fala ou mesmo escreve. Cada falante típico de uma língua como o inglês emprega/conhece o mesmo número de palavras que emprega/conhece um falante de uma língua como o kaigang, por exemplo.
Curiosamente, a tese de que as línguas evoluem, acompanhando a evolução (progresso, complexidade?) das sociedades, convive com a tese de sua decadência. Uma das afirmações mais repetidas é que as línguas estão empobrecendo, são cada vez mais mal faladas, que as regras “que aprendi na escola com minha professora” não são mais seguidas, que se introduzem novas formas desnecessárias, que o patrimônio linguístico está sendo destruído, que as escolas não podem despejar analfabetos com diplomas (nem ensinar regras erradas!) etc.
As queixas podem ser legítimas, mas são externas à língua. São de cunho social. De fato, são da ordem da etiqueta, que tem valor cultural, é óbvio, mas exatamente como tal. 
Poço
A tese de que as línguas evoluem convive com a de sua decadência. Diz-se que elas são cada vez mais mal faladas e que o patrimônio linguístico está quase no fundo do poço. As queixas podem até ser legítimas, mas são externas à língua. (foto: Cataclasite/ CC BY-SA 3.0)

Pode lá, mas não cá

É evidente que a língua é um patrimônio cultural importante. Mas é evidente também que as línguas não pioram. Elas só mudam. Ou evoluem, mas em outro sentido da palavra: adaptam-se às circunstâncias, às necessidades da sociedade que a fala/escreve. As mudanças são maneiras alternativas de expressar conteúdos, de significar, e também de organizar uma língua.
Muito frequentemente, variedades menos valorizadas de uma língua seguem aspectos da gramática valorizados (ou nunca criticados) de outra. Dou dois exemplos: o português ‘caipira’ adota uma conjugação verbal muito semelhante à do inglês, com pouquíssimas flexões.
As mudanças são maneiras alternativas de expressar conteúdos, de significar, e também de organizar uma língua
Analisando canções ou causos que têm essa origem, pode-se depreender uma conjugação como “eu faço, você/ele/a gente/vocês/eles faz”. O fato pode chocar pessoas letradas, mas pouco curiosas. Se forem mesmo letradas, saberão um pouco de inglês, e este pouco inclui uma conjugação ‘simplificada’ (e também you tanto para você quanto para vocês e senhor/senhora!).
Além disso, saberão da regra (a lei, o fato) segundo a qual os verbos são sempre precedidos pelo sujeito. Ora, esta segunda característica (uma regra sintática) é seguida também pelos falantes ‘caipiras’, que nunca iniciam uma frase com algo como ‘faz’ (exceto para responder a uma pergunta ou dirigir-se diretamente ao interlocutor, como os falantes de inglês), sempre usam “nós/vocês faz”. Ou seja: a maior ou menor presença do sujeito é condicionada pelo menor ou maior número de flexões verbais.
Outro exemplo são construções como “sair para fora/entrar para dentro; subir para cima/descer para baixo”, condenadas como exemplos de ignorância. Ora, o inglês está cheio de verbos seguidos de preposições (come in, sit down, take off, pack on / in / off etc.). A ‘regra’ é a mesma. Diferente é só a avaliação social.
Isso significa que se ‘deve’ aceitar essas construções em português? Provavelmente não, pelo menos no jornal culto, na revista de classe média e na literatura não regionalista. Mas esta é uma decisão de ordem social, de classe, que leva em conta valores associados à elegância e à cultura ‘de salão’.
É uma decisão mais ligada ao campo cultural do que à estrutura da língua. É uma questão de gêneros textuais mais que de gramática. Uma decisão mais editorial do que gramatical ou factual.
Dir-se-á que as construções são redundantes. É claro. Mas a redundância não é bem-vinda em construções como “Talvez chova” (com duas marcas de possibilidade) ou “os livros estão caros” (com quatro marcas de plural)?
O fato é que uma a língua (culta ou não) pode seguir critérios diferentes numa e noutra época, numa e noutra latitude
O fato é que uma a língua (culta ou não) pode seguir critérios diferentes numa e noutra época, numa e noutra latitude. O que indica a fortíssima imbricação do sistema da língua (na verdade, dos sistemas que convivem na língua) e dos valores sociais e históricos.
As semelhanças levaram uma das mais prestigiadas teorias contemporâneas da linguagem (o gerativismo) a enfatizar o que é idêntico ou universal nas línguas do mundo, ao contrário do estruturalismo, que enfatizava o que é específico de cada língua ou família linguística.

Sírio PossentiDepartamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

terça-feira, 22 de maio de 2012

a era do zettabyte


Chegou a era do zettabyte

19/05/2012
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Publicada em 20 de maio de 2012
Ethevaldo Siqueira
O mundo está diante de um verdadeiro tsunâmi de informações. O volume global de dados produzidos ou replicados em 2011, por exemplo, chegou a 1,8 zettabyte, segundo o International Data Corporation (IDC).
Mas que é um zettabyte? A pergunta tem sentido. Para respondê-la, nada melhor do que recorrer a algumas comparações. Meu computador tem um disco rígido (HD) com capacidade para armazenar um terabyte, ou mil gigabytes. Pois bem: um sistema com a capacidade de um zettabyte (ZB) poderia armazenar o conteúdo de 1 bilhão de HDs iguais ao de meu desktop. Ou preencher a capacidade de armazenamento de 75 bilhões de iPads de 16 GB.
Em números decimais, um zettabyte equivale, a grosso modo, a 1 sextilhão de bytes, que, em notação científica, poderia ser escrito assim: 1021 bytes – ou seja, 10 elevado à 21ª potência. Em notação binária, seria 270 – quer dizer, 2 elevado à 70ª potência.
Uma questão essencial de nosso tempo é, portanto, o crescimento exponencial do volume de informações produzido no planeta. Nos últimos cinco anos, esse volume foi multiplicado por nove. E, segundo o mesmo IDC, em 2020, deverá chegar a 35,2 zettabytes, um terço dos quais estará na nuvem ou passará por ela.
Novos desafios
Para alguns especialistas, o mundo vive a era do zettabyte, que traz novos e crescentes desafios, tanto em projetos especializados quanto em áreas de instalação e gerenciamento de infraestrutura de armazenamento em ambientes virtuais, do crescimento exponencial de armazenamento, da segurança e redundância de dados (backup) e da recuperação de informações (recovery), entre outras.
Nessa nova era, a explosão de dados, de todas as origens, ganha o nome de Big Data. As novas opções de armazenamento, por sua vez, deram origem à computação em nuvem. É nessas duas áreas que se situa um dos maiores desafios para o Brasil e para o mundo: a carência de profissionais. O Instituto McKinsey Global, por exemplo, prevê que, em 2018, faltarão entre 140 mil e 190 mil profissionais nos Estados Unidos.
Programa acadêmico
Para minimizar esse problema, diversas corporações têm colaborado com programas acadêmicos, de que é exemplo o EMC Academic Alliance, que já alcança 81 universidades, no Brasil e no mundo, e foi criado pela EMC, uma das maiores empresas mundiais de armazenamento de dados.
Eduardo Lima, gerente do programa no País, explica que “esse crescimento contínuo e acelerado na produção de dados gera uma demanda por profissionais capacitados em armazenamento e computação em nuvem, que hoje são raros no mercado”. Essa demanda por profissionais dessa área, na realidade, sempre existiu. Mas nunca foi razoavelmente atendida.
Como ressalta Sandro Melo, coordenador do curso de redes de computadores da BandTec – a faculdade de tecnologia da informação (TI) do Colégio Bandeirantes –, “a adoção da disciplina Armazenamento e Gerenciamento de Informações na grade curricular tem como objetivo capacitar os alunos para essa enorme demanda de mercado; assim, o estudante, ao se formar, sairá da faculdade com um diferencial profissional”.
No Brasil, o programa EMC Academic Alliance é oferecido gratuitamente às universidades cujos cursos de TI sejam reconhecidos pelo Ministério da Educação e ofereçam a primeira graduação (bacharel e/ou tecnólogo). Além da disciplina Armazenamento e Gerenciamento de Informações, o programa oferece três cursos gratuitos para alunos e professores: Cloud Computing, Backup e Data Science.
O novo engenheiro
Desde a metade da década passada, o professor Joseph Bordogna, então diretor da National Science Foundation dos Estados Unidos, já vinha sugerindo que o engenheiro do século 21 precisaria familiarizar-se com os conceitos de teraescala, nanoescala, complexidade, cognição e holismo. E, além de conceituar essas matérias, ele dava exemplos de como elas poderiam ser úteis ao engenheiro deste século.
Teraescala sugere a idéia de ordens de grandeza gigantescas. Na computação do passado, as arquiteturas de sistemas lidavam com centenas de processadores. No mundo virtual de hoje, trabalham com milhões.
Nanoescala traduz a ideia exatamente oposta à de teraescala, ou seja, ordens de grandeza muito pequenas, como nanossegundo, nanômetro, nanotecnologia. Aliás, num futuro próximo, a evolução da nanotecnologia nos permitirá manipular a matéria, átomo por átomo, molécula por molécula.
Complexidade, no sentido tecnológico, refere-se à extrema diversidade de elementos. Para lidar com situações de elevada complexidade, os cientistas criaram até uma especialidade chamada engenharia do caos, cujos recursos lhes permitem controlar situações próximas da desordem total.
Cognição, como diz o dicionário, é a aquisição do conhecimento ou, mais precisamente, o processo mental pelo qual adquirimos conhecimento. Para o professpr Bordogna, a atual revolução da informação tende a tornar-se insignificante diante da emergente revolução do conhecimento.
Holismo, na acepção usada por Bordogna, é “o conceito que nos diz que uma entidade pode ser maior do que a simples soma de suas partes”. Ou que nos permite juntar coisas aparentemente díspares num conjunto muito mais coerente, inclusive em sistemas sociais, físicos ou de engenharia virtual.
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