domingo, 29 de abril de 2018

Desenvolvimento de vacinas e Ética

Fernando Reinach

Cientistas são forçados a enfrentar dilemas éticos. Os testes com vacinas em desenvolvimento são um deles.
Cientistas são forçados a enfrentar dilemas éticos. Em um caso recente, os experimentos necessários para o desenvolvimento de uma vacina contra a zika foram proibidos. Para desenvolver um imunizante, seres humanos têm de correr riscos.
Primeiro, cientistas manipulam o vírus, correndo risco de se contaminarem ou de o liberarem no ambiente. Semana passada, um cientista na Hungria foi contaminado pelo vírus ebola. O segundo passo consiste em produzir um candidato à vacina, algo que tenha o potencial de induzir o ser humano a produzir anticorpos capazes de bloquear o vírus. Esses testes são inicialmente feitos em animais de laboratório. Caso os animais desenvolvam anticorpos, eles são injetados com o vírus para comprovar que se tornaram imunes.
Aí começam os problemas. Muitos vírus humanos não causam a mesma doença em animais e o teste precisa ser repetido em seres humanos. Se a vacina for composta de vírus atenuados, a atenuação pode não ter sido suficiente e existe o risco de o voluntário desenvolver a doença. Caso o vírus seja pouco perigoso (gripe), esse cenário é aceitável. Mas, se o vírus for letal (ebola), o risco para o voluntário é alto.
A questão é sempre a mesma: em um prato da balança está o risco corrido pelos voluntários; no outro prato, o benefício da sociedade de dispor de uma vacina capaz de salvar milhões de vidas. Como essas decisões não podem ser deixadas na mão de cientistas, voluntários ou empresas, esses experimentos precisam ser aprovados pelas comissões de ética que existem nos institutos de pesquisa e hospitais.
Vamos supor agora que a comissão achou o risco para os voluntários baixo e concluiu que o potencial benefício social é suficientemente alto para justificar os riscos corridos pelos voluntários. Então os voluntários recebem a vacina. Imagine que os voluntários desenvolvam anticorpos. Como desenvolver anticorpos não é prova de que a vacina funciona, é necessário infectar os voluntários vacinados com o vírus e observar se eles contraem ou não a doença. Quando existe em algum lugar do mundo uma epidemia dessa doença, o melhor teste é vacinar a população que provavelmente vai ser infectada de qualquer maneira e tentar verificar se as pessoas vacinadas não contraem a doença. É um teste indireto, mas tem a vantagem de não injetar o vírus nos voluntários. Essa opção, apesar de lógica, é criticada, pois envolve fazer testes em comunidades muitas vezes pobres, já afetadas por uma tragédia. Novamente uma comissão de ética é responsável por colocar na balança os riscos e benefícios, aprovando ou rejeitando os testes. Imagine a dificuldade envolvida na decisão.
Mas o problema pode ser mais complicado. Imagine que a doença não exista em nenhum lugar do mundo, como é o caso do ebola atualmente. Nesse caso, para testar a vacina, é necessário injetar em pessoas vacinadas um vírus letal. Nesses casos, as comissões de ética têm bloqueado os experimentos. É por isso que, quando uma pessoa é contaminada (como esse cientista húngaro), todos enviam suas vacinas candidatas para serem testadas no paciente.
No caso da zika, a proposta era injetar em pessoas normais a vacina candidato e, subsequentemente, o vírus. O vírus da zika é quase inofensivo, a não ser que o paciente seja uma mulher e ela esteja no inicio da gravidez. Ai o risco de o filho nascer com microcefalia é real. Os cientistas esperavam que, tomando o cuidado de não envolver mulheres grávidas, poderiam ter o experimento aprovado.
Mas ele foi rejeitado, e a razão foi o risco corrido pelos “bystanders” (transeuntes ou espectadores), pessoas que poderiam sofrer consequências sem estarem diretamente envolvidas nos experimentos. A comissão de ética levou em conta duas descobertas científicas.
Primeiro, foi descoberto que o vírus da zika permanece no corpo da pessoa mesmo depois que os sintomas da doença desaparecem. Segundo, sabemos que o vírus pode ser transmitido por meio de relações sexuais. Dados esses fatos, a comissão concluiu que as pessoas que receberiam propositalmente o vírus poderiam infectar parceiros sexuais meses depois, e alguns desses parceiros poderiam ser mulheres no inicio da gravidez. Ou seja, o experimento trazia riscos para membros da população que não estavam envolvidos nos testes e provavelmente sequer sabiam dos riscos que estavam correndo. E esse era um risco inaceitável.
Os experimentos não serão executados e provavelmente o desenvolvimento da vacina vai atrasar ou simplesmente não vai acontecer. É fácil perceber que essa é uma decisão complicada, mas alguém tem de decidir e se responsabilizar. E você, que acompanhou de perto nossa epidemia de zika, o que decidiria?
Testes necessários para uma vacina contra zika foram proibidos por causa dos riscos
MAIS INFORMAÇÕES: BYSTANDER RISK, SOCIAL VALUE, AND ETHICS OF HUMAN RESEARCH. SCIENCE, VOL. 360. PÁG. 158 (2018)

sábado, 21 de abril de 2018

A liderança dos EUA na Ásia pode sobreviver ao governo Trump (Comissão Trilateral)

A liderança dos EUA na Ásia pode sobreviver ao governo Trump

Apesar de os países da região negociarem mais com a China, os americanos têm vantagens que durarão mais que uma presidência

KOREAN CENTRAL NEWS AGENCY/AP
Poder. Kim Jong-un, em Pyongyang: disputa entre EUA e China
Quando a Comissão Trilateral – um grupo de líderes políticos e empresariais, jornalistas e acadêmicos – reuniu-se recentemente, muitos manifestaram preocupação com o declínio da liderança americana na Ásia. Todos os países asiáticos agora negociam mais com a China do que com os EUA, muitas vezes numa margem de dois para um. Essa preocupação foi exacerbada pela recente imposição de tarifas e manifestações, do presidente Donald Trump, de desprezo pelas instituições multilaterais. Uma pergunta frequentemente ouvida em Cingapura: será que a liderança dos EUA na Ásia sobreviverá aos anos Trump?
A história fornece alguma perspectiva. Em 1972, o presidente Richard Nixon, unilateralmente, impôs tarifas aos aliados dos EUA sem aviso prévio, ignorou o sistema do Fundo Monetário Internacional e deu continuidade a uma guerra impopular no Vietnã. O medo do terrorismo disseminou-se e os especialistas expressaram preocupação com o futuro da democracia.
No ano seguinte, David Rockefeller e Zbigniew Brzezinski criaram a Comissão Trilateral, que se reúne uma vez por ano para discutir tais problemas. Contrariamente às teorias da conspiração, a Comissão tem pouco poder; mas, como outros canais informais da diplomacia “Faixa II” (não oficial), ela permite que cidadãos particulares explorem meios de lidar com questões controvertidas. Os resultados podem ser encontrados em suas publicações e em seu site.
Em Cingapura, não houve consenso quanto à Ásia depois de Trump. Por exemplo, os membros indianos e chineses sustentaram posições diferentes sobre o papel dos projetos de infraestrutura da China, “um cinturão e uma rota (da seda)”. Alguns asiáticos e americanos divergiram quanto às perspectivas de sucesso para uma resolução da crise nuclear coreana, assim como quanto à questão mais ampla de saber se uma guerra China-EUA é inevitável. E alguns europeus indagam se a atual incerteza global reflete a ascensão da China ou a ascensão de Trump.
Minha estimativa, que pode até estar errada, como alertei o grupo, é que os EUA podem recuperar sua liderança após os anos Trump se ele reaprender as lições de usar o poder em conjunto com os outros, assim como sobre os outros. Em outras palavras, os EUA terão de usar seu poder de persuasão (soft power) para criar redes e instituições que lhes permitam cooperar com China, Índia, Japão, Europa e outros países para lidar com problemas transnacionais – por exemplo, estabilidade monetária, mudanças climáticas, terrorismo e cibercrime – que nenhum país pode solucionar unilateralmente. Isso exigirá a superação das políticas e atitudes unilaterais associadas à ascensão de Trump.
Quanto à ascensão da China, ao contrário do pessimismo vigente, os EUA manterão importantes vantagens de poder que durarão mais do que uma presidência de oito anos, caso Trump seja reeleito. O primeiro é a demografia. Segundo dados da ONU, os EUA são o único país desenvolvido que deverá contribuir para o crescimento da população global até 2050. A China, atualmente o país mais populoso, deverá perder o primeiro lugar para a Índia.
