O que é produtividade?
No frenesi de apagar incêndios, perde-se a dimensão dos problemas estruturais
Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo
12 Maio 2017 | 05h00
A produtividade de uma economia é um conceito econômico fundamental, mas ao mesmo tempo não é dos mais fáceis de entender. De forma simplificada, a produtividade é aquele algo mais que faz com que, dada uma mesma quantidade de fatores empregados na produção, isto é, trabalho (nivelado pela educação) e capital, algumas economias produzam mais do que as outras.
Em termos de teoria econômica, chega-se à chamada “produtividade total de fatores (TFP)” como um resíduo. Ela é justamente aquele diferencial de crescimento que não se consegue explicar apenas pela elevação do uso de trabalho e capital na produção. A ideia é que esse algo mais tem a ver com a eficiência com que os fatores produtivos são empregados e combinados, o que, por sua vez, está ligado à organização e às técnicas de produção, ao ambiente de negócios, à qualidade das instituições, etc.
A grande importância da produtividade é que há limites claros a quanto se pode aumentar a produção apenas empregando quantidades maiores de trabalho e de capital, que são fatores finitos. No entanto, não há limites ao crescimento da produtividade. Assim, no longo prazo, o vetor determinante do desenvolvimento econômico é o crescimento da produtividade.
Não é coincidência, portanto, que a economia brasileira há várias décadas venha crescendo em um ritmo medíocre, que mantém a nossa distância em relação ao padrão de vida dos países mais desenvolvidos; e que, no mesmo período, o desempenho da produtividade nacional tenha sido péssimo.
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O Brasil é um país que vive quase permanentemente num turbilhão econômico e político, em que a agenda pública é dominada pela necessidade de enfrentar crises agudas: acabar com a hiperinflação, evitar o calote da dívida interna e externa, lutar contra ou a favor do impeachment de presidentes, escapar de mais um apagão e lidar com outros sufocos do gênero.
Nesse frenesi de apagar incêndios sucessivos, perde-se a dimensão dos problemas estruturais brasileiros, como o crescimento medíocre da produtividade. Esta é uma tendência inercial de décadas que, a perdurar (e nada indica que esteja para mudar), condena o Brasil a permanecer um país subdesenvolvido, com todas as injustiças sociais e sofrimentos associados a esta condição, a perder de vista no horizonte histórico futuro.
Assim, não é exagero dizer que a produtividade é o maior problema econômico e social brasileiro. E o que não falta são estudiosos e pesquisadores sobre o assunto. Nessa quinta-feira, no Rio, um seminário na FGV-Rio, para lançamento de um livro do Ibre sobre produtividade, reuniu alguns dos melhores pensadores sobre o tema.
Vinicius Carrasco, diretor de Planejamento do BNDES, trouxe números que mostram o drama do caso brasileiro. Tomando a produtividade do trabalho – que mede o produto anual médio por trabalhador, um conceito mais simples que a TFP –, o Brasil está hoje praticamente no mesmo nível de 1980: US$ 12,8 mil por trabalhador. Já os Estados Unidos saíram de US$ 41,4 mil para US$ 70,1 mil no mesmo período.
Não é trivial comparar produtividade de países em períodos tão longos, e os resultados podem mudar conforme a metodologia. Mas todas elas atestam a incapacidade do Brasil durante muitas décadas de convergir para o padrão de produtividade do mundo avançado.
Durante o seminário na FGV, discutiram-se as distorções da economia brasileira que sabidamente prejudicam a eficiência e, portanto, a produtividade, como crédito subsidiado e direcionado, falta de concorrência, protecionismo comercial, regulação malfeita dos setores de infraestrutura e outras. Parece algo muito distante de salário mínimo, Bolsa Família e Previdência. No entanto, quando se mira o futuro, a agenda da produtividade pode ser muito mais decisiva para a sorte dos pobres brasileiros do que as políticas previdenciárias e assistenciais.
*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV
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