segunda-feira, 28 de maio de 2018

ECONOMIA - Ainda não foi desta vez 28052018

Ainda não foi desta vez

Esquecemos de combinar com o resto do mundo. Depois de anos de letargia, a economia internacional finalmente mostra sinais de inquietação. Entre agosto de 2007 e dezembro de 2008, a taxa básica de juros dos Estados Unidos caiu de 5,25% para meros 0,25% ao ano. Na sequência, o Banco Central americano manteve a taxa-alvo em 0,25% por nada menos que sete longos anos. A subida para 0,5% ocorreu apenas em dezembro de 2015. Desde então, estas taxas foram elevadas com temperança até atingirem o patamar atual de 1,75% ao ano, um terço do patamar em que estavam antes da crise. Os sinais do mercado nestas últimas semanas são muito claros: esta moleza está acabando.
Juros baixos são uma bênção para países pobres e endividados. Para aplacar a crise de 2008, os principais bancos centrais do mundo também resolveram comprar diretamente papéis públicos e privados, inundando o mundo de recursos. Esta pletora de dólares roda, roda e acaba inflando as reservas internacionais de muitos países, inclusive o Brasil. Neste período de vacas com sobrepeso, nossa agenda mudou. Deixamos de falar de dívida externa. Nos primeiros anos do século 21, para cada dólar de reservas internacionais, o Brasil tinha cerca de cinco dólares de dívida externa.
Esta relação despencou e hoje as reservas são 22% maiores que a dívida. A liquidez é tão grande que mesmo a Argentina, que reluta em sair do século passado, chegou a colocar no mercado internacional US$ 2,75 bilhões em títulos com prazo de 100 anos. Esta tolerância não existe mais. A era dos juros baixos está acabando, o que estreita o raio de manobra e reduz a capacidade de fazermos bobagens impunemente. Juros mais altos lá fora significam dólar mais caro aqui, pela simples razão de que especular com a moeda brasileira ficou mais arriscado – até porque os juros aqui caíram muito. A diferença entre as taxas básicas de juros no Brasil e nos Estados Unidos está hoje em 4,75 pontos porcentuais. Há pouco tempo, em novembro de 2015, era de 14 pontos. Isto reduz a atratividade do real. Uma pequena desvalorização e o ganho derivado desta diferença vai para o ralo.
A desvalorização cambial até agora pode ser explicada, na sua maior parte, pela mudança do cenário internacional. Este é o primeiro ato. O segundo será quando a dinâmica do câmbio passar a refletir as próprias idiossincrasias típicas da campanha eleitoral. Podemos nos mirar no exemplo da Turquia – ainda que os erros dos outros pouco nos ajudem, já que não aprendemos sequer com os nossos. Em visita recente a Londres, o presidente Erdogan teve a oportunidade de divulgar sua visão excêntrica sobre as taxas de juros. Para ele, juros altos são a causa da inflação, não uma maneira de combatê-la. Advogou também a vassalagem do Banco Central ao presidente, já que é este quem tem a responsabilidade última pelo estado da economia. Estas afirmações podem pegar bem no eleitorado (a eleição para presidente é no próximo mês),
Depois de anos de letargia, a economia internacional finalmente mostra sinais de inquietação
mas ajudaram a provocar uma desvalorização da lira turca de 10%, o que forçou o banco central daquele país a elevar os juros em três pontos porcentuais, para 16,5%. Alguém pode imaginar Bolsonaro ou Ciro Gomes falando semelhante estultice? Não requer muito esforço. É bom lembrar que em outubro de 2002, quando Lula ainda era Lula, o dólar, atualizado pela variação do IPCA, bateu em R$ 9,74. A solidez das nossas contas externas hoje é outra, o volume de reservas internacionais é mais de dez vezes maior e isto não vai se repetir. Mas se ficar claro que o próximo presidente do Brasil tem ideias estranhas a respeito do funcionamento da economia, não há dúvida de que o mercado terá um outro chilique. ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E FGV-SP. EMAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

sexta-feira, 25 de maio de 2018

ECONOMIA - desânimo na petrobras

Fernando Dantas

Decisão sobre o diesel traz risco de descarrilar projeto de venda do controle de refinarias.
Quando Pedro Parente adentrou anteontem à reunião do Conselho de Administração da Petrobrás, a primeira com sua nova formação, para anunciar a decisão de reduzir o preço do diesel, cedendo à pressão dos caminhoneiros, a reação foi de estupefação. Dos conselheiros presentes, apenas dois se manifestaram a favor da decisão de Parente, incluindo o representante dos funcionários. A maioria se disse claramente contrária.
Antes da decisão fatídica, um conselheiro chegou a dizer que a mudança da política de preços só seria feita “sobre o meu cadáver” (a decisão, na verdade, cabe à diretoria executiva, e Parente comunicou-a ao conselho por cortesia).
Discutiram-se no conselho alternativas como, por exemplo, permitir que caminhoneiros antecipassem compras em momentos de preços baixos do diesel, só pagando à medida que fossem de fato consumindo o combustível – uma forma de fazer “hedge” contra as oscilações do preço que, de fato, podem trazer grandes prejuízos, já que os contratos de frete não têm como variar na mesma frequência.
A reação do staff gerencial e executivo da Petrobrás – fora do pequeno círculo no topo que tomou a decisão sobre o diesel – também foi péssima. O recuo na política de preços é visto como um dano incomensurável no planejamento estratégico da empresa.
O prejuízo em si com a redução e o congelamento do preço do diesel por 15 dias, estimado em R$ 350 milhões, e mesmo a enorme perda de valor de mercado com a queda do preço das ações, são vistos como problemas menores do que a perda de credibilidade e reputação.
A visão é de que a decisão sobre o diesel traz o risco de descarrilar o projeto “Poetas”, de venda do controle (60%) das refinarias e infraestrutura no Sul, Norte e Nordeste (a Petrobrás seguiria como minoritária e, como o grosso do refino é na Região Sudeste, ainda ficaria com 70% do volume refinado).
A ideia é criar um mercado privado de refinarias no Brasil, acabando com o monopólio da Petrobrás no setor, que é visto como um ônus para a estatal em termos de rentabilidade e de risco.
O típico exemplo de risco é a própria greve dos caminhoneiros, que sabem ser muito mais fácil pressionar uma estatal, sujeita à interferência direta do Executivo e indireta do Legislativo, do que empresas privadas. No passado recente, a Petrobrás chegou a vender combustíveis com prejuízo estimado em R$ 40 bilhões.
Adicionalmente, a Petrobrás gostaria de concentrar seus investimentos, restringidos pela necessidade de a empresa se desalavancar, na área de exploração e produção, muito mais lucrativa e na qual a estatal está na fronteira e é altamente competitiva.
Agora, porém, há a percepção de que o recuo no diesel coloca em sério risco o projeto das refinarias. Empresas multinacionais vão pensar duas vezes antes de comprar o controle de refinarias no Brasil, quando se sabe que o governo federal pode impor uma política de preços à Petrobrás que a qualquer momento pode desequilibrar todo o mercado.
A venda das refinarias é uma das partes mais importantes do processo maior de realinhamento do portfólio e de desalavancagem contidos no atual plano estratégico da Petrobrás. Agora, toda essa grande mudança para melhor da estatal pode ficar em xeque, segundo algumas análises.
Outra preocupação é com o selo “Destaque Estatais” da B3 (empresa resultante da fusão da Bovespa, BM&F e Cetip), conquistado a duras penas no ano passado, num processo que envolveu várias mudanças no estatuto social. O impacto da perda desse selo seria péssimo, por exemplo, com os chamados fundos de investimento ESG (Environment, Sustainability and Governance), vários deles de países escandinavos e do norte europeu.
Não há dúvida de que a reação inicial do grande grupo de apoiadores entusiásticos de Parente dentro da Petrobrás é de apreensão e desânimo.
Recuo é visto como dano incomensurável no planejamento estratégico

ECONOMIA - Desânimo na Petrobras


Fernando Dantas

Decisão sobre o diesel traz risco de descarrilar projeto de venda do controle de refinarias.
Quando Pedro Parente adentrou anteontem à reunião do Conselho de Administração da Petrobrás, a primeira com sua nova formação, para anunciar a decisão de reduzir o preço do diesel, cedendo à pressão dos caminhoneiros, a reação foi de estupefação. Dos conselheiros presentes, apenas dois se manifestaram a favor da decisão de Parente, incluindo o representante dos funcionários. A maioria se disse claramente contrária.
Antes da decisão fatídica, um conselheiro chegou a dizer que a mudança da política de preços só seria feita “sobre o meu cadáver” (a decisão, na verdade, cabe à diretoria executiva, e Parente comunicou-a ao conselho por cortesia).
Discutiram-se no conselho alternativas como, por exemplo, permitir que caminhoneiros antecipassem compras em momentos de preços baixos do diesel, só pagando à medida que fossem de fato consumindo o combustível – uma forma de fazer “hedge” contra as oscilações do preço que, de fato, podem trazer grandes prejuízos, já que os contratos de frete não têm como variar na mesma frequência.
A reação do staff gerencial e executivo da Petrobrás – fora do pequeno círculo no topo que tomou a decisão sobre o diesel – também foi péssima. O recuo na política de preços é visto como um dano incomensurável no planejamento estratégico da empresa.
O prejuízo em si com a redução e o congelamento do preço do diesel por 15 dias, estimado em R$ 350 milhões, e mesmo a enorme perda de valor de mercado com a queda do preço das ações, são vistos como problemas menores do que a perda de credibilidade e reputação.
A visão é de que a decisão sobre o diesel traz o risco de descarrilar o projeto “Poetas”, de venda do controle (60%) das refinarias e infraestrutura no Sul, Norte e Nordeste (a Petrobrás seguiria como minoritária e, como o grosso do refino é na Região Sudeste, ainda ficaria com 70% do volume refinado).
A ideia é criar um mercado privado de refinarias no Brasil, acabando com o monopólio da Petrobrás no setor, que é visto como um ônus para a estatal em termos de rentabilidade e de risco.
O típico exemplo de risco é a própria greve dos caminhoneiros, que sabem ser muito mais fácil pressionar uma estatal, sujeita à interferência direta do Executivo e indireta do Legislativo, do que empresas privadas. No passado recente, a Petrobrás chegou a vender combustíveis com prejuízo estimado em R$ 40 bilhões.
Adicionalmente, a Petrobrás gostaria de concentrar seus investimentos, restringidos pela necessidade de a empresa se desalavancar, na área de exploração e produção, muito mais lucrativa e na qual a estatal está na fronteira e é altamente competitiva.
Agora, porém, há a percepção de que o recuo no diesel coloca em sério risco o projeto das refinarias. Empresas multinacionais vão pensar duas vezes antes de comprar o controle de refinarias no Brasil, quando se sabe que o governo federal pode impor uma política de preços à Petrobrás que a qualquer momento pode desequilibrar todo o mercado.
A venda das refinarias é uma das partes mais importantes do processo maior de realinhamento do portfólio e de desalavancagem contidos no atual plano estratégico da Petrobrás. Agora, toda essa grande mudança para melhor da estatal pode ficar em xeque, segundo algumas análises.
Outra preocupação é com o selo “Destaque Estatais” da B3 (empresa resultante da fusão da Bovespa, BM&F e Cetip), conquistado a duras penas no ano passado, num processo que envolveu várias mudanças no estatuto social. O impacto da perda desse selo seria péssimo, por exemplo, com os chamados fundos de investimento ESG (Environment, Sustainability and Governance), vários deles de países escandinavos e do norte europeu.
Não há dúvida de que a reação inicial do grande grupo de apoiadores entusiásticos de Parente dentro da Petrobrás é de apreensão e desânimo.
Recuo é visto como dano incomensurável no planejamento estratégico

ECONOMIA - Chassis de Impostos



Celso Ming

EPITACIO PESSOA /ESTADAO-23/5/2018
Estresse. Onde cortar agora?
O governo está perdido. Enquanto isso, os oportunistas se puseram a sapatear.
Oresumo da ópera dos combustíveis tem dois lados convergentes: o econômico e o político. lado econômico é o rombo brutal das contas públicas conjugado com a velha corrupção, que desemboca na voracidade fiscal tanto do governo central como dos Estados e dos municípios. Os preços cobrados sobre tanta coisa essencial se transformaram em alentados chassis de arrecadação.
Quase imperceptivelmente, os preços dos combustíveis, da energia elétrica e dos serviços urbanos se transformaram em instrumentos de extorsão de impostos do contribuinte. De cada litro de óleo diesel, 28% são impostos; e de cada litro de gasolina, 45% são impostos e taxas. Nos municípios, por exemplo, a cobrança de multas de trânsito deixou de ser meio de educação do motorista e do pedestre ou, até mesmo, deixou de ser instrumento de financiamento de melhorias do sistema viário. Resume-se quase inteiramente a máquina destinada a esfolar os proprietários de veículos e os desatentos de sempre, que não se dão conta do alcance dos olhos do grande irmão, que são todos esses radares encarapitados nos postes, ao longo das ruas e das rodovias.
Por trás de tudo está o Estado ineficiente, gastador, ultraendividado, reduto do cupinchismo e do que já se sabe. Como não há o que chegue, tascamse impostos a torto e a direito. E quando, nos momentos de estresse, como o de agora, é preciso providenciar uma folga nessa engrenagem predatória, não há onde cortar, não há como reduzir a carga tributária, como se viu nessa tentativa de acomodar interesses com a zeragem da Cide e com a redução do PIS/Cofins sobre combustíveis.
O outro lado desta crise é o político. Há uma conta enorme pairando sobre a sociedade. Enquanto as vacas externas puderam ser ordenhadas e houve dólares abundantes e baratos, ainda foi possível ajeitar essa fatura. Mas as condições da economia internacional estão se estreitando, os grandes bancos centrais estão sendo obrigados a enxugar moeda nos mercados, alguns governos, como o dos Estados Unidos, estão se tornando crescentemente protecionistas e, assim, passaram a cobrar mais pedágio na entrada de produtos brasileiros no seu mercado.
E há o forte crescimento das tensões geopolíticas. O rompimento unilateral do acordo nuclear com o Irã pelo presidente Trump e a crescente desordem política e econômica da Venezuela foram suficientes para pressionar o mercado de petróleo e passaram a alavancar as cotações internacionais.
Nessas condições, o frágil, e agora ainda mais enfraquecido, governo do presidente Temer perdeu as já precárias condições de arbitrar a distribuição das contas pela sociedade. É a situação em que o produto da pesca diminuiu e as poderosas corporações instaladas no Brasil passam a brigar por sua porção de sardinhas. Bastaram quatro dias de locaute para que os caminhoneiros pudessem arrancar concessões da Petrobrás e do governo Temer. E a conquista do acordo de suspensão da paralisação não soluciona nada. Segue aí o buraco na cerca por onde a boiada começa a passar.
Às incertezas eleitorais que vinham se acumulando ainda há as que provierem de mais esta crise cujo desfecho não há como prever. O governo foi surpreendido numa área estratégica, que é a do abastecimento, e está perdido, não sabe para onde correr. Enquanto isso, os oportunistas, que sempre aparecem nessas ocasiões, se puseram a sapatear sobre a cabeça do governo.

CONFIRA

Variação do preço do óleo diesel em um ano

O diesel, lá e cá

O gráfico ao lado mostra que os preços do óleo diesel ao consumidor não dispararam apenas no Brasil. Em alguns países, o aumento foi até mesmo substancialmente superior ao que aconteceu por aqui. Qual a explicação? Uma delas é que a matéria-prima básica do diesel é o petróleo. Portanto, vale uma comparação com o que aconteceu com as cotações do mercado internacional. No mesmo período, as do tipo Brent (do Mar do Norte), avançaram 48,97% em dólares, de US$ 53,52 por barril para US$ 78,79.

ECONOMIA - Efeito borboleta



Efeito borboleta

Aexpressão é originária da meteorologia. É uma metáfora para explicar como uma perturbação pequena, o bater das asas de uma borboleta, pode influenciar na formação de um furacão no outro lado do planeta por meio de sequências de impactos que se vão expandindo na atmosfera. É empregada em sistemas dinâmicos e complexos, como da física, da botânica e da economia.
Ilustrando a ponto, poderia explanar o que aconteceu na Argentina há algumas semanas. A queda de 0,1% na taxa de desemprego nos Estados Unidos provocou uma corrida ao dólar em Buenos Aires, que se propagou aos preços, obrigando o Banco Central a subir os juros para 40% e o governo argentino a recorrer ao FMI para um empréstimo-ponte para controlar a escalada do dólar lá e evitar o pior.
Crises são eventos recorrentes no mundo por diversos motivos. No Brasil, desde o século 19 todas têm o mesmo padrão: crescimento anêmico, déficits fiscais e dívida pública aumentando, um evento catalisador, como preço das commodities ou default de outro país, alta do dólar e dos juros, aperto do crédito, elevação da inadimplência, menos crescimento e, o pior, mais desemprego.
O relato de todas é parecido, a responsabilidade é sempre atribuída ao efeito borboleta, batizando as crises com diferentes nomes: do café, do petróleo e do euro, para citar algumas. Todas as narrativas focam nos catalisadores, nenhuma aponta o que é importante, a fragilidade do quadro conjuntural interno e a falta de medidas mitigadoras.
Um exemplo é o que aconteceu há duas décadas. A moratória da dívida russa em agosto de 1998 foi o evento catalisador para uma crise aqui. Em cinco meses, apesar da alta dos juros, o Brasil perdeu metade de suas reservas, recorreu ao FMI, o dólar subiu mais de 60%, a dívida pública cresceu 13% do PIB e o setor não financeiro e os empregos sofreram estragos consideráveis.
A pergunta que todos se fazem agora é se o País pode ter uma crise nos próximos meses. A probabilidade de que ocorra é insignificante, mas não é zero. Comparando com a Argentina atual, o Brasil está melhor em vários aspectos, mas pior em outros, o déficit e a dívida aqui são maiores e o crescimento é menor.
Analisando os números atuais e os de 20 anos atrás, alguns indicadores macroeconômicos mostram uma solidez maior, mas outros, como a dinâmica fiscal, não. Agora, como então, é ano de eleição presidencial, o que causa incertezas políticas. Mas são outros tempos e, comparando as duas situações, o Brasil está bem melhor, mas há espaço para aprimoramentos na condução atual.
Um argumento usado com frequência é que com reservas de US$ 380 bilhões o País está protegido contra ataques especulativos. É uma meia-verdade, pois os investimentos em carteira de estrangeiros totalizam US$ 598 bilhões, superando a munição de defesa. É fato, as reservas protegem, mas não blindam totalmente.
Atualmente, o dólar está claramente desalinhado. Para reverter sua tendência o Banco Central atua no mercado futuro para, entre outros motivos, não ter de usar as reservas. É uma estratégia arriscada e cara. Em caso de uma alta mais forte, o impacto na dívida pública de operações futuras seria desastroso. Usando o mercado à vista, que é mais estreito, conseguiria baixar as cotações com volumes de intervenções menores e menos riscos.
A manutenção das reservas internacionais num patamar fixo põe o Banco Central numa armadilha. Se numa hora de estresse começar a ter de usá-las, vai sinalizar o pior e agravar o quadro. O remédio vai virar um veneno. A solução é anunciar agora, que está num momento de relativa calmaria, a mudança do regime de reservas rígidas para flutuantes e usar parte delas para estabilizar o dólar.
O setor não financeiro poderia mitigar a volatilidade do câmbio com a autorização de contas em divisas. A medida não dolarizaria a economia brasileira, daria uma proteção (hedge) natural a empresas, baixaria o custo de carregar divisas e reduziria os efeitos das incertezas da volatilidade cambial na produção e no emprego.
Há mais que pode ser feito. Aplicar o princípio de Thornton, economista do século 18, que indica que em momentos de turbulência se deve injetar liquidez no sistema para aumentar a confiança. A eliminação dos compulsórios e a operacionalização do redesconto, além de reduzir o custo do crédito, aumentariam sua oferta e o ânimo dos empresários e consumidores.
Outra atitude é mudar o discurso do governo. No passado sempre foi o de minimizar o risco de problemas. Desde a década de 1970, quando o Brasil era “uma ilha de prosperidade num mundo de turbulências”, até a última pré-crise, com o anúncio de que era apenas “marola”. É hora de fazer diferente. O momento exige valentia, amadurecimento, reconhecer as fragilidades e atuar sobre elas, e dessa forma evitar o pior.
Para evitar crises e seus efeitos nefastos a melhor recomendação de política é fazer a economia crescer de forma sustentável e sólida. É demorado. Nesse sentido, dever-se-ia apelar para o patriotismo dos candidatos a presidente para que assumam compromisso com uma agenda estratégica que aumente a confiança no futuro do Brasil.
Há um pessimismo injustificado sobre o desempenho econômico do País. Alguns indicadores estão aquém do esperado, mas outros surpreendem positivamente. É fato, há problemas, mas o Brasil não é problemático. Planos de governo consistentes de todos os presidenciáveis dariam uma injeção de ânimo, apontando que o melhor está por vir.
As perspectivas para este ano e o próximo são boas: a economia vai crescer, a inflação está sob controle, o balanço de pagamentos se apresenta sólido e a probabilidade de uma crise é insignificante, mas diferente de zero. Considerando que há “borboletas”, como tensões geopolíticas e atitudes intempestivas de alguns governantes, que podem dificultar. É melhor prevenir que remediar.
O momento exige valentia, reconhecer as fragilidades e atuar para evitar o pior

quarta-feira, 16 de maio de 2018

ECONOMIA - Soa o alarme do dólar - 16/05/2018

Soa o alarme do dólar

Convém dar atenção às áreas mais vulneráveis da economia nacional e reforçar os fundamentos para uma travessia segura da turbulência.
Há um alarme estridente soando no mercado de câmbio. Ontem de manhã o dólar quase bateu em R$ 3,70, enquanto o risco Brasil subia nos mercados financeiros. Parte da perda foi recuperada mais tarde pelo real, mas é preciso ser muito otimista, nesta altura, para apostar numa trégua no mercado cambial. Antes de mais nada é preciso fazer uma distinção. Dólar caro pode ser uma bênção para exportadores – produtos brasileiros mais baratos e mais competitivos – e um fator de segurança para boa parte da indústria. Mas dólar em disparada é sinal de risco. Pode indicar desvio ou fuga de capitais para aplicações mais atraentes e mais seguras, como papéis do Tesouro americano. Pode indicar, mais que isso, desconfiança em relação aos países de onde o dinheiro é retirado. Nos casos mais graves, pressão cambial pode ser prenúncio de desastre.
A primeira grande vítima da pressão cambial, desta vez, foi a Argentina, um país com finanças públicas em mau estado, inflação alta, enorme dependência de financiamento estrangeiro e reservas insuficientes para aguentar um choque externo. Com reservas em torno de US$ 380 bilhões, superávit comercial e menor dependência de crédito externo, o Brasil é bem menos vulnerável, por enquanto. Além disso, dirão os mais despreocupados, o dólar tem subido em todo o mundo e nenhum país está livre, neste momento, da instabilidade cambial. O movimento do câmbio, acrescentarão, é explicável pela expectativa de alta mais rápida dos juros americanos. Os dados de consumo, de emprego e de crescimento econômico apontam para inflação mais acelerada e para um aperto monetário mais forte nos Estados Unidos. A alta do dólar é consequência desses fatores e afeta todo o mundo.
Esses fatores são realmente importantes e explicam boa parte da instabilidade do câmbio. Mas é essencial para a segurança do Brasil dar atenção a dois pontos. Primeiro: mesmo num país em boas condições seria preciso levar em conta a mudança do quadro externo. Condições internacionais menos benignas podem significar financiamentos mais caros, menor tolerância ao risco, menor oferta de investimentos diretos, depreciação de commodities e comércio global mais fraco.
Convém, portanto, dar atenção às áreas mais vulneráveis da economia nacional e reforçar os fundamentos para uma travessia segura da turbulência. No caso do Brasil, no entanto, é bom considerar com atenção ainda maior a hipótese menos otimista.
Segundo ponto: além dos dados externos, como os juros americanos, é necessário levar em conta os fatores internos de insegurança. Mais que isso: num cenário internacional menos favorável cresce a importância das fraquezas domésticas. Essas fraquezas são consideráveis. Será preciso um enorme esforço para o governo fechar suas contas, neste ano, sem um déficit primário além do limite, sem romper o teto de gastos e sem violar a proibição de tomar empréstimos para cobrir gastos de custeio.
As dificuldades do governo eleito em outubro deverão ser bem maiores. A reforma da Previdência está paralisada. Poderá voltar à pauta se a intervenção no Rio de Janeiro for suspensa, mas uma aprovação neste ano será um quase milagre. Projetos importantes estão travados ou sujeitos a deformações num Congresso dominado, numericamente, por parlamentares sem compromisso com a sustentabilidade financeira do Estado Nacional.
A desaceleração do crescimento, depois de uma forte recuperação em 2017, é em boa parte explicável pela piora das expectativas de empresários e consumidores. Um cenário eleitoral ainda muito incerto, mas por enquanto dominado por diferentes formas de populismo, dificulta as apostas na reconstrução e na modernização da economia. Pior que isso: dificulta as apostas na capacidade do próximo governo de evitar um desastre fiscal, um retorno à inflação e um novo mergulho na recessão.
A disparada do dólar tem refletido tanto o quadro internacional como as incertezas sobre a recuperação brasileira. O alerta vale para todos, a começar pelos políticos. Quantos darão importância ao alarme?

ECONOMIA - Chilique com o Fed 16/05/2018



Chilique com o Fed

Desde o início de abril, quando os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 10 anos começaram a subir com força, ultrapassando a barreira dos 3,0%, os mercados globais enfrentam grande turbulência, com o dólar se fortalecendo em relação às principais moedas mundiais e as bolsas de valores sofrendo forte correção nos preços.
Por trás desse nervosismo está o temor de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) acabe por acelerar o ritmo do aperto monetário mais do que o previsto. O mercado ainda precifica três altas dos juros americanos neste ano, enquanto é crescente o número de analistas que projetam um total de quatro elevações.
A expectativa é de que, na sua próxima reunião, marcada para os dias 12 e 13 de junho, o Fed passe a sinalizar oficialmente a projeção de quatro altas de juros neste ano.
Da última vez que divulgou suas projeções macroeconômicas, em março, a mediana das estimativas dos 15 diretores do Fed apontava para três elevações neste ano, mas ficou faltando uma única projeção para que a mediana tivesse sido alterada para quatro altas.
O menor ou maior número de elevações dos juros neste ano não é o que deveria deixar os investidores animados ou preocupados, na opinião do economista-chefe da Mauá Capital, Alexandre Ázara. Para ele, o que interessa é qual será a taxa de juros ao fim do atual ciclo. “Essa taxa terminal não deverá causar maior estresse”, diz.
A aposta de Ázara é de que o Fed vai encerrar o atual ciclo com juros a 3,25% em 2020, elevando a taxa quatro vezes neste ano e três em 2019.
Para fazer sua aposta da taxa terminal de 3,25%, Ázara utilizou como premissa uma inflação de 2,0% mais uma taxa neutra de juros de 0,75%, com base no modelo criado por John Williams (futuro presidente do Fed de Nova York) e por Thomas Laubach (economista do Fed) que estima uma taxa neutra entre 0,40% e 0,90% para uma inflação entre 1,5% e 2,5%. Além disso, Ázara acrescenta 0,50 ponto porcentual à sua estimativa diante da sinalização do Fed de que manteria a taxa nominal de juros acima da neutra.
Atualmente, a mediana das estimativas dos 15 diretores do Fed aponta para uma taxa terminal de 3,50%, enquanto a projeção dos votantes no Fomc (com base na interpretação do mercado) é de juros a 3,75% em 2020.
O cenário de estresse seria, na visão de Ázara, se a inflação americana subisse rapidamente para 2,5%, forçando o Fed a migrar para uma política monetária apertada ao jogar os juros para bem acima de 4%.
É bom lembrar que o Fed vem sinalizando recentemente que se, eventualmente, a inflação ficar um pouco acima da sua meta de 2% por algum tempo, isso não seria motivo suficiente para acelerar o ritmo de altas de juros nem aumentar o orçamento total do atual ciclo.
Para Ázara, se a inflação americana ficar entre 1,8% a 2,2% no ano que vem, a taxa terminal do atual ciclo ficará entre 3,0% e 3,50%. “Vejo um risco muito baixo de a inflação americana ficar muito acima de 2,2%: não há um superaquecimento da economia tampouco existe pressão mais forte sobre os salários”, explica Ázara.
Ele lembra que, como a economia americana está a pleno emprego e crescendo acima do seu potencial, é não somente justificável a normalização da política monetária, como também saudável. “Até porque esse ciclo de alta de juros ocorre num momento em que as condições financeiras nos Estados Unidos estão no nível mais frouxo dos últimos anos”, diz.
O índice de condições financeiras dos Estados Unidos calculado pelo banco Goldman Sachs, que leva em conta os preços das ações em bolsas de valores, as taxas de juros de longo prazo e a cotação do dólar, entre outras variáveis, está ao redor de 99, abaixo do pico de 101 quando o Fed subiu os juros pela primeira vez no atual ciclo em dezembro de 2015.
O fato é que os investidores estavam demasiadamente lenientes em relação ao processo de normalização monetária nos Estados Unidos. De repente, despertaram para a realidade da alta de juros pelo Fed e não gostaram do que viram. Mas até quando vai durar esse chilique?
Investidores estavam lenientes com a normalização monetária nos Estados Unidos

ECONOMIA - FMI em xeque

Monica de Bolle

Preocupa possibilidade de diminuição da capacidade do FMI de ajudar países em crise.
Não é preciso acompanhar de perto as oscilações dos mercados internacionais para saber que há algo de novo e pernicioso no horizonte. Há poucos meses, quando ainda predominavam os cenários de calmaria associados à visão de que as taxas de juros internacionais permaneceriam baixas por tempo prolongado, jorravam recursos para os países emergentes, inclusive para economias vulneráveis como a Argentina e a Turquia. Passadas algumas semanas, o quadro mudou subitamente. Investidores finalmente se deram conta não apenas de que o quadro de juros baixos pode se alterar mais rapidamente, mas também de que aumentaram as chances de que a economia mundial sofra as consequências da política comercial de Trump e das várias convulsões geopolíticas que se alastram com rapidez mundo afora. O resultado foi a busca por ativos seguros, o que sempre significa saída de recursos de países emergentes. Para os que não seguem com atenção as minúcias dos mercados, os acontecimentos evidenciaram-se na cotação do dólar e na volatilidade da bolsa. Evidenciaram-se, também, no pedido de socorro da Argentina ao FMI.
A turbulência é para preocupar. Ela teve origem na leve alta dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano, de cerca de 2,8% na média de abrilmaio para 3% nas últimas semanas. Até agora, meros 0,20 pontos porcentuais a mais na taxa do ativo mais seguro e líquido do mundo foram suficientes para desarticular posições em ativos de emergentes causando imensas flutuações. Imaginem quando os mercados passarem a precificar essas taxas ao redor dos 4%, nível considerado compatível com o atual estado da recuperação americana. É possível, inclusive, que com a taxa de desemprego norte-americana abaixo de 4% e os efeitos das políticas de expansão fiscal adotadas no final de 2017, o rendimento dos títulos do Tesouro supere os 4% nos próximos meses, o que não traz alento para os países emergentes. Há menos alento ainda quando se considera que o Banco Central Europeu pode estar se preparando para dar fim às políticas de estímulo monetário excepcionais assegurada a retomada da zona do euro. Portanto, o mais provável é que esses movimentos de reprecificação de ativos continuem a fazer refluir recursos de países emergentes para as economias avançadas, eliminando o quadro de liquidez abundante.
Nesse sentido, a Argentina pode ter sido o canário da mina de carvão, o alerta. Há muitos países emergentes com solidez macroeconômica suficiente para aguentar o tranco. Contudo, há também muitos países vulneráveis. Diante de possíveis riscos crescentes, bom seria se pudéssemos contar com o poder de fogo do FMI. Hoje, dispõe o FMI de cerca de US$ 1,4 trilhão para enfrentar turbulências financeiras e crises embrionárias, ou montante quase quatro vezes maior do que dispunha às vésperas da crise de 2008. O problema é que mais de 30% desses recursos provêm de arranjos bilaterais de empréstimos com 40 países-membros, e não das tradicionais cotas a partir das quais financia-se o FMI e confere-se aos países poder de voto. Os arranjos bilaterais foram solicitados e acordados depois que a 15.ª revisão de cotas – o processo a partir do qual o FMI revisa periodicamente suas necessidades de recursos junto aos 189 países-membros – foi adiada. Que fique claro: a fonte tradicional de recursos para o FMI são as cotas dos países, calculadas a partir de fórmulas específicas. No entanto, nos últimos anos impasses levaram a instituição a financiar-se por meio de empréstimos diretos.
A Argentina pode ter sido o canário da mina de carvão, mostrando que há países vulneráveis a um tranco
Os atuais empréstimos ao FMI, no montante de US$ 450 bilhões, expiram em 2020. Ou seja, daqui a menos de dois anos pode ser que o Fundo conte com bem menos recursos do que conta hoje caso não se resolva o dilema das cotas e na eventualidade desses empréstimos não serem renovados. Preocupa a posição dos EUA. Membros do governo Trump responsáveis pelas organizações multilaterais já se posicionaram contra mudanças expressivas nas cotas ou aumentos de empréstimos dos EUA para manter o poder de fogo atual da instituição. Cabe lembrar que os EUA possuem poder de veto sobre as decisões do conselho do FMI, embora não possam impedir que outros paísesmembros aumentem unilateralmente suas contribuições à organização.
A possibilidade de que diminua em pouco tempo a capacidade do FMI de ajudar países em crise é extremamente preocupante nesse ambiente em que a era da liquidez abundante para emergentes chega ao fim. FMI em xeque e Argentina-canário não são auspiciosos para a economia global. ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

quinta-feira, 10 de maio de 2018

LINGUAGEM - A pequena e triste vitória da ocupação

A pequena e triste vitória da ocupação

Enquanto os bombeiros vasculham as pilhas de concreto queimado que restaram do edifício Wilton Paes de Almeida, uma reacomodação da linguagem toma lugar nas páginas dos jornais. Enquanto as autoridades falam nos microfones das emissoras de rádio e televisão, dando conta dos pedaços de ossos humanos e brinquedos de criança que foram encontrados nos escombros, uma palavra antes proscrita se instala no léxico mais vistoso do noticiário. Essa palavra é o substantivo feminino “ocupação”.
Ao longo de uma semana algo mudou no linguajar da imprensa. Não foi algo meramente cosmético; houve um deslocamento que alterou o estatuto de uma palavra, uma palavra-chave, e esse deslocamento se fez sentir nas reportagens, nos artigos de opinião e nos editoriais. O movimento foi mínimo (a língua é lenta), mas produziu efeitos que podem persistir. O substantivo “ocupação” deslizou um centímetro, talvez menos, mas nesse centímetro parece ter cruzado a linha que separa o banimento da cidadania, parece ter ingressado no vasto e populoso país que abriga os vocábulos aptos a circular livremente. A palavra ocupação parece ter sido anistiada.
Há tempos existe uma política editorial, ora declarada, ora tácita, em todas as redações profissionais do Brasil – ou, se não em todas, ao menos nas melhores. Quando se trata de reportar que um agrupamento de pessoas tomou posse de um imóvel por métodos que atropelam as vias legais, dá-se preferência ao substantivo “invasão”. Até aqui, quem falava em “ocupação” eram os autodenominados “movimentos sociais”, situados na outra margem do rio que separa os interesses e os padrões de fala.
Não adianta nada demonizar um lado ou outro. Há razões legítimas que sustentam tanto a postura da imprensa profissional quanto a dos movimentos sociais. Do lado das redações, comprometidas com a ordem jurídica vigente, uma propriedade, seja pública ou privada, que tenha sido tomada de assalto por pequenas multidões que não dispõem de autorização legal para usá-la só pode ser caracterizada como uma propriedade “invadida”. Do lado dos líderes dessas pequenas multidões, uma propriedade vazia, especialmente quando localizada no centro das grandes cidades, é uma propriedade que não cumpre a sua função social. É uma propriedade “desocupada”. Logo, nada mais justo que ela seja “ocupada” por quem precisa de moradia.
A disputa de pontos de vista se manifesta na política, nos embates mais aborrecidos, do mesmo modo que se manifesta na língua, onde produz mudanças nos interstícios sutis e no plano dos enunciados, enfadonhos ou barulhentos. Agora, essa disputa redundou num discreto aumento, quase imperceptível, do valor que a norma culta confere ao signo “ocupação”. Em editoriais, reportagens e debates de todo tipo, falantes de um lado e de outro se referiram com absoluta naturalidade ao Wilton Paes de Almeida como um edifício “ocupado”. Falou-se muito também em “invasão”, mas, no balanço – e digo balanço, aqui, em dois sentidos –, no instável balanço das edificações da linguagem, nota-se a migração dessa palavra-chave, que empreende uma viagem penosa, tendo partido de margens pouco nomeadas para seguir em direção a vocabulário que dá nome – e visibilidade – ao que se passa neste mundo.
Pois aqui estamos nós. Em meio a tantos saldos negativos deixados pelo fogo que consumiu o prédio e consumiu também os lares clandestinos do Largo do Paiçandu, temos agora um saldo que, ao menos de minha parte, deve ser qualificado como positivo. Por mais que os manuais de redação possam justificar-se, por mais que os editores digam que aquele edifício não era uma propriedade particular, que seus habitantes precários estavam lá ilegalmente, mas nem tanto, e que aquela situação toda, cheia de ambivalências jurídicas, pode, sim, ser caracterizada como “ocupação” sem que isso represente uma concessão, o que se deu, de fato, foi um gesto de mão estendida, uma abertura que antes não existia. De uma semana para outra o redator de notícias mudou de tom ao se referir aos seres humanos que antes teria preferido tratar como invasores. Foi um sinal de sensibilidade, muito provavelmente irrefletido, inadvertido, mas foi.
Sem notar, a imprensa ajudou a conferir alguma legitimidade, ainda que exígua, à demanda dos que se esgueiram de madrugada por corredores em ruína, sem luz e sem água, para terem um lugar para morar, mesmo que seja um lugar para cair morto. Nestes dias em que a realidade se mostrou bárbara, a imprensa se mostrou mais civilizada. Talvez inconscientemente. No luto, aflorou um reconhecimento.
A língua, mesmo quando esconde, revela. Tanto na tragédia como na comédia. Repare no modo como os gaúchos de Porto Alegre se referem à sua universidade federal, a UFRGS. Esse F aí nunca é pronunciado por eles. Antes, a UFRGS era apenas URGS. Só foi convertida em UFRGS em meados do século passado, mas, mesmo depois disso, os gaúchos seguem dizendo URGS ou, mais propriamente, “Uôregues”. A prosódia não mente: o adjetivo “federal”, como bem sabemos, nunca desfrutou de grande prestígio entre os gaúchos. Ao omiti-lo, o falante o denuncia como hóspede indesejado.
Agora mudemos de região. Pegue qualquer cidade do Nordeste, onde escolas tradicionais também foram federalizadas. Pergunte lá a qualquer aluno onde estuda e ele responderá: na “Fédéral” (o nome que a instituição tinha em sua origem terá sido sepultado, como palavra morta). Outra vez a prosódia é coerente: nas áreas mais ao norte do País, o prestígio não vem da recusa, mas do ato de se associar ao Distrito Federal.
Volto agora ao trágico. Partido ao meio não por regionalismos anedóticos, mas pela ideologia cega, a palavra “ocupação” pede para falar. Que a gramática reserve um posto honrado para os que, ao arrepio da lei, buscam a justiça de um teto, mesmo que em chamas. Que a imprensa aceite que quem ocupa, ainda que machuque, não é necessariamente um criminoso.
Nesses dias em que a realidade se mostrou bárbara, a imprensa se mostrou mais civilizada

sexta-feira, 4 de maio de 2018

ECONOMIA, PREVIÃO 2018 - ESTÁ COMPLICADO

Está complicado

Aprodução industrial de março, divulgada ontem, manteve o padrão deste ano de decepções com os índices de atividade econômica. Em relação a fevereiro, o indicador recuou 0,1%, abaixo da projeção média do mercado, de alta de 0,5%. Esses números eliminam variações sazonais.
Junto com os dados de inflação, que têm vindo mais baixos que as previsões, os indicadores de atividade desapontadores desenham o quadro de uma economia que se recupera, mas num ritmo aflitivamente lento (especialmente para os mais de 13 milhões de brasileiros desempregados).
Mais desagradável é o fato de que o ritmo mixuruca da recuperação se mantém num momento em que a economia internacional dá sinais de que pode se tornar menos benigna para países como o Brasil, e que a preocupação com a eleição começa a entrar no radar dos investidores e do mercado financeiro.
Essa combinação de fatores é preocupante, como atesta Tony Volpon, economista-chefe do UBS (banco suíço) Brasil, e ex-diretor do Banco Central (BC).
O economista, de início, observa que o ritmo lento da retomada brasileira não deveria ser uma grande surpresa. Em recessões da dimensão atingida entre 2014 e 2016, durante a qual o Produto Interno Bruto (PIB) chegou a cair 7% abaixo do pico anterior, a saída é tipicamente lenta, segundo Volpon.
Ele nota que fenômenos semelhantes ocorreram nos Estados Unidos e na Europa, após a recessão provocada pela crise financeira global de 2008 e 2009, e no Japão, após o estouro da sua bolha cerca de duas décadas antes.
O grande problema é que a piora do cenário internacional, que já levou o dólar para um nível superior a R$ 3,50, pode atrapalhar ainda mais a retomada brasileira.
A desvalorização recente do câmbio no Brasil faz parte de um movimento internacional do dólar ante muitas moedas, e está ligada ao fato de que há perspectivas de que a alta já em curso do juro americano seja um pouco menos gradativa e suave do que o anteriormente previsto.
Na verdade, a economia e o mercado de trabalho dos Estados Unidos estão aquecidos, e há sinais, mesmo que ainda tênues, de que a inflação pode voltar.
Um fator adicional interno é que os juros de curto prazo no Brasil caíram muito, com a taxa básica, a Selic, indo para 6,5%. Assim, a diferença entre o juro americano e o brasileiro diminuiu, o que reduziu o fluxo de capitais que vêm para cá faturar esse tipo de ganho financeiro. E, finalmente, há as muitas incertezas eleitorais no Brasil, que para alguns analistas já entraram no radar do mercado e, para outros, ainda não (o que é até pior – imagina quando entrarem!).
Por enquanto, como aponta Volpon, o dólar andou bem, mas a Bolsa e os juros no Brasil não foram fortemente afetados. Mas mesmo o movimento solitário do câmbio já atrapalha no curto prazo, ele diz, já que o Brasil é bem mais aberto em termo financeiros que comerciais.
O impacto negativo da desvalorização em empresas expostas à moeda americana (que tenham contraído empréstimo lá fora, por exemplo) é maior que o ganho em termos de aumento de exportações. A atividade sofre, portanto.
Se o dólar se valorizar ainda mais, esse efeito aumenta. Mas o pior é se, como habitualmente no passado, em algum momento a desvalorização do câmbio for acompanhada por alta dos juros de mercado e queda na Bolsa, num clima mais turbulento. Nesse caso, os efeitos negativos sobre a economia seriam muito piores.
Volpon acha que o Banco Central, com R$ 380 bilhões em reservas e ampla capacidade de oferecer swaps cambiais (proteção contra a desvalorização sem envolver gasto de reservas) ao mercado, deveria agir bem mais energicamente no mercado cambial do que fez até agora.
Sem dúvida nenhuma, é uma alternativa. O fato, porém, é que há sinais de que o tempo pode fechar para a economia brasileira num delicado ano eleitoral. Nesse caso, a cigarra mais uma vez terá de passar o inverno ao relento.
Desvalorização recente faz parte de movimento internacional do dólar

quarta-feira, 2 de maio de 2018

INFORMATICA - Queimando bits

Imagem Demi Getschko

Demi Getschko

Por dentro da rede

Queimando bits

“451” é código que informará que o conteúdo buscado está inacessível por ordem judicial
01/05/2018 | 05h00
 Por Demi Getschko - O Estado de S.Paulo
Em 1953, o ano em que nasci, Ray Bradbury, um cultuado escritor de ficção científica, terminou Fahrenheit 451, seu livro mais conhecido. É a 451 graus Fahrenheit de temperatura que o papel pega fogo. Bradbury trata de uma sociedade em que a “felicidade” é conseguida pela proibição de leitura de livros. Sem a influência “nefasta” dos livros – que fazem pensar, sentir, chorar – os habitantes se divertem participando de “famílias virtuais”, compostas por inúmeros “primos” que, a partir de monitores de TV, trazem diversão anódina e a sensação de pertencimento. Para completar o quadro há, é lógico, uso intenso de pílulas estimulantes e soporíferos. Montag, a personagem principal, é “bombeiro” numa época em que sua a função não é mais apagar chamas em casas incendiadas mas, ao contrário, de procurar (e queimar) livros dos que, desafiando a lei, continuam a guardar exemplares para leitura. Se Mildred, mulher de Montag, está perfeitamente adaptada ao modo de vida, Montag começa a se interessar por aquilo que queima, e tem crescente inquietação e dúvidas sobre o que seria “ser feliz”. Anos antes, em “Admirável Mundo Novo” (Huxley) livros eram irrelevantes por “inúteis”, e em “1984” (Orwell) são proibidos por serem “nocivos”. Fahrenheit 451 consegue juntar essas duas visões e, de quebra, trazer uma dura sensação de profecia realizada.

Ao tema! Todos já recebemos alguma vez, ao consultar um sítio na web, o detestável erro 404 (http) “não encontrado”. É parte de uma família de mensagens de erro (de 400 a 499) associadas ao protocolo de transferência de hipertexto (http). Nem todos os números do segmento estão em uso e, recentemente, mais um foi definido: o 451, significando “conteúdo indisponível por razões legais”. Com o aumento de pedidos de remoção de conteúdo por órgãos de justiça de muitos países, achou-se que valia a pena discriminar o motivo da indisponibilidade. O RFC 7225 define “451” como o código que informará que o conteúdo buscado está inacessível por ordem judicial. De forma inteligente e algo matreira, o autor do RFC escolheu usar 451 e, explicitamente, agradece a Bradbury pela inspiração...Para o fim de transparência, O RFC 7225 especifica também que deve ser adicionada informação que indique o contexto, ou aponte à ordem que levou à exclusão daquele material. Nem sempre, entretanto, esses dados adicionais são providos e o usuário acaba sabendo, apenas, que “não é possível aceder” ao que ele queria...
Há certamente razões sólidas que justificariam a remoção de algo da rede. Mas sempre resta um travo, amargo, que associa eliminação de um conteúdo com a memória de ações indignas e deploráveis, como as que ocorreram na Segunda Guerra e serviram de inspiração para Bradbury escrever sobre queima de livros. Se, por um lado, bits não pegam fogo mas podem ser facilmente apagados, buscando-se de boa fé eliminar conteúdo nocivo da rede e torná-la mais segura, por outro, e especialmente no caso de abusos em regimes menos abertos, pode-se estar pavimentando a estrada da censura e da discriminação. Em 1966 o celebrado diretor de cinema François Truffaut levou, algo higienizadamente, “Fahrenheit 451” às telas. Vale a pena rever.