Como será o trabalho do futuro?
Oimpacto
das novas tecnologias sobre o emprego e a renda é um dos temas centrais
das discussões do Fórum Econômico Mundial de Davos neste ano. A
preocupação é geral. Multiplicamse os estudos que antecipam uma grande
destruição de empregos e de renda em decorrência da automação e da
inteligência artificial na execução não apenas de tarefas repetitivas,
mas também das intelectuais e até emocionais.
A
velocidade das inovações nos dias atuais é estratosférica. A cada dia
novas tecnologias dispensam milhares de seres humanos e reduzem a renda
de outros tantos. O que fazer? Ninguém sabe. Mas há muitas opiniões. Uma
delas prega simplesmente não fazer nada porque, a exemplo do que
ocorreu na primeira revolução industrial, os empregos a serem criados
superarão os destruídos.
No extremo oposto
estão os que enfatizam as peculiaridades das tecnologias modernas que,
ao contrário das antigas, são quase autônomas ao provocarem utilizações
não antecipadas com desdobramentos inesperados que destroem empregos.
No
meio desses extremos estão os que advogam calma, argumentando que a
destruição de empregos decorrente das novas tecnologias será contida
pelas leis trabalhistas e ambientais.
Ao
lado deles estão os que propõem tributar os robôs e a inteligência
artificial como forma de conter a sua exagerada adoção. E vêm as
críticas: isso significa inibir a criatividade humana – absurdo.
As
sugestões mais comuns incidem nos campos da educação. Argumenta-se que,
com um ensino de boa qualidade, os trabalhadores poderão acompanhar e
se ajustar às transformações do trabalho. Nesse mesmo campo, porém, há
os que alertam para uma triste realidade: as escolas convencionais não
conseguem ajustar os currículos e reciclar os professores na velocidade
das mudanças tecnológicas – é uma corrida desigual.
Diante
de tanto desânimo, vêm os que capitulam para dizer que,
inexoravelmente, o mundo do futuro terá poucos empregos. Mas as novas
tecnologias proporcionarão ganhos espetaculares de produtividade,
reduzindo drasticamente o preço dos bens e serviços, o que permitirá
viver com poucos recursos a serem oferecidos pelo Estado na forma de
renda mínima. Imediatamente protestam os céticos: qual é o país que
aguenta tamanha despesa?
Enfim, estamos
diante de muitas incertezas que, confesso, me tiram o sono. Excelentes
pesquisas foram recentemente apresentadas por Kevin LaGrandeur e James
J. Hughes: Surviving the machine age and the transformation of human
work, Ed. Palgrave-Macmillan, Cham (Suíça), 2017. Mas nenhuma delas
oferece uma solução segura para o desemprego tecnológico e a redução de
renda acima apontados.
Para conter minha
ansiedade, raciocino da seguinte maneira: a acomodação das pessoas no
novo mundo do trabalho exigirá melhor articulação das escolas com as
empresas (para os que trabalharem como empregados) e simplificação dos
cursos e treinamentos oferecidos pela internet (para os que trabalharem
como autônomos e mesmo como empregados). No primeiro caso, tenho em
mente os sistemas de educação e treinamento continuados adotados por
escolas e empresas de vários países avançados (Japão, Alemanha,
Escandinávia, etc.). Com isso os empregados acompanham e se ajustam às
novas tecnologias. No segundo caso, a simplificação das tecnologias e a
expansão de cursos a distância ajudarão os trabalhadores a acompanhar a
evolução meteórica das inovações. Mesmo assim, repito, meu sono não é
sereno, especialmente quando penso na precária situação do Brasil neste
campo.
Meu sono não é sereno quando penso na precária situação do País neste campo
PROFESSOR
DA USP, É PRESIDENTE DO CONSELHO DE EMPREGO E RELAÇÕES DO TRABALHO DA
FECOMERCIO-SP E MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS
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