A esquerda não salvará as pessoas. É preciso fortalecer a sociedade para controlar governos.
De
passagem pelo Brasil, um dirigente espanhol do Podemos, Rafael Mayoral,
afirmou que a esquerda não vai salvar as pessoas e o essencial é
fortalecer a sociedade para que ela possa controlar qualquer governo no
poder. Não vi o restante do seu discurso. Mas até onde li, concordo. De
certa forma, tenho usado esse argumento com novos grupos que querem a
mudança no Brasil.
Muitos deles estão
legitimamente preocupados com a falta de alternativas na eleição
presidencial. Mas, ainda assim, afirmo que a descoberta de um nome não é
tão importante quanto fortalecer a sociedade para que possa monitorar
ativamente o governo.
No fundo, o objetivo
maior deve ser a construção de um controle social tão preciso, diria
até tão virtuoso que possa tornar mais amena a constatação de que não
elegemos anjos, mas pessoas de carne e osso. Isso é válido para qualquer
sociedade, mas no Brasil parece que somos mais intensamente de carne e
osso.
De certo modo, já exercemos algum
controle sobre o governo Temer. Duas medidas foram revertidas por
pressão social: a abertura de uma área de mineração na Amazônia e o
abrandamento da lei que pune o trabalho em condições análogas ao de
escravo. Mas esse esforço de controle só tem surgido em grandes temas.
Estamos tratando como normais e cotidianas várias aberrações que nos
transformam num país virado de cabeça para baixo.
Um
exemplo que me espantou foi o pedido oficial de Geddel Vieira Lima para
saber o nome e o telefone de quem o denunciou. No apartamento ligado a
Geddel foram encontradas as malas com R$ 51 milhões. Até agora não
sabemos, e creio que a polícia também não, de onde veio o dinheiro
atribuído a Geddel. Mas ele quer saber quem o denunciou. Se a polícia
desse o nome e o telefone de quem denunciou, Geddel iniciaria uma
prática internacionalmente nova: quebrar o anonimato dos informantes,
para serem devidamente assassinados.
Raquel
Dodge negou o pedido de Geddel. Mas o fato de ter existido e circulado
como uma notícia normal revela como o País, no cotidiano, foi posto de
cabeça pra baixo.
No caótico Estado do Rio
de Janeiro, outra dessas barbaridades que quase passam em branco: o
governador Pezão indicou um deputado para o Tribunal de Contas do Estado
(TCE), o mesmo cujos membros foram presos. Questionado na Justiça,
Pezão chamou o procurador Leonardo Espíndola para defendê-lo.
Impossível, disse o procurador, sua decisão é inconstitucional. Ato
contínuo, Pezão demitiu Espíndola. Felizmente, o indicado por Pezão caiu
nas garras da Polícia Federal antes de tomar posse no TCE. É acusado de
corrupção, ao lado do presidente da Assembleia Legislativa, deputado
Jorge Picciani.
São só dois fatos
cotidianos. Há algo comum em sua origem. Nascem de políticos do PMDB
envolvidos em corrupção. Um quer o nome de quem o denunciou, o outro
considera defender a Constituição algo incompatível com o serviço
público.
E a vida continua. Engolindo alguns sapinhos no cotidiano, nosso estômago é preparado para os grandes sapos de fim de mandato.
Um
deles, que está sendo preparado nos bastidores, é a derrubada da prisão
em segunda instância. As articulações correm no Congresso e no próprio
Supremo Tribunal Federal (STF). Tanto ministros do Supremo como
parlamentares veem nisso uma saída para neutralizar não só a Lava Jato,
como todas as operações que envolvam políticos corruptos.
Enunciado
apenas como uma tese jurídica, o fim da prisão em segunda instância é
palatável. Todos são inocentes até que a sentença seja confirmada pelo
STF. Na prática, resultará em impunidade geral. Todos terão direito a
uma trajetória semelhante à de Paulo Maluf, que de recurso em recurso
vai tocando sua vida, exercendo seus mandatos e até defendendo outros
acusados de corrupção, como Michel Temer.
No
momento em que as aberrações se acumulam, a tendência é criar um País
monstruoso. Algo que já tentei definir num discurso, no alto de um
caminhão, em protesto de rua: um País onde os bandidos fazem a lei.
Enquanto
essas coisas acontecem, o debate entre os que querem a mudança tende a
concentrar-se no perfil do líder que nos vai salvar. Em que rua, em que
esquina vamos encontrálo? No Acre, em Alcácer Quibir?
Enquanto
não aparece, creio ser necessário fortalecer as organizações que
trabalham com a transparência. Estão surgindo de vários pontos. Hoje se
investiga como os partidos gastam seu dinheiro. Há um grupo que cuida
exclusivamente de despesas de parlamentares. A intensa busca da
transparência fortalece a sociedade. Da mesma maneira, ela ficará mais
forte se todos os grupos que buscam a mudança se unirem num esforço
comum.
Nem todos pensam da mesma maneira,
estamos cansados de saber. Mas é preciso um mínimo de maturidade, na
situação dramática do País, para encontrar pontos de convergência.
Não
importa tanto se um grande líder vai emergir dos escombros. Mesmo se
aparecer, não será um anjo. Não elegeremos anjos em 2018. Nunca o
faremos, creio eu.
A fronteira do
pessimismo não nos deve desesperar. Há algumas instituições funcionando,
há grupos trabalhando na busca da transparência, há a possibilidade
real de que todos os que querem mudança encontrem pontos de contato, um
denominador comum.
Como o poeta que
fabrica um elefante de seus poucos recursos, a sociedade brasileira terá
de construir seu sistema de defesa. Alguns móveis velhos, algodão,
cola, a busca de amigos num mundo enfastiado que duvida de tudo – o
elefante de Drummond é inspirador.
Quem
sabe, como em Portugal, conseguiremos construir nossa própria
geringonça? Prefiro essa visão modesta e realista a esperar dom
Sebastião. Curado de sua megalomania, talvez o Brasil aceite,
finalmente, tornar-se um grande Portugal.
Não elegeremos anjos em 2018. Mas o pessimismo não nos deve desesperar
✱ JORNALISTA
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