Sobre acreditar em duendes
Éapenas
crueldade exigir que os mercados financeiros se debrucem sobre as
complexas relações que definem as condições para o progresso de uma
nação. Nesta seara não se trata de discutir propostas, senão de
antecipar tendências e estar na ponta certa. O sonho de qualquer
“trader” é estar vendido no dia em que o mundo acabar. Não é de sua
natureza prescrever o que parece melhor. Ao fim e ao cabo, tudo se
resume numa decisão de comprar ou vender. Não cabem filigranas, nuances
ou modulações. “Quatro patas bom, duas patas ruim”, nas velhas palavras
de George Orwell.
É neste contexto que se
pode entender a recôndita paixão do mercado por Jair Bolsonaro. À medida
que suas chances de vitória aumentam, exultam os operadores que
acreditam que o mal maior pode ser evitado. O substrato desse otimismo é
a crença de que um governo liberal terá condições de livrar o País da
bagaça em que nos encontramos. A leitura do programa de governo do PSL,
no entanto, é experiência desoladora. Pulemos, aqui, a dificuldade
evidente do candidato de superar o atual nível de rejeição e conquistar a
Presidência. O que se pode esperar de um governo Bolsonaro? O mercado
se compraz em pensar que o economista Paulo Guedes, um liberal de quatro
costados, garantiria escolhas que o mundo financeiro acha acertadas.
Trata-se de um equívoco.
O texto é uma
colagem de vários autores, com desigual domínio do raciocínio lógico e
da língua portuguesa. Não faz sentido acreditar que o economista liberal
será o pau da barraca que sustentará um eventual governo quando fica
claro que ele não foi chamado sequer para dar coerência a um programa de
governo meramente protocolar. O liberalismo, deixa-se logo claro, é uma
espécie de elixir paregórico para todos os males, já que “reduz a
inflação, baixa os juros, eleva a confiança e os investimentos, gera
crescimento, emprego e oportunidades”. Faltou dizer que faz crescer
cabelo e traz seu amor de volta.
Em que
pese tamanha deferência, o programa preconiza que o Banco Central deva
estar “alinhado” ao novo Ministério da Economia (como pensa o
candidato), de quem, no entanto, será “formalmente independente” (como
pensa seu economista). Se parece contraditório, é porque isso é só um
jogo de palavras para conciliar posições diferentes. O prato principal,
no entanto, é um avassalador programa de privatização, peça-chave para
eliminar o déficit público já em 2019 e gerar um superávit primário em
2020.
É exercitar a própria ingenuidade
criticar um programa de governo por suas propostas irrealistas.
Exagerar, quando não mentir, faz parte das regras do jogo. Mas aqui o
caso é outro. Trata-se de incapacidade de compreender não só o que
deseja a sociedade brasileira, como também a verdadeira capacidade de
mobilização de um governo que já nasceria minoritário. Pode-se
argumentar que o papel dos economistas é prescrever soluções cujas
condições práticas de implantação estariam a
É um equívoco pensar que Paulo Guedes garantiria escolhas que o mundo financeiro acha acertadas
cargo
dos políticos. Essa visão é, mais que ingênua, rudimentar. A chance de
aprovação de medidas econômicas que ignoram a correlação de forças
políticas é nula.
Uma privatização
selvagem é, mais que um sonho, um desvario, até porque Bolsonaro joga na
direita, mas muitas vezes chuta com a esquerda. Programas maximalistas
não se coadunam com candidatos com escassa capacidade de entender as
sutilezas da negociação política.
O
enfrentamento da crise fiscal requer o domínio das minudências das
contradições brasileiras, mas Bolsonaro tem votos justamente pelo seu
primarismo radical. A força do candidato será a fraqueza do presidente e
de seu economista. Um programa econômico absolutista está fadado ao
fracasso.
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