A segunda vantagem é a energia. Há uma década, os EUA pareciam desesperadamente dependentes de energia importada. Agora, a revolução do xisto transformou-o de importador de energia em exportador, e a América do Norte pode ser autossuficiente na próxima década, ao mesmo tempo em que a China está cada vez mais dependente das importações de energia.
A tecnologia é uma terceira vantagem para os EUA. Entre as tecnologias que transmitirão energia neste século estão a biotecnologia, a nanotecnologia e a próxima geração de tecnologia da informação, como inteligência artificial e Big Data. Segundo a maior parte dos especialistas, enquanto a capacidade da China está melhorando, os EUA continuam líderes mundiais em pesquisa, desenvolvimento e comercialização de tais tecnologias.
Além disso, em termos de base de pesquisa, os EUA têm uma quarta vantagem – seu sistema de ensino superior. Segundo um ranking da Universidade Jiatong de Xangai, das 20 principais universidades do mundo, 16 estão nos EUA, e nenhuma está na China.
Uma quinta vantagem americana que provavelmente sobreviverá à era Trump é o papel do dólar. Das reservas estrangeiras detidas pelos governos de todo o mundo, apenas 1,1% estão em renminbi, em comparação com 64% em dólar. Quando o FMI incluiu o renminbi na cesta de moedas que sustentava sua medida de ativos de reserva, Direitos Especiais de Saque, muitos acreditavam que os dias do dólar estavam contados. Mas a participação do renminbi nos pagamentos internacionais caiu desde então. Uma moeda de reserva confiável depende de mercados de capitais com grandes volumes de negócios, um governo honesto e o estado de direito. Nenhum deles é plausível na China em futuro próximo.
Em sexto lugar, os EUA têm vantagens geográficas que faltam à China. Os EUA estão cercados por oceanos, e o Canadá e o México continuam amigáveis, apesar da política equivocada de Trump de reduzir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). A China, de sua parte, tem fronteiras com 14 países e disputas territoriais com alguns dos mais importantes, como Índia, Japão e Vietnã. Isso limita o poder de negociação da China. E enquanto a geografia dá à China projeção de poder terrestre sobre o Mar do Sul da China, os EUA não têm reivindicações territoriais e desfrutam de uma supremacia naval sobre os restantes 95% dos oceanos do mundo.
Mas, mais importante, os EUA e a China não estão destinados à guerra. Nenhum dos dois representa uma ameaça existencial ao outro. Quando a 1.ª Guerra começou, a Alemanha havia ultrapassado a Grã-Bretanha em 1900, e o temor dos britânicos quanto às intenções alemãs contribuiu para o desastre. Em contraste, os EUA e a China têm tempo para gerenciar seus conflitos e não precisam sucumbir à histeria ou ao medo.
Os EUA mantêm não apenas as vantagens de poder descritas acima, mas também suas alianças com Japão e Coreia do Sul. Nas próximas negociações com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, Trump precisará ter o cuidado de evitar que o regime Kim alcance sua meta de longo prazo de enfraquecer tais alianças.
Em Cingapura, citei a resposta de Lee Kuan Yew a uma pergunta que fiz uma ocasião, sobre a possibilidade de a China superar os EUA. Ele disse “não”, pois embora a China tenha o talento de 1,4 bilhão de pessoas, a abertura dos EUA permitiu que aproveitasse e combinasse os talentos de 7,5 bilhões de pessoas com maior criatividade do que a China conseguiria. Se essa abertura sobreviver, a liderança americana na Ásia e em outros lugares provavelmente sobreviverá.
EUA mantêm importantes alianças e Trump deve ter o cuidado de evitar que a Coreia do Norte enfraqueça esses laços
É PROFESSOR EM HARVARD E SERVIU ATÉ RECENTEMENTE COMO CHAIRMAN DOS EUA NA COMISSÃO TRILATERAL