Centro unido para não ser vencido
Não
vejo o centro político já derrotado e o Brasil condenado à triste opção
entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Na análise que se segue recorri
ao psicólogo Daniel Kahneman, que ganhou fama ao contestar premissa
básica do pensamento econômico tradicional, a de racionalidade do ser
humano. Por sua contribuição à análise econômica, ganhou o Nobel de
Economia em 2002.
Com implicações além
dessa análise, Kahneman argumenta que o ser humano tem racionalidade
limitada e ao decidir tem duas formas de pensar, os Sistemas 1 e 2. O
primeiro é rápido e usa instintos, crenças e comportamentos que muitas
vezes levam a opções equivocadas. Como o comportamento de manada, em que
a pessoa segue um grupo sem refletir sobre o caminho a que será levada.
Por exemplo, ao comprar ações sem se informar bem sobre elas, só porque
muitas pessoas estão a adquiri-las. O Sistema 2 toma mais tempo, é mais
analítico e racional, procura informações sobre o objeto da decisão e
como esta deve incorporá-las de forma a minimizar o risco de erros.
Muitos
adeptos de Bolsonaro e Haddad decidem pelo Sistema 1, sem maior
reflexão sobre esses candidatos, seus vices incluídos. Após 1960, vários
vices assumiram pela renúncia, morte ou pelo impeachment do titular:
Jango, Sarney, Itamar e Temer. Dessa turma, só Itamar saiu com
prestígio. O eleitor já refletiu sobre o que pode acontecer se o vice
substituir seu candidato? Voltarei ao assunto.
Estou
no PSDB há uns 30 anos, levado poe seu programa e por personalidades
como Montoro, FHC, Covas e Serra. Entendo que a social-democracia é
adequada ao Brasil, num formato mais liberal para a economia para que
realize efetivamente seu potencial e gere tributos para uma ação social
condizente com a dívida desse tipo que o País carrega. Em particular,
por não ter cuidado dos escravos libertados, deixando-os ao deus-dará.
Utilizando
o Sistema 2 para recolher informações, Geraldo Alckmin é um candidato
fiel ao espírito da social-democracia e com perfil adequado para unir o
centro. É sensato, tem história política, capacidade de granjear apoio
na área – e precisamos dos políticos para sair desta encrenca em que o
país se meteu –, larga experiência administrativa no governo paulista e
resultados para mostrar, como nas áreas de segurança, educação, gestão
das contas públicas e infraestrutura. Tentativas de rotulá-lo como
ficha-suja não colaram. É de hábitos simples, muito apegado à família.
Em particular, contrasta com o excandidato Lula, que ao se inscrever se
revelou um proletário milionário, com patrimônio de R$ 8 milhões. O
programa de Alckmin é muito adequado às necessidades do País. A versão
completa é recente e está em www.geraldoalckmin.com.br. O programa tem
dez áreas de atuação e é coisa para ler, guardar e... cobrar!
Como
já disse, muitos dos apoiadores do capitão Bolsonaro pensam pelo
Sistema 1, sem buscar informações. O apoio veio também pelo
comportamento de manada. Se usassem o Sistema 2, saberiam que ele é
temperamental e propenso a enfrentar com mais violência a criminalidade
que se esconde em comunidades de baixa renda, pondo-as sob um risco
ainda maior. Como militar, é da corporação do funcionalismo, cujo
enfrentamento é indispensável para reformar o Estado e torná-lo mais
eficaz a um custo menor. Não tem experiência administrativa, é avesso a
entendimentos políticos, nada entende de economia e quem o indaga sobre o
assunto é instado a ir a seu posto Ipiranga, o economista Paulo Guedes.
Este exagera no liberalismo, despreza as dificuldades políticas e mesmo
de recursos para implementar suas propostas. Não passou por estágio em
Brasília. E viriam conflitos com o seu próprio chefe, nada liberal.
Poderia durar pouco como ministro da Fazenda.
Haddad
é pessoa de fino trato pessoal, mas como candidato do PT, ou pior, do
PL, o Partido do Lula, tem este como ídolo e mentor. Como presidente,
Lula começou bem, mas depois teve culpa no processo que levou o País ao
bur acoem ques e encontra. Como ao acomodara corrupção no governo e não
aproveitar, para também investir mais, abonança econômica que recebeu do
PC chinês, quase só apostando na expansão do consumo elevando as
pessoas a desprezara poupança e exacerbar o endividamento. Ena saída fez
feio, escolhendo Dilma para suceder-lhe. Tida como gerentona, foi uma
tremenda trapalhona. Seu desastre ainda tem seus efeitos. E o PT também
aparelhou a máquina do Estado com seus quadros corporativistas,
prejudicando uma reforma dele. Assim, quem vai atrás do PT está
igualmente operando pelo Sistema 1.
Olhando
os vices, ade Alckmin, senadora Ana Amélia, também ficha-limpa, foi por
muito tempo jornalista na área de economia, é experiente no trato com o
Congresso e sintonizada com o programa da chapa. Bolsonaro tem como
vice o general Hamilton Mourão, em tese submisso ao capitão. Não conheço
seu temperamento, mas em termos administrativos e corporativos envolve
os mesmos riscos de Bolsonaro, além do risco de agir por conta própria e
no meio militar.
E a vice de Fernando
Haddad, Manuela d’Ávila, do Pcdob, o Partido Comunista do Brasil? Não
tem experiência administrativa. Supondo que seja coerente com seus
princípios, passaria a conduzir o governo com ideias de um partido
ultra-minoritário – tem apenas 12 deputados federais, 1,6% do total, e
um senador. Se eleita, terá sido pela chapa, como Temer. E o dano à
confiança na economia, caso assumisse?
Concluo
apelando ao voto pelo Sistema 2, sem crenças preconcebidas ou hoje mal
concebidas. Cabe também apelar aos eleitores de Marina, Meirelles,
Amoêdo e Álvaro Dias, bem como a esses candidatos, para que preguem a
união em torno de Alckmin. Sem essa união, há um grande risco nesta
eleição: o centro, desunido, então será vencido!
A social-democracia é adequada ao Brasil, num formato mais liberal para a economia
ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR