Pondé ideólogo, Pondé
vítima
22/06/2012
“Temos de descobrir qual a ideologia que está por
trás”. Eis aí uma frase daquelas que antes confundem que ajudam. Não há nenhuma
ideologia que possa estar “por trás” de alguma coisa. O que pode estar por trás
são a doutrina e a filosofia. A ideologia é a doutrina transformada em quase
propaganda ou então o que Engels chamou de “falsa consciência”, e é o vem na
frente, não atrás.
Não gosto dessa metáfora de “frente e atrás”, mas
se é o que se usa, então, que usemos corretamente. Quando trabalhamos com
ideários, o que chega primeiro não é a doutrina e, muito menos a filosofia, e
sim a ideologia. A ideologia é a doutrina sem seus resguardos filosóficos, porque
estes são legitimadores da doutrina e, no entanto, mostra-a também com
propostas hipotéticas e pressupostos pouco discutidos tanto quanto a doutrina
eleita adversária. A filosofia nunca deixa de ser inteligente. Então, se é
doutrina – um “o que fazer” – aparece calçada pela filosofia, mostra sua força
exatamente na capacidade de não esconder sua suposta fraqueza. A filosofia é
sempre ingênua: ela revela os pontos fracos da doutrina que sustenta quer
queira quer não. A ideologia faz diferente. Ela não entende a fraqueza da
legitimidade da doutrina, não pode entender, toma a doutrina dogmaticamente e,
então, sai na frente dizendo ser não uma boa solução, mas a solução verdadeira.
O ideólogo não é filósofo.
Um exemplo. Li o professor Pondé (1), da PUC-SP, em
que ele diz que a democratização da cultura é sempre uma maneira de tornar os
apetrechos culturais capazes de serem oferecidos a mais gente e assim fazê-los
necessariamente passar por uma transformação que deve piorá-los. Isso é uma
filosofia conservadora ou uma ideologia conservadora? Não é uma filosofia. É
uma ideologia, e vem na frente. Vem como propaganda impactante. É uma ideologia
porque se mostra dogmaticamente como verdade sem qualquer garantia, a não ser a
duvidosa garantia de observações históricas adrede preparadas. Caso fosse
verdade, então os livros em que Pondé escreve coisas desse tipo deveriam ser
tomados como ruins, pois eles vendem bem e são feitos para isso, para a
popularização extremada, não só pela linguagem utilizada, mas também porque há
neles uma conversa muito ao gosto do senso comum conservador (contra o
politicamente correto, contra direitos de minorias, contra o feminismo etc.).
Ora, mas eu não diria que os livros do professor Pondé são um lixo porque são
para a multidão. Eu diria apenas que não são do meu gosto porque são de um
conservadorismo que já se fez presente entre minhas leituras no passado e já se
fez presente no passado de outros bem mais antigos do que eu.
Agora, há filosofia nessa tese de Pondé, contra a
democracia?
Bem, sabemos da existência da filosofia
conservadora. Sabemos bem que ela está visível na história da filosofia, e a
vemos correr séculos dizendo que tudo que é para “os muitos”, sejam eles quem
for, será sempre algo banal. Essa filosofia é anterior mesmo à democracia. Ela,
a filosofia conservadora, foi posta à prova – e ficou reprovada – quando houve
a educação escolar básica popular, entre os séculos XIX e XX, e, então, muitos
produtos culturais que pareciam só poderem ser bem apreciados pelos “poucos” foram
excelentemente apreciados pelos “muitos”. Vários países da Europa seguiram o
caminho americano e se espantaram em ver o resultado, ou seja, de que não
necessariamente tudo que se amplia perde qualidade. Até então, as pessoas que
advogavam a democracia e tinham apreço pela cultura achavam que uma sociedade
democrática só podia ter bens culturais apreciáveis se a democracia fosse bem
hierarquizada e, principalmente, fosse algo diminuto, mais ou menos como o
modelo de Atenas. Ora, a filosofia sempre trouxe um germe de questionamento
quanto a esse modelo, mesmo quando era adepto dele. Isso sempre foi visível em
Platão.
A obra de Platão faz um elogio às elites, mostra
sua raiva da democracia que assassinou Sócrates e, no entanto, não deixa de
escrever a “Carta Sete”, onde mostra a dificuldades maiores que teve com as
elites. Também não deixa de elogiar Sócrates, filósofo da rua e, de certo modo,
da plebe, e não das elites. E mais: mostra o quanto Sócrates, apostando em
Alcibíades, uma pessoa da alta elite, deu com os burros n’água. Assim, em
Platão, não há um comprometimento cego com a não-democracia. Sua filosofia tem
uma doutrina elitista e, ao mesmo tempo, mostra o quanto o elitismo pode ter
pés de barro. Mas, quando o platonismo escapa das mãos de Platão e se
transforma em uma doutrina isolada, ele realmente tem tudo para dar origem
rápida a uma possível ideologia elitista, a de veneração do Rei-filósofo e
coisas do gênero. E isso aconteceu nas melhores casas! Transformada em
ideologia, e que passou a ir à frente, o platonismo assim feito conquistou os
conservadores. Não à toa os conservadores foram responsáveis por uma
historiografia que tentou aposentar Sócrates, tomando-o como um mero personagem
de um Platão aprendiz, inicialmente, e depois como um personagem descartável de
um Platão já platônico e conservador. Nunca admitiram o Platão com dúvida sobre
o platonismo, o que é algo notável para os que efetivamente leram Platão.
Pondé apresenta, então, uma ideologia conservadora
– algo que tem a ver com fantasmas platônicos transformados por séculos de
medievalismo e por reacionários mais próximos de nós. Mas Pondé não apresenta
filosofia. Caso apresentasse a filosofia que sustenta seu conservadorismo, ela
mesma, a filosofia, daria uma série de dicas para ele desconfiar sobre se
valeria a pena ele não ter dúvidas quanto ao modo como adota o seu
conservadorismo. Mas se tem uma coisa que Pondé não sabe o que é, é a dúvida.
Ele diz frases ideológicas conservadoras com a máxima convicção. Às vezes soa
religioso na doutrina e, assim, mais ideológico ainda. Sua citação aqui e ali
de alguns filósofos não é filosofia ou, digamos, não é suficientemente algo da
filosofia de modo capaz a fazer aquilo que a filosofia faz até com os mais
renitentes, a de jogá-los para a coceira cerebral, aquela vontade de dizer
coisas como “acho que estou errado”. Ele está inebriado com a sua ideologia.
Ela, vindo na frente, às vezes mostra que acabou antes ganhando ele próprio,
destruindo sua capacidade crítica, deixando em plano até secundário os que
deveriam ser atingidos pelos seus textos.
Ora, mas o que faz Pondé ser vítima de sua
ideologia? Todos nós estamos à mercê dessa situação. Para cairmos nela, basta
tomarmos o lugar que vivemos como sendo o mundo. Pondé toma a PUC como sendo o
Planeta. Ele vê no marxista dogmático e na feminista chata não o marxista
dogmático e a feminista chata, mas o homem do iluminismo ou do romantismo que
tem pendores à esquerda e a mulher moderna sexy e com vocação intelectual. Ele
faz de pequenas caricaturas de seu meio ambiente acadêmico os tipos que ele
imagina quase universais. E se horroriza com eles – quem não se horrorizaria,
já nos anos oitenta? Nisso, ele pensa estar fazendo filosofia, mas está apenas
caindo de joelhos diante de sua ideologia. Esta, de tanto ir à frente, funciona
como um ectoplasma que ao se lançar no espaço puxa-o pela boca, por um anzol
espectral, e o expõe em livros em que ele se lamenta de não ter tido uma
infância feliz e, ao mesmo tempo, esbraveja contra mulheres que são intelectuais,
que tem tesão, mas que parece que ele não consegue ganhar.
De frase conservadora em frase conservadora, seus
livros mais populares o jogam no arrastão de sua própria ideologia. Ao fim e ao
cabo, ele começa a pedir desculpas ao leitor, a cada capítulo. Começa a ficar
cismado que seu amargor, que seu pessimismo e o que ele chama de “trágico”, não
esteja ao gosto de todos os conservadores que compraram seu livro. Cisma que
exagerou na dose e, então, pensa que pode perder seus leitores. Nesse instante,
em que poderia se enxergar como ideólogo, ainda não se vê, e faz o que o
criminoso nazista Rudolf Höss fez em seu livro autobiográfico, escrito na
prisão em que esperava a morte (The Commandant): declara-se como uma
pessoa não má, como uma pessoa que, afinal, tem ainda uma ética. O livro
de Pondé sobre a filosofia politicamente incorreta tem um tom patético quando
ele começa, aqui e ali, a se desculpar com o leitor.
A ideologia faz exatamente esse serviço. A
filosofia dá condições de autocrítica e, então, abre portas para a mudança, mas
a ideologia não. Quando quem está nela é enredado por algum tipo de dúvida,
ainda assim não muda, mas passa a se desculpar. Fica com medo de perder
possíveis amigos que havia conseguido ganhar por ter formado um público. Tendo
um público, passa a gostar das pessoas, a ter sua carência de escritor suprida
e, então, age quase igual ao marxista e a feminista que ele denuncia como
medíocres e “bregas” por quererem “um mundo melhor”. De lobo mau que se
imaginava trágico vira uma vovozinha cambaleante que, ao final, parece que
quase irá acender uma vela e iniciar uma oração pela própria alma.
A ideologia está na frente. Se há algo atrás, é o
ideólogo – antes arrastado pela ideologia que como o seu produtor.
(1) Li dele dois livros de sucesso editorial: Contra
um mundo melhor e Guia politicamente incorreto da filosofia, ambos
da editora Leya.
© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e
professor da UFRRJ.