Ainda não foi desta vez
Esquecemos
de combinar com o resto do mundo. Depois de anos de letargia, a
economia internacional finalmente mostra sinais de inquietação. Entre
agosto de 2007 e dezembro de 2008, a taxa básica de juros dos Estados
Unidos caiu de 5,25% para meros 0,25% ao ano. Na sequência, o Banco
Central americano manteve a taxa-alvo em 0,25% por nada menos que sete
longos anos. A subida para 0,5% ocorreu apenas em dezembro de 2015.
Desde então, estas taxas foram elevadas com temperança até atingirem o
patamar atual de 1,75% ao ano, um terço do patamar em que estavam antes
da crise. Os sinais do mercado nestas últimas semanas são muito claros:
esta moleza está acabando.
Juros baixos
são uma bênção para países pobres e endividados. Para aplacar a crise de
2008, os principais bancos centrais do mundo também resolveram comprar
diretamente papéis públicos e privados, inundando o mundo de recursos.
Esta pletora de dólares roda, roda e acaba inflando as reservas
internacionais de muitos países, inclusive o Brasil. Neste período de
vacas com sobrepeso, nossa agenda mudou. Deixamos de falar de dívida
externa. Nos primeiros anos do século 21, para cada dólar de reservas
internacionais, o Brasil tinha cerca de cinco dólares de dívida externa.
Esta
relação despencou e hoje as reservas são 22% maiores que a dívida. A
liquidez é tão grande que mesmo a Argentina, que reluta em sair do
século passado, chegou a colocar no mercado internacional US$ 2,75
bilhões em títulos com prazo de 100 anos. Esta tolerância não existe
mais. A era dos juros baixos está acabando, o que estreita o raio de
manobra e reduz a capacidade de fazermos bobagens impunemente. Juros
mais altos lá fora significam dólar mais caro aqui, pela simples razão
de que especular com a moeda brasileira ficou mais arriscado – até
porque os juros aqui caíram muito. A diferença entre as taxas básicas de
juros no Brasil e nos Estados Unidos está hoje em 4,75 pontos
porcentuais. Há pouco tempo, em novembro de 2015, era de 14 pontos. Isto
reduz a atratividade do real. Uma pequena desvalorização e o ganho
derivado desta diferença vai para o ralo.
A
desvalorização cambial até agora pode ser explicada, na sua maior
parte, pela mudança do cenário internacional. Este é o primeiro ato. O
segundo será quando a dinâmica do câmbio passar a refletir as próprias
idiossincrasias típicas da campanha eleitoral. Podemos nos mirar no
exemplo da Turquia – ainda que os erros dos outros pouco nos ajudem, já
que não aprendemos sequer com os nossos. Em visita recente a Londres, o
presidente Erdogan teve a oportunidade de divulgar sua visão excêntrica
sobre as taxas de juros. Para ele, juros altos são a causa da inflação,
não uma maneira de combatê-la. Advogou também a vassalagem do Banco
Central ao presidente, já que é este quem tem a responsabilidade última
pelo estado da economia. Estas afirmações podem pegar bem no eleitorado
(a eleição para presidente é no próximo mês),
Depois de anos de letargia, a economia internacional finalmente mostra sinais de inquietação
mas
ajudaram a provocar uma desvalorização da lira turca de 10%, o que
forçou o banco central daquele país a elevar os juros em três pontos
porcentuais, para 16,5%. Alguém pode imaginar Bolsonaro ou Ciro Gomes
falando semelhante estultice? Não requer muito esforço. É bom lembrar
que em outubro de 2002, quando Lula ainda era Lula, o dólar, atualizado
pela variação do IPCA, bateu em R$ 9,74. A solidez das nossas contas
externas hoje é outra, o volume de reservas internacionais é mais de dez
vezes maior e isto não vai se repetir. Mas se ficar claro que o próximo
presidente do Brasil tem ideias estranhas a respeito do funcionamento
da economia, não há dúvida de que o mercado terá um outro chilique.
ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E
PROFESSOR DA PUC-SP E FGV-SP. EMAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM