sábado, 28 de julho de 2018

VIDA - A metamorfoe e a unidade difícil


A metamorfose e a unidade difícil

A unidade dos democratas avança com dificuldades. As principais articulações em curso são eleitorais, haja vista as que envolvem o chamado “centrão”, cortejado por todos e agora associado a Geraldo Alckmin. Coligações são concebidas com os olhos no tempo de propaganda e na “repartição do poder”. São pragmáticas, tentando ser realistas. Diz-se que na mesa estão não somente cargos, mas também uma preocupação com a “governabilidade” do futuro presidente. O quanto será assim não se sabe.
O fundamental não é tratado com seriedade.
Refiro-me à necessidade de instituir um campo democrático que leve em conta as eleições mas vá além delas, comprometendo-se a qualificar a vida política, a ser um vetor programático de reorganização e governo da sociedade.
A renovação política é indispensável. O País não aguenta mais conviver com um sistema político – com seus partidos, sua cultura e suas práticas – que não acompanhou as mudanças que afetaram a estrutura da economia, a sociedade, o modo de vida. As mudanças trouxeram problemas novos sem que os antigos tenham sido resolvidos, formando, assim, um compósito desafiador.
Ainda não se compreendeu bem o quanto há de novidade no mundo atual. Como escreveu Ulrich Beck em seu livro póstumo, não se trata de um mundo forjado pelas mudanças típicas da modernidade capitalista, mas de um mundo que nasceu sob o signo da metamorfose: uma alteração na natureza da existência humana, no modo de estar no mundo, de imaginar e fazer política, de viver a vida.
Evidentemente, nem tudo está se metamorfoseando. Muitas mudanças são, na verdade, reprodução da ordem existente. Mas o importante é compreender o que foge da mera reposição, aquilo que transfigura e cria formas, práticas e expectativas. As lógicas se entretecem, ampliando os problemas e os desafios, mas também abrindo outras perspectivas.
Há um turbilhão pela frente. Precisamos resolver os problemas crônicos de nossa formação e administrar a metamorfose que desponta numa sociedade em que parece faltar a instância decisiva, a política. Sem melhor articulação, mais democracia e coesão, educação e inovação, o futuro ficará travado. Precisamos descomprimir a sociedade, reduzir as polarizações artificiais, ir além da reiteração discursiva esquerda versus direita. Não podemos nos entregar aos reptos “identitários”. Se continuarmos insistindo na lógica “nós” contra “eles”, correremos o risco de retroceder.
Se isso é minimamente razoável, como então pensar em avançar sem ajustes e adaptações, sem reformas nas estruturas e nas instituições, do mercado ao Estado? Necessitamos de uma reeducação geral, para aprendermos a lidar com o que é incerto e ainda não decodificamos.
O ritmo da mudança não é uniforme: muda-se mais depressa nas bases do que nas cúpulas, mais rápido na vida social do que na vida política. Homens e mulheres têm sua vida sendo alterada, mas não sabem disso e não conseguem extrair disso todos os desdobramentos e exigências. A visão do mundo conserva muitos de seus pedaços presos a imagens tradicionais, que se dissolvem lentamente. O modo de produção transforma-se com rapidez, em silêncio, mas sempre com dor e sofrimento, impulsionado pela revolução técnico-científica e pela globalização do capitalismo. Arrasta consigo as relações sociais e o trabalho, e por essa via invade e reorganiza a vida familiar, os valores e as atitudes, o modo de agir, pensar e sentir.
O plano estatal, porém, resiste, entre outras coisas porque nele estão encastelados os interesses mais bem organizados, que se protegem e tentam bloquear as mudanças que lhes roubam o chão. São interesses que se enraízam em tradições provenientes de um passado que se repõe, embora esteja questionado pela vida. Um passado que identifica, fornece uma linguagem, legitima práticas e condutas. O sistema político é parte disso, e sua resistência à mudança pode impressionar, mas é compreensível.
A sociedade que se metamorfoseia esbarra, assim, numa estrutura de interesses que controla o Estado e dificulta o acesso à política pela população mais sintonizada com a contemporaneidade. O novo é forçado a negociar as regras do jogo com o velho, numa pendência que pode se estender por longo tempo.
É por isso que os candidatos que se querem avançados são levados a se aliar aos setores atrasados. O grito de “renovação” ecoa, mas não se traduz politicamente. O Congresso – visto com desconfiança pela população – não mudará sua composição nas próximas eleições. Os candidatos presidenciais, por sua vez, flertam com o passado, com o mundo que se dissolve e fornece votos, uns vociferando autoritarismo contra a democracia e se oferecendo como salvadores da Pátria, outros tentando abrir uma brecha na muralha.
A “velha” política mostra que é uma das faces ativas da política realmente existente. Não sairá de cena de um dia para outro.
Um campo democrático generoso e renovador é uma construção complexa. O fato de privilegiar mais o futuro que o imediato não o torna sedutor para fins eleitorais. A disposição de agir como uma força – uma ideia, uma causa, uma época – que atraia os democratas que estão espalhados, articulando-os e os unificando, colide com as conveniências e as vaidades dos que, em princípio, deveriam ser seus maiores animadores. O campo democrático precisa questionar os partidos e os procedimentos políticos, mas não tem como se dissociar deles.
Além do mais, sua mensagem não chega aos jovens, que são o dínamo da vida, e não chega porque sua música toca num tom para o qual os ouvidos jovens ainda não foram treinados.
A ideia unitária, em suma, precisa de tempo para frutificar, e o mundo metamorfoseado está marcado pela urgência. Ainda assim, é dela que algum oxigênio poderá ser extraído e injetado na vida política nacional. Talvez não vença no curto prazo, mas tem todo o futuro a seu dispor.
É da ideia unitária que algum oxigênio poderá ser extraído e injetado na vida política do País

quarta-feira, 25 de julho de 2018

ECONOMIA - Recessão mundial à vista?

Recessão mundial à vista?

Um artigo do economista Tom Wise no blog do Bank of England, o banco central inglês, foi um dos mais citados entre investidores e analistas na semana passada: o quanto os preços dos metais são um termômetro mais preciso do que a maioria dos indicadores antecedentes – como as pesquisas de sentimento de consumidores e empresários – para prever o desempenho da economia mundial no curto prazo.
No artigo, Wise apresentou números mostrando o quão próximo o consumo de metais segue de perto as variações do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Também mostrou uma elevada correlação entre os preços desses metais (tomando como base o índice S&P GSCI metais industriais) e a oscilação do PIB e do volume de comércio mundial.
As commodities agrícolas, o petróleo e os metais representam 25% das exportações no mundo. No ano passado, quando as cotações dos metais dispararam mais de 30%, o PIB mundial cresceu 3,7%, no ritmo mais acelerado desde 2011.
O burburinho sobre o artigo se deu porque, justamente na semana passada, os preços de vários metais industriais, como cobre e zinco, entraram ou estão próximos do chamado “bear market”, jargão em inglês para quando as cotações caem mais de 20% em relação ao seu último pico de preço.
Diante de tamanha correção atual dos preços dos metais, o quão provável pode esse termômetro apontar para uma inevitável recessão da economia mundial neste ano ou no próximo?
Na semana passada, a cotação do zinco chegou a cair para US$ 2.473 a tonelada, 31% abaixo da máxima do ano, atingida em fevereiro. Também na semana passada, o cobre caiu abaixo de US$ 6.000 a tonelada, acumulando uma queda de quase 19% ante o pico de US$ 7.348 no início de junho, antes da escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e seus principais parceiros, como China e União Europeia.
Desde esse pico, entraram em vigor as tarifas pelos EUA de 25% sobre US$ 34 bilhões em produtos da China, com os chineses retaliando os americanos na mesma magnitude. Os EUA já detalharam a taxação de 10% sobre 6.031 produtos chineses que representam compras anuais de US$ 200 bilhões. Isso sem falar que os americanos já taxaram as importações de aço e alumínio de vários parceiros, entre eles a China e a UE.
Além dos temores de um impacto negativo ao crescimento do PIB mundial com uma guerra comercial, os preços dos metais sofreram uma forte correção em razão do movimento de alta global do dólar desde que o Federal Reserve (Fed) indicou que subirá os juros americanos a um ritmo mais forte do que o mercado vinha precificando.
Apesar de as cotações das commodities serem em dólar, a maior parte do consumo e da produção das matériasprimas ocorrem em países que usam outras moedas. Assim, é comum o dólar subir e os preços das commodities caírem – e vice-versa.
Quanto mais os preços dos metais podem cair? Para Daniel Ghali, estrategista de commodities da TD Securities, o movimento de correção nos preços dos metais está perto do fim. “Algumas razões apontam para isso: os melhores dias em termos de fortalecimento no valor do dólar ficaram para trás e um enfraquecimento do dólar tradicionalmente dá um impulso aos preços das matérias-primas”, diz Ghali. “Além disso, espero que a China comece a adotar uma política de maior estímulo para sua economia, o que é importante para a recuperação nos preços dos metais, pois os chineses representam cerca de 50% do consumo global das commodities.”
Também na opinião de Georgette Boele, estrategista-chefe de câmbio e de metais preciosos do banco ABN Amro, a forte correção nos preços dos metais está próxima de acabar. No curto prazo, alerta ela, ainda vão pesar sobre esses preços fatores como o dólar mais forte, a alta de juros americanos pelo Fed, fatores técnicos envolvendo a oferta e a demanda dessas matérias-primas e a continuidade da tensão comercial entre Estados Unidos e seus parceiros.
Por enquanto, essa queda forte nos preços dos metais reflete apenas mais os temores do que pode vir – como uma guerra comercial ou uma elevação mais forte dos juros pelo Fed – do que propriamente uma perda de fôlego da economia mundial apontando uma recessão.
A queda forte nos preços dos metais, por ora, reflete mais temores do que pode vir

segunda-feira, 23 de julho de 2018

DEMOCRACIA - Eleger presidente autoritário é risco à democracia

‘Eleger presidente autoritário é risco à democracia’

Autor do livro ‘Como as democracias morrem’ vê sinais preocupantes na democracia brasileira nas eleições de 2018

STEPHANIE MITCHELL
Turbulência. Para Steven Levitsky, Brasil vive uma ‘tripla crise’: o descrédito da elite política, a crise econômica e a polarização. ‘São sinais preocupantes’
Presidentes autoritários eleitos pelo povo estão matando democracias, diz o cientista político Steven Levitsky. “Os EUA falharam em 2016 e espero que o Brasil consiga evitar isso.”
As democracias morrem hoje pelas mãos de presidentes autoritários eleitos pela população, avalia o cientista político de Harvard Steven Levitsky, que vê no Brasil sinais de vulnerabilidade. “Os Estados Unidos falharam em 2016 e espero que o Brasil consiga evitar isso”, afirmou ele em entrevista ao Estado por telefone. Crítico do pré-candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro, ele diz que alterar a composição da uma Suprema Corte está na “página um” de manuais autoritários.
Levistky é autor do livro Como as democracias morrem, que figura nas listas de mais vendidos nos Estados Unidos e terá sua versão traduzida para o português vendida no Brasil a partir de setembro, pela editora Zahar. Em 9 de agosto, ele vem ao País para debater a situação da democracia brasileira em evento no Insper.
O que indica que uma democracia está morrendo? Vê esses sinais no Brasil?
Há muitas formas de uma democracia morrer, e não só um sinal único. A democracia no Brasil é considerada por muitos cientistas políticos como uma das mais sólidas da América Latina, então não acredito que há uma morte iminente. Dito isto, o Brasil tem passado por uma crise extraordinária durante os últimos três, quatro anos, a “tripla crise”. O País vive o que talvez seja o maior escândalo de corrupção da história de qualquer democracia: a Lava Jato, que se espalha no Brasil por todos os partidos políticos. A democracia está ameaçada sempre que todo o establishment político perde a confiança dos cidadãos. Quando os cidadãos estão convencidos de que todos os políticos de todos os partidos são corruptos, eles se tornam mais propensos a votar em um outsider que prometa tirá-los de lá. Pode ser um populista como Donald Trump (Estados Unidos) ou (Jair) Bolsonaro, ou como Hugo Chávez (Venezuela) ou (Rafael) Correa (Equador).
E como chegamos a isso?
O descrédito da elite política, somado à terrível performance econômica e à intensa polarização vista desde 2014 são três sinais preocupantes no Brasil. E o quarto é a emergência no cenário eleitoral de candidatos que não estão comprometidos com uma democracia liberal. Jair Bolsonaro diz abertamente que não está comprometido com regras de democracias liberais. Democracias estão sempre vulneráveis à eleição livre de autoritários. A forma como as democracias morrem hoje não é a mesma pela qual a democracia do Brasil morreu em 1964. Não é mais por meio de um golpe militar. São presidentes e primeiros-ministros eleitos que destroem as democracias usando as instituições democráticas. E a forma de prevenir isso de acontecer é prevenindo a eleição de figuras autoritárias. Os Estados Unidos falharam em 2016 e espero que o Brasil consiga evitar o mesmo erro.
É possível dissociar a imagem dos políticos da imagem das instituições que representam?
Esse é um grande desafio que o Brasil enfrenta. Quando toda a elite política de um País entra em descrédito fica difícil separar o descrédito dos políticos do das instituições. E das instituições do da democracia. Como você remove os políticos sem enfraquecer as instituições ou a democracia? O que precisa acontecer é emergir uma nova elite política. Talvez um partido, talvez mais de um partido, talvez um grupo de políticos, com proposta de mudar as práticas e governar sem corrupção.
Há o risco de lideranças autoritárias se apropriarem do discurso anticorrupção?
No contexto em que a percepção dos níveis de corrupção é alto, todos os políticos irão defender o combate à corrupção. É muito difícil para os eleitores acreditar. A chave é identificar os políticos que realmente vão tornar esse discurso uma política ao assumir o gabinete. A reforma democrática no Brasil irá acontecer se esses dois passos vierem. O primeiro passo é fácil. Chávez, Alberto Fujimori (Peru), Trump... Todos se disseram contra a corrupção. Então, de fato, o discurso demagogo anticorrupção é muito comum entre políticos autoritários.
Há caminho democrático fora da política tradicional?
Não. Ao menos, até agora, não há forma de fazer uma democracia funcionar sem políticos e sem partidos.
Por que maiorias em alguns países elegem o que você define como novos autoritários? A sociedade concorda em fragilizar a democracia ou minimiza o risco de um real autoritarismo?
Precisamos diferenciar uma democracia puramente majoritária de democracias liberais. Em democracias liberais há um conjunto de direitos e liberdades individuais – liberdade de expressão, por exemplo – para proteger as minorias. O que chamamos de democracia não é simplesmente aquilo pelo que as pessoas votam. É o que as pessoas votam limitado pelo conjunto de direitos constitucionais. Então, ainda que 99% da população vote por um presidente que prometa acabar com a liberdade de expressão, em uma democracia liberal ele não poderá fazer isso. As pessoas normalmente não votam naqueles candidatos por conta de uma plataforma autoritária. É isso que faz Bolsonaro diferente dos demais casos. Na maioria das vezes – Chávez na Venezuela, Correa no Equador e outros – as pessoas votaram em populistas que, em algum momento quando ascendem ao poder, destroem a democracia em algum nível. Isso é efeito da eleição de um populista. As pessoas estão votando por alguém que promete – dentro de um contexto em que a sociedade está insatisfeita com o status quo – defender o povo contra as elites políticas. Então, em algum sentido, os eleitores são enganados.
No livro, o senhor diz que políticos não podem se tratar como inimigos. Em cenários em que há uma figura autoritária no campo eleitoral, como os opositores devem tratá-la?
Em geral, quando adversários políticos se tratam como inimigos há uma ameaça à democracia. No caso de autoritários, a lição aprendida é que é absolutamente crucial que partidos políticos democráticos de forças diferentes se reúnam em oposição a eles. No caso do Brasil, argumentaria que partidos devem se unir contra Bolsonaro, especialmente se ele for para o segundo turno.
O impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são episódios que intensificaram a polarização no País. Como você vê esses eventos?
Os brasileiros estão muito polarizados com relação a isso e é muito fácil tomar um lado ou outro. Mas é mais complexo do que isso. Os dois atos foram institucionais, legais, mas os dois são perigosos para a democracia. Aqueles que removeram Dilma e a substituíram criaram um governo completamente diferente do de centroesquerda. O atual governo vai em outra direção. Isso não respeita o espírito das eleições de 2014. Ainda que o impeachment tenha sido legal, meu entendimento é de que foi politizado e viola o “espírito das leis”. Sobre Lula, eu não tenho os detalhes legais do caso e é impossível portanto tomar posição sobre ele ter cometido ou não um crime. Isto posto, é preciso ser muito cuidadoso ao se excluir um candidato da corrida presidencial. É algo perigoso a se fazer.
O pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro falou em ampliar o número de cadeiras no STF se eleito. Como você analisa isso?
Alterar a Suprema Corte está na página um de todos os manuais autoritários por aí. É uma das primeiras medidas que autoritários fizeram na Argentina, na Turquia, na Hungria, na Venezuela, no grupo de Fujimori (Peru). Todos eles. E Bolsonaro está dizendo isso antes de chegar ao poder, é honesto nesse sentido, pois a maioria dos autoritários esconde isso durante a campanha. Mas é extremamente perigoso dar a alguém no mandato do Executivo o poder de remodelar a Corte.
Outro professor de Harvard, Steven Pinker, acredita que os rumores sobre a morte da democracia são exagerados. Como você vê?
Há desafios para as democracias do mundo hoje. A democracia está perdendo poder, influência e prestígio e isso provavelmente é um desafio em muitas partes do mundo. Acho que é uma preocupação real e não sou tão otimista quanto Steven Pinker.
Quando os cidadãos se convencem de que todos os políticos de todos os partidos são corruptos, eles se tornam mais propensos a votar em um outsider, um populista.”
Ao menos, até agora, não há forma de fazer uma democracia funcionar sem políticos e sem partidos.”
Alterar a Suprema Corte está na página um de todos os manuais autoritários por aí. É uma das primeiras medidas que autoritários fizeram.”

terça-feira, 17 de julho de 2018

LINGUAGEM - Coisas escorubiúdas

Humberto Werneck

Dona de linguagem criativa, talento que teria feito dela escritora, minha mãe entortava palavras sem maior cerimônia.
Rendeu mais que o esperado a conversa da semana passada, na qual arrolei palavras e expressões de uso exclusivo, ou quase, na casa onde me criei. Cutucada, a memória verbal de quem leu “Gasguitos na gagosa” fez desabar – via internet, telefone e nessa modalidade de comunicação que as redes sociais ameaçam tornar obsoleta, o papo presencial – uma fartura de amostras de vocabulário ainda circulantes ou exumadas de baús domésticos.
Na minha própria família, para começar, a prima Lêda desempoeirou neologismo de uso corrente na casa da tia Dorinha e adjacências – um adjetivo que, pensando bem, é perfeito para designar algo esquisito e confuso: “Que coisa mais escorubiúda, meu Deus!”.
Não menos escorubiúdo, e igualmente não dicionarizado, é um substantivo de que o avô materno do primo Ruy se valia para pedir que se estancasse uma corrente de vento: “Fecha essa sucarra!”. Em Porto Alegre, minha tia-avó Gilda dava sentido particular à palavra “lira” para adjetivar pessoa ou objeto de mau gosto: “Fulana é muito lira”, tange o primo Alvaro à guisa de exemplificação.
Na casa da tia Lygia e do tio Carlos, ir ao banheiro era ir ao “sorti” – e me pergunto, sem me responder, se a incorporação do vocábulo não teria a ver com algum colégio de moças dos velhíssimos tempos, em que a aluna, quando às voltas com urgências fisiológicas, pedisse à freira francesa, no idioma desta, licença para “sortir”, ir lá fora. Em nossa família, já que cheguei a tais baixios (ou “baixeiros”, diria minha mãe), um dos produtos de semelhantes surtidas se denominava “an-an”, expressão reveladora do esforço despendido. Mas sequer merecia nome o diminuto acidente geográfico corporal de onde ele provinha – ao contrário do que se passava na casa de meus amigos Barros de Carvalho, onde o inominável era o “ás de copas”. Ou no lar de amiga minha, onde a mãe, versada em romance nordestino, recomendava às crianças que lavassem bem o “zé lins”.
Na minha família, como em tantas outras, havia palavras portadoras de intrigantes deformações. Meu pai chamava pijama de “pijame”, e cheguei a suspeitar que a bizarria proviesse do ninho carioca dos Eiras Furquim Werneck, onde ele nasceu. Mas parece que não foi assim, pois na casa de seu irmão Jorge, informa o Ruy, tal indumentária era pijama, como em qualquer parte – com uma particularidade, porém, que nos conduz ao terreno do que seria um, digamos, transgênero verbal, pois lá se dizia “a” pijama. Mas não se chegou, que eu saiba, ao correspondente “o camisola”.
No clã paulista dos Sardenberg, a que pertence meu amigo Izalco, a herança da avó paterna incluiu termo criado pela dona Leomênia para designar gente grosseira, sem classe, maleducada: “retubefá”. Mais recentemente, a família incorporou outra expressiva esquisitice, o “escapanu”, aplicável, com algo próximo do desdém, a um fulano qualquer: “Quem é esse escapanu?”, querem saber os Sardenberg. Poeta que poucos já puderam ler, o Izalco se encantou mais com a palavra do que com o significado, e se pergunta se no “u” final não haveria um laivo de idioma romeno.
De Mariana, Minas Gerais, o Danilo Gomes levou para Brasília o termo “reculuta” – corruptela, explica, de “recruta”, jovem soldado cujo apetite vertiginoso inspirou o apelido de todo aquele, militar ou não, que dê conta de um pratão de comida. É também de Mariana, informa o Danilo, certa forma – piedosa ou maligna? – de referir-se a criatura muito feia: “Sofre das feições...”.
Já o Guilherme, belo-horizontino com raízes na mineira Teófilo Otoni, contou que na família de seu pai havia explicação para quem se enfurnasse no quarto e lá permanecesse: “Ah, ele tá de juanico...”. Origem da expressão? Um tal Juanico, famoso na cidade pela mania de trancafiar-se.
Quanto ao carioca Antonio Carlos, que desfrutou de infância em Cachoeiro de Itapemirim, trouxe de lá o verbo “esburrar”, sacado, na maioria das vezes, para falar do leite fervente que transborda no fogão. O transbordante saber de Antonio Carlos, de que este cronista tem sido beneficiário, é prova de que “esburrar” admite sentido figurado.
Dona de linguagem criativa, talento que teria feito dela uma escritora, minha mãe entortava palavras sem maior cerimônia. Imagino o trabalho que daria a um corretor ortográfico. Em sua prosa, que infelizmente não baixou ao papel, “rebordosa” era “rebordose”, e o substantivo “tendepá” – briga, rixa, confusão – ganhava involuntário acento afrancesado como “tandepá”.
Era mestra, a dona Wanda, na criação de palavras. E dada, também, a injetar sentido novo em vocábulos já dicionarizados. “Embondo”, que no Houaiss é “aquilo que dificulta, que embaraça”, ou “estorvo, impedimento”, virava sinônimo de conversa mole para enrolar o próximo. Embondar era o que fazia eu, na tentativa de explicar meus recorrentes malfeitos, escolares ou não. Coisa vagabunda, de má qualidade, ganhava de minha mãe o rótulo “ribimba”. Nada a ver – fui conferir – com o verbo “rebimbar”, como faz um sino em momento de excitação.
Na família da mamãe, mineira a mais não poder, usava-se linguagem tão elíptica quanto enviesada, o que impunha ao interlocutor o trabalho de ler também – ou sobretudo – os silêncios. Entre os Avelar Azeredo Coutinho da antiga geração, não se dizia que alguém estava bêbado ou de porre, e sim “na losna” – embora, desconfio, nem todos soubessem que a palavra designa poderosa beberagem alcoólica, o absinto. Tampouco se dizia que alguém era homossexual. Naquela fortaleza da discrição e da virtude cristã, não convinha dar nome aos bois – e menos ainda aos mamíferos ruminantes da família dos cervídeos providos de cornos ramificados. O máximo a que se chegava remetia, sem aparente malícia, a cavaleiro e montaria: “Esse camarada não é muito firme nos arreios...”.
Experiência fascinante: fuçar nos baús verbais de família, sua ou alheia

ECONOMIA -M Atuação do congresso

Ana Carla Abrão

Ao proteger os recursos de alguns, nossos congressistas estão colaborando para que faltem recursos para todos.
OBrasil hoje flerta com o caos. A relação dívida/PIB supera os 70%, sem perspectivas de reversão nos próximos anos caso não se aprofundem os cortes de gastos. Precisamos de um forte ajuste fiscal para finalmente equilibrar as contas. E não se trata aqui de cumprir ou não o teto de gastos, a regra de ouro ou a LRF e a Constituição. Trata-se de evitar o pior com a volta dos juros altos, a impossibilidade do crescimento, a manutenção do desemprego. Mas essa perspectiva, cada vez mais provável, parece não sensibilizar um Congresso Nacional que aprofunda a crise, atuando de forma irresponsável e descolada da realidade.
Estamos tratando de dois lados da mesma moeda. Irresponsabilidade fiscal significa sacrificar a população, em particular os mais pobres. Isenções fiscais concedidas por pressão de empresas financiadoras de campanha representam falta de recursos para investimentos. A consequência é um setor público que investe menos de 2% do seu Orçamento, comprometendo nossa produtividade e garantindo que um dos nossos grandes gargalos para o crescimento se mantenha presente. Projetos de leis ou jabutis incluídos às pressas por pressões corporativistas e que garantam benefícios tributários, blindagens e privilégios a categorias ou a setores específicos, vedando cortes de gastos determinam, por outro lado, a piora adicional no atendimento público de saúde já precário e condenam nosso ensino público a manter a qualidade sofrível de hoje.
Ao proteger os recursos de alguns, nossos congressistas estão colaborando para que faltem recursos para todos. Ao garantir que alguns poucos mantenham privilégios, estão contribuindo para que a crise econômica se aprofunde, para que a confiança piore, para que a criminalidade aumente, para que a desigualdade social se perpetue. A irresponsabilidade fiscal de um Congresso que teima em não fazer os ajustes necessários condena o nosso País a não crescer e deixa à mercê do azar os mais de 12 milhões de brasileiros que lutam contra o desemprego.
A crise atual está em todos os níveis federativos. Na União, ela se reflete na rigidez dos gastos obrigatórios, que consomem quase todo o Orçamento e dificultam um ajuste mais profundo, colocando em risco conquistas recentes como a redução dos juros; nos Estados, é o colapso dos serviços públicos básicos, fruto de um comprometimento das receitas com despesas de pessoal que há muito deixou os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal para trás, comprimindo investimentos e agora também custeio; nos municípios, cada vez mais dependentes de transferências de Estados quebrados e de uma União depauperada, prefeitos tentam prover com poucos recursos próprios os muitos serviços que lhes caíram no colo com a Constituição de 88. Ou seja, a situação é grave e mereceria atuação direta do Congresso na direção de buscar soluções para a crise – e não de aprofundá-la ainda mais.
Se por um lado são grandes as dificuldades em aprovar medidas de ajuste, como a redução de subsídios injustificáveis e as restrições a gastos da Lei de Diretrizes Orçamentárias, há clara tendência em aprovar aumentos de gastos, ignorando a situação fiscal e seus impactos sobre a sociedade como um todo. Vide os projetos de criação de novos municípios, de aumentos dos tetos salariais, do marco regulatório para o transporte de cargas e de revisão das compensações por perdas por exportações, cujo principal objetivo é o de salvar governadores com a corda da LRF no pescoço.
Não precisamos de um Congresso assim, não precisamos de representantes que atentem contra 200 milhões de brasileiros e trabalhem pela bancarrota do Brasil. Suas decisões têm significado menos emprego e menos renda para a população, elas têm colaborado diretamente para que mais brasileiros morram nas filas dos hospitais, mais crianças estejam fora da creche ou em escolas que nada ensinam e mais jovens se percam para o crime. Decisões como as que estamos assistindo significam um País sem futuro, uma população sem perspectivas, uma sociedade sem esperança. É isso que senadores e deputados estão nos legando, esquecendo que foram eleitos para lutar por nós, e não contra nós.
Não precisamos de representantes que trabalhem pela bancarrota do Brasil

INTERNET / SATÉLITE STF derruba liminar que impedia programa internet para todos


 Por Anne Warth e Mariana Lima - O Estado de S. Paulo
Ministro Gilberto Kassab disse que programa 'Internet para Todos'

STF derruba liminar que impedia programa ‘Internet para Todos'

Projeto estava parado desde que a Justiça Federal do Amazonas suspendeu a parceria da Telebrás com a empresa americana Viasat, que vai operar Satélite
16/07/2018 | 22h46
* Atualizado às 23h30.
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmen Lúcia, derrubou nesta segunda-feira, 16, uma liminar da Justiça Federal do Amazonas que suspendia a parceria da Telebrás com a empresa americana Viasat para exploração do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC). Em função da liminar, vários programas de banda larga com o uso do satélite brasileiro, entre eles o “Internet para Todos”, estavam parados desde abril. 
O contrato foi suspenso em março por uma liminar dada pela Justiça do Amazonas, a pedido da Via Direta Telecomunicações e Internet, e pelo Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1), a pedido do Sindicato Nacional de Empresas de Telecomunicações por Satélite (Sindisat). 
O satélite brasileiro foi lançado em órbita no dia 4 de maio de 2017 com investimentos de R$ 2,8 bilhões. Ele tem duas bandas: uma é de uso exclusivo militar, já em operação; outra de uso civil, para internet via satélite. Ele está em funcionamento desde janeiro deste ano, mas é preciso construir antenas e infraestrutura em terra para fornecer sinal a milhares de localidades no País, como escolas, entes públicos e também clientes comerciais.
A contratação da Viasat foi feita após um chamamento público feito pela Telebrás para exploração do satélite, que não teve interessados. Em seguida, a companhia utilizou a modalidade de “contrato associativo”, previsto na nova Lei das Estatais, que permitiu ceder uma parte da capacidade do satélite para a Viasat.
A Via Direta questionou essa contratação, e as decisões judiciais acabaram levando ao desligamento do sinal. A Telebrás afirma que, sem uso, o satélite gera perda diária de R$ 800 mil. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas a ministra Cármen Lúcia não viu risco à soberania nacional e mandou o caso voltar para a primeira instância judicial. A Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu da decisão e argumentou que a suspensão do contrato causava prejuízos ao interesse público e grave lesão às ordens pública e econômica. 
Programa. De acordo com o ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, o ministério vai retomar o “Internet para Todos” já nesta semana. “Vamos começar a fazer a implementação simultânea nas mais de 5 mil cidades que vão receber o programa”, afirmou ao Estado. “Com certeza a ministra viu coerência no pedido de suspensão e a seriedade do projeto.” O ministério estima que mais de 53 milhões de brasileiros sejam beneficiados com o programa.
O presidente da Telebrás, Jarbas Valente, disse que a estatal e a Viasat estão prontas para a instalação de 15 mil pontos de conexão do programa, que vão atender escolas, postos de saúde, comunidades quilombolas e aldeias indígenas.

sábado, 14 de julho de 2018

FAKE NEWS - Estadão Verifica


As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Estadão Verifica completa um mês com 17 mil mensagens recebidas no WhatsApp

Por meio do número (11) 99263-7900, cerca de 1,3 mil leitores entraram em contato com a equipe de checagem do Estado

Estadão Verifica
13 Julho 2018 | 05h00
O Estadão Verifica recebeu mais de 17 mil mensagens via WhatsApp desde que lançou o canal direto de comunicação com os leitores, que completa 1 mês nesta sexta-feira, 13 — média de mais de 560 por dia. Por meio do número (11) 99263-7900, cerca de 1,3 mil leitores entraram em contato com a nova equipe de checagem do Estado para verificar a credibilidade da boataria que domina as redes sociais e o aplicativo de mensagens instantâneas.
O aplicativo de mensagens WhatsApp. Foto: Gadini/Pixabay
+ Boato circula com falso ‘plano de dominação comunista’ do PT
A equipe tem feito uma filtragem atenciosa das mensagens. Depois de ver quais são as mais frequentes e avaliar o grau de interesse público delas, as informações são apuradas e o texto com o desmentido é publicado no blog. Além disso, os próprios leitores que enviaram as mentiras recebem uma resposta com o link para a matéria.
Duas iniciativas semanais têm tentado aproximar ainda mais a relação com os leitores. Uma delas é o vídeo publicado às sextas-feiras no YouTube da TV Estadão. Apresentado sempre por dois dos nossos repórteres, ele resume as principais publicações do Verifica na semana. A outra é uma espécie de “newsletter de WhatsApp”, com os links das últimas matérias, enviada às quartas-feiras para todos os contatos salvos. Além delas, há também o Twitter do blog, que posta todos os desmentidos no @estadaoverifica.
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Os boatos costumam pegar carona com o que está em discussão no País em determinado momento. Exemplo: nesta semana, quase todas as mensagens envolviam o PT ou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso no âmbito da Lava Jato, por causa da “novela” judicial do último domingo, 8. Já os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) costumam ser alvo quando dão votos e declarações que desagradam algum lado do espectro político. Mentiras sobre Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes, por exemplo, já foram desmentidas pela equipe do Verifica.
Além de desmontar boatos, o blog tem publicado textos sobre o fenômeno das notícias falsas e o modo como o poder público tem lidado com ele. É o caso das reportagens “Projetos de lei contra notícias falsas atropelam liberdade de expressão”, publicada no dia 3 de junho, e “TSE coloca sigilo em atas de reuniões sobre fake news e eleições”, de 29 de junho.
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A diretora do First Draft, Claire Wardle, e o presidente da Abraji, Daniel Bramatti, durante lançamento do projeto Comprova, no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Foto: Alice Vergueiro/Abraji
Conglomerado. O Estadão Verifica faz parte do projeto Comprova, que reúne 24 veículos de mídia para combater a desinformação nas próximas eleições. Jornalistas da coalizão vão trabalhar de forma colaborativa na detecção e verificação de rumores, conteúdo enganoso e táticas de manipulação nas redes sociais. O projeto é coordenado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com apoio do First Draft, entidade ligada ao Centro Shorenstein para Mídia, Política e Políticas Públicas, da Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard, dos Estados Unidos